O “sonho americano” em Portugal, 1951

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/09/2021)

Daniel Oliveira

O candidato da Iniciativa Liberal à Câmara Municipal de Lisboa quis dar nas vistas no debate entre candidatos, na SIC, da forma mais pueril: dizendo a palavra “merda” no fim. Não lhe saiu por acaso, foi treinado, e por ter sido treinado não funcionou. A irreverência estudada tende a passar por exibicionismo. Já quando foi espontâneo, em forma de tweet, foi muito mais esclarecedor.

Legendando uma fotografia dos seus avós, escreveu: “Terra das oportunidades: há 70 anos, dois jovens deixaram a Beira Alta rumo a Lisboa à procura de uma vida melhor. Hoje vivemos com menos liberdade porque cada vez menos ouvimos histórias felizes onde as pessoas são as personagens principais. Está na hora da esperança voltar”. No tweet seguinte acrescentou: “Já na altura o preço das casas era alto e moraram 16 anos com um filho num quarto de uma casa!”

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No dia seguinte, perante a indignação geral, fez um novo tweet, resumindo o que tinha escrito ao tributo a uma história de “superação pessoal” e reafirmando o seu amor à liberdade e lamentando o “aproveitamento político” do que escreveu. Só não se percebe onde caberia, nesse tributo à superação pessoal, a expressão “hoje vivemos com menos liberdade”. Nem qual era a função política deste tributo, a não ser sublinhar que o “elevador social” hoje não funciona (e funciona mal, por razões exatamente opostas às que a IL costuma apontar), mas funcionou com os seus avós. Nem sequer a ideia de que está na hora de a “esperança voltar”. Há 70 anos existia esperança?

Gosto pouco da caça ao deslize e tento ser justo a distinguir a asneira da confissão involuntária. Não digo que este tweet corresponda ao que pensa a maioria dos militantes da Iniciativa Liberal, mas representa uma parte daquela direita, bem menos liberal do que se apresenta. Porque ali não há uma palavra fora do lugar. Pelo contrário, o tweet é todo um programa.

Há 70 anos estávamos em 1951, em plena ditadura salazarista. Já nem me concentro na ideia de que “hoje há menos liberdade”, de tal forma ela é insultuosa para todos os que foram censurados, perseguidos, presos, torturados e até assassinados pelo regime. Nada do que eu escrevesse sobre esta frase estaria à altura da enormidade.

E desfocava do mais interessante, apesar de menos chocante. E o mais interessante é a ideia que atravessa o tweet: a de que havia mobilidade social nesse tempo. De que as pessoas saiam da terra, sofriam, mas encontravam um futuro que desaguaria num neto que é candidato à presidência da Câmara da capital. O mito do sonho americano no cantinho terceiro-mundista do Portugal da década de 50.

Na realidade, a maioria dos que chegavam à capital nem ia viver para quartos alugados com a família, coisa que Bruno Horta Soares parece achar bastante romântico. Vivia nos bairros de lata das periferias de Lisboa, no meio de lixo, ratos e miséria, numa dimensão de desgraça que só as cheias de 1967 exibiram aos remediados e que Salazar tentou esconder. Eram os que não conseguiam fugir desta “terra de oportunidades”, emigrando. Isso, o trabalho infantil e o analfabetismo eram a liberdade que o Estado Novo lhes oferecia. Não foi há 70 anos, mas quase há 50, que isso mudou. Com a liberdade, exatamente. Lentamente e com muitos erros. Mas uma mudança radical.

Que interesse tem este tweet? Serve para perceber melhor o conceito de “liberdade” desta direita. A liberdade, sempre individual, mede-se por esta prova de vida ou de morte que, sem apoios públicos, seleciona os que lutam e têm mérito. Esta “superação pessoal”, que obviamente merece um tributo de todos nós, é tratada como valor político. Claro que as histórias que se contam, para alimentar a ilusão da meritocracia, é a dos poucos que se safaram – foi depois do 25 de Abril, com o Estado Social, que o elevador social começou mesmo a funcionar. A esmagadora maioria, que ficou pelo caminho, privada pela miséria e pela exclusão da liberdade de explorar todas as suas potencialidades, é esquecida.

Desse ponto de vista, e quero acreditar que só deste (imagino que defendem a liberdade política e se opõem ao condicionamento industrial), o Estado Novo está muito mais próximo do ideal deste candidato do que o regime nascido do 25 de Abril. Não havia Estado Social e os mais pobres tinham de se amanhar sozinhos, saindo, como disse um ex-primeiro-ministro, da sua “zona de conforto”.

