Aquilo que estás a ver não é aquilo que estás a pensar

(Por Estátua de Sal, 28/01/2022)

Um saudoso amigo meu, psiquiatra já falecido, costumava contar a seguinte história, exemplificativa da capacidade de mistificação dos seres humanos. O marido, por exigência inesperada, regressa a casa a meio da tarde e dá com a esposa nua, na cama com um desconhecido. Ela, ultrapassada a atrapalhação inicial, dispara-lhe com sorridente bonomia:

– Querido, aquilo que tu estás a ver não é aquilo que tu estás a pensar.

Lembrei-me desta história a propósito das repetidas negações e reinterpretações que as declarações de Rui Rio têm vindo a suscitar. Ele diz, mas não era bem isso o que queria dizer. O malvado do Costa é que “mente” sobre aquilo que ele diz.

Ele votou contra o aumento do salário mínimo, mas é mentira quando dizem que é contra.

O PSD votou contra o SNS, quer mudar o artigo da Constituição que postula que a saúde deve ser “tendencialmente gratuita”, mas é mentira quando se diz que quer pôr os portugueses a pagá-la.

Ele, Rio, disse que “há várias modalidades de prisão perpétua” no debate com o Ventura. Mas é mentira quando dizem que ele se aproximou do Ventura nesse retrocesso civilizacional que o Chega defende.

Ele acha que os maiores rendimentos devem poder optar por descontar parte do seu rendimento para planos de reforma privados, enfraquecendo a Segurança Social. Mas é mentira quando se diz que a quer privatizar.

O PSD fez um acordo de governo nos Açores com o Chega e David Justino – em entrevista à CNN -, veio dizer que não há linhas vermelhas em relação ao Chega. Mas é mentira quando António Costa diz que Rio se propõe governar com o apoio de Ventura e da extrema-direita.

Perante estes exemplos, parece que os eleitores terão que contratar um tradutor especializado para fazer a tradução e a interpretação “autêntica” da verborreia do Dr. Rui Rio. Ele não fala o português que cada um de nós – tristes almas simplórias e incultas -, fala.

Não, ele fala um português quântico e erudito em que cada frase é uma espécie de “dois em um” e significa tudo e o seu contrário. E, tanto é assim, que entre os comentadores das televisões já se disputa o primeiro lugar no concurso de melhor tradutor e intérprete da sumidade. Neste momento, lidera o Gomes Ferreira seguido de muito perto pelo Bernardo Ferrão e pelo Bogalho.  

É por isso que me quer parecer que aquilo que os comentadores de direita atribuem a Rui Rio, como sendo autenticidade e espontaneidade, não passa de falta de jeito para mentir e para a mistificação. Ele bem tenta mas acaba sempre por lhe fugir a língua para a verdade. Ao menos Passos Coelho tinha mais jeito, como se viu em 2011: depois de passar semanas a prometer convicto a descida de impostos, mal chegou ao poder produziu o maior aumento de impostos da história da democracia.

A direita sempre recorreu à mentira e às falsas promessas para se alcandorar ao poder. Mas nunca teve o topete de nos propor um aldrabão desajeitado.

Não, Dr. Rui Rio. O senhor é mesmo um pequeno ditador com tendências de extrema-direita e de solidariedades íntimas com o Dr. Ventura, de quem se prepara para colher o apoio, sem vergonha ou engulhos maiores.

E não nos queira enganar como a adúltera da história. Aquilo que o ouvimos dizer é mesmo aquilo que diz e nos leva a não querer que venha a governar este país.


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8 pensamentos sobre “Aquilo que estás a ver não é aquilo que estás a pensar

  1. Meu caro amigo, a possível vitória do PSD pode nem fazer sentido, face aos argumentos que bem expõe. Mas a realidade é o que é. Já em 2011 só um idiota chapado é que podia acreditar que o Coelho traria um alívio de impostos. E, no entanto, ele ganhou. E o País, claro, perdeu. A direita é, por definição, conservadora. Isto é, tenta conservar os privilégios de quem os tem. Os avanços da humanidade fizeram-se historicamente pelas mãos da esquerda. O que não significa que a esquerda faça tudo bem, evidentemente. Agora, quase 11 anos depois, a direita pode voltar ao poder em circunstâncias idênticas. A culpa, mais uma vez, mas desta feita em grau muito maior, é do BE e do PC, que, ao repetirem o voto negativo ao lado da direita, nos conduziram inevitavelmente ao mesmo resultado. Burros ou o quê?

    • Mas então, a direita do PS não queria eleições porque não queria governar com maioria absoluta? Ou, até, governar à base de “acordos de cavalheiros” com o PSD? Provavelmente, o (resto) do PS foi burro…

  2. Lá está o senhor da estátua, cheio de pica…. Num parágrafo critica o “português quantico” de um candidato, e noutro descontrolando-se, chama-lhe “ditador”… ó senhor, com tantos anos de esquerdismo obsessivo, ainda nao percebeu que chamar ditador ou fascista já não convence ninguém, e só mostra a sua falta de argumentos? Mas não se preocupe, homem, pois Rio não vai ganhar. Vai ser a Esquerda novamente

    • “O código cósmico” (a física quântica como linguagem da natureza)
      «Se é que existe uma tal “consciência colectiva”, não faço a menor ideia de como comprovar a sua existência. Aqueles que apelam para uma consciência colectiva como «a vontade do povo» fazem-no geralmente para servir os seus interesses ou as suas opiniões políticas ou sociais»
      Heinz R. Pagels, Gradiva (Lisboa)
      PS: ” e » meus, virado para Mr Boycott.

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