Descontada a falta de jeito, o tweet do candidato da IL é uma TAC ao cérebro dos nossos liberais. Não ao seu discurso racional e ideológico, ao seu programa e às suas propostas, mas às suas fantasias meritocráticas, que veem o sofrimento (dos outros, porque poucos deles o terão experimentado) como prova de mérito e a riqueza como prémio desse sofrimento. Que, por isso, não tem de ser partilhada. Quanto mais dura for a prova maior é o mérito. E desse ponto de vista, não haja dúvida, o Estado Novo garantia duras provas. As pessoas saiam mesmo da sua “zona de conforto”. Não era liberdade, era falta dela. Quando se passa fome e se vive na miséria, a fuga é a única alternativa. Uma terra de oportunidades, portanto.


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8 pensamentos sobre “O “sonho americano” em Portugal, 1951

  1. O sr. do IL confunde liberdade com privilégios. Não poderei dizer, porque é errado, que os que eram a favor de Salazar, ou simpatizantes do regime do Estado Novo, tinham mais liberdade que os outros. Também não tinham. O que eles tinham eram mais privilégios e daí a confusão do Sr.. Morar numa divisão em Lisboa nessa época, era um privilégio. Os Pides, os da União Nacional, os da Mocidade Portuguesa, não tinham mais liberdade. Eles pensavam que tinham, mas não. O que tinham era alguns (poucos) privilégios.

  2. Três pessoas a viver num quarto alugado, ou numa barraca, ou debaixo da ponte, sempre foi o sonho da direita para as famílias portuguesas.

    Ainda me lembro do tempo em que havia bairros de barracas por todo o lado em Lisboa, e no campo muita gente ainda andava descalça.

    As crianças da classe média baixa eram ameaçadas com “irem para varredor” se não estudassem. A coisa tinha muito mais peso do que uma simples frustração social e profissional e não poder comprar carro. É que até uma criança tinha consciência que ser varredor significava viver numa barraca, andar esfarrapado, eventualmente passar fome e não ter medicamentos.

    Era o paraíso da iniciativa liberal.

    E já agora do PSD, CDS, Chega e até de metade do PS.

    Nunca me esqueci uma entrevista dos anos 90 a esse grande vulto do PS, o Almeida Santos. Dizia esse grande homem que em Portugal OS SALÁRIOS ERAM DEMASIADO ELEVADOS !!!!!!!! E que, claro, era preciso “resolver” isso. Isto nos anos 90, em que o salário mínimo estava abaixo do limiar da pobreza.

    Gostava de saber onde é campa desse animal para lhe ir mijar em cima.

    Lembro-me também do meu espanto de descobrir que muitos lideres do PS, dos quais Vitor Constâncio, foram contra a criação do SNS, que consideravam “uma loucura”.

    A iniciativa liberal está em todo o lado…

  3. Estes rapazes gostam de contar “estórias” e de confundir as coisas e as pessoas, será mesmo assim?
    Será que não sabem o que foi o modelo de sociedade praticado pelo Estado Novo?Ou estão, conscientemente, a
    usar imagens descontextualizadas?Podemos ainda pensar de outra forma: estão objetivamente a mentir para tirar dividendos políticos…….????OU, ainda, estão de acordo com com aquele modelo de sociedade???

  4. É a velha treta do “só é pobre quem quer”, que tanto se aplica a Portugal como às crianças famélicas e pejadas de moscas em África…

    Mas acabo por dar algum desconto aos liberais, betos, agro-betos, etc.: eles acabam por nascer, viver e morrer em meios privilegiados e acabam por não se aperceber da sorte que tiveram, não fazendo grande sentido não comparar o esforço que desenvolveram ao longo da vida (maior ou menor, com maior ou menor mérito, com melhor ou pior formação) com a “falta de esforço” de todos os outros… “Se eu acabei o curso e já sou diretor/ceo de uma empresa e moro num condomínio fechado, todos os outros que, mesmo mais habilitados e inteligentes, que ou estão no desemprego ou ganham 1000€, e moram nos subúrbios, não passam de uns invejosos e de uns preguiçosos”.

    Mas o que me irrita mesmo é a forma como os “casos de sucesso” dos self made man (sabe-se lá como o obtiveram, muitas das vezes o outro sempre tinha razão ao associar uma grande fortuna a um grande crime…) são instrumentalizados pelos privilegiados do costume – “estão a ver como é possível” -, numa hagiografia de abéculas do calibre do João Miguel Tavares, Henrique Raposo e outros que tais… E o pior é o povo ainda aplaudir.

    Enfim, a oeste nada de novo.

  5. Mais uma vez, morre uma grande figura da esquerda (“grande”, mesmo) e o que apraz aos habituais comentadores desse lado da política é malhar na direita. Pobre Otelo, pobre Sampaio, grandes homens da esquerda, que não merecem os seguidores que têm. Lá tenho de vir eu a terreiro, uma pessoa da direita a fazer-lhes uma pequena e sincera homenagem!

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