Meninos copinho de leite

(José Gameiro, in Expresso, 19/03/2021)

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Os leitores mais politicamente corretos não fiquem já irritados com o título da crónica. Não vou tecer elogios ao machismo, nem falar que dos fracos não reza a história. Vou escrever sobre o café que, apesar de ser masculino, tem a versão feminina, a bica. Um dia falaremos do cimbalino, do norte, mas hoje não.

O café deve ser a bebida mais consumida pelos portugueses. Há quem o beba só de manhã, porque lhe tira o sono, há quem beba a seguir a cada refeição e há os que acreditam, e bem, nas virtudes terapêuticas da cafeína e podem chegar a beber dez por dia.

Há vários tipos de café. Não vos vou falar de robusta nem de arábica, nem dos 15 euros que um colombiano ganha por dia para colher 70 quilos de café à mão, para depois ser vendido em cápsulas de cinco gramas por 40 cêntimos. Vou falar dos vários contextos em que podemos tomar café.

A maior parte do café é onanista. Um prazer solitário, bebido lentamente, acompanhado de pensamentos. Desde ‘o que eu tenho para fazer hoje’ até ‘que seca, vou ter de trabalhar’. Imaginem-se com uns bons auscultadores, a ouvirem os Pink Floyd, oxalá estivesses aqui… Pode ser alguém que já não está entre nós e de quem têm muitas saudades, até uma ex-namorada que nos vem à memória numa frase batida. São memórias sem risco e fortemente favoráveis à estabilidade conjugal.

O café também permite viajar. Podemos ouvir o ‘New York, New York’ e imaginar um café no Dean and Deluca, na Broadway, SoHo, por sinal uma boa porcaria. Ou viajar até Paris e sentarmo-nos no Café de Flore a beber um excelente café de saco.

Mas há outros tipos de café.

O conjugal, bebido em casa, ou numa esplanada com vista para o mar. É quase sempre um café sem riscos, mas também pode ser uma rotina chata, tipo café papá/mamã. Nem sempre os casais conseguem tirar prazer do ritual conjunto. Há os que despacham a coisa e os que conseguem prolongar o prazer. O único problema deste tipo de café é se for saboreado numa conjugalidade não oficial. Convém, nestes casos, desligar a localização do telemóvel…

Podia continuar com muito mais tipos de cafés, mas o meu objetivo não é fazê-los sofrer. Não consigo perceber o que passou pela cabeça de quem nos proibiu de comprar café “ao postigo” durante o confinamento. Seguramente alguém que tem dificuldade em lidar com a cafeína ou que confunde grupos das bejecas com cidadãos respeitáveis a beberem a sua bica.

Puxei pela cabeça, falei com amigos, não atingi. Alguns disseram-me que se queria evitar grupos de dependentes da cafeína. Mas então porquê continuar a permitir máquinas de café e de outras bebidas automáticas? Fui a uma área de serviço em que não me podiam servir café, mas com umas moedinhas tirei um e tinha mais dois colegas a saborearem o cafezinho.

O que me preocupa é a nossa aceitação da irracionalidade de algumas medidas. Parece que estamos já um bocado adormecidos ou tão receosos que preferimos acatar para não termos chatices.

Claro que o circuito clandestino do café foi imediatamente montado. Nomes de código, bitoque no sul e alheira no norte, a resistência instalou-se. Ao contrário de outras ‘drogas’ ilegais esta não aumentou de preço, até baixou, porque as máquinas são bem mais baratas.

Alguns, mais imaginativos, compraram um termos, fizeram um bom café em casa e foram bebê-lo para spots magníficos. Já que transgridem, que o façam nas melhores condições ambientais.

Só tenho duas explicações possíveis para esta aberração. Ou é a evidência do exagero a que se chegou, quando se quis testar a passividade humana, ou foi decidida numa reunião de meninos copinho de leite…


4 pensamentos sobre “Meninos copinho de leite

  1. Notas, várias.

    1. Ao ó d’A Estátua, que ainda por cima dizem que o autorizou…, peço-lhe apenas que apague os comentários com as referências que um gajo qualquer fez porcamente à minha mãe. Não é coisa pouca o que peço, atenção: nunca o fizeram, obviamente, e não tenho um estilo de vida, nem idade, nem-nem-nem, para que sejam ultrapassadas algumas indecências.

    2. Como já disse por aqui: nalgas e tomates, desmiolado, e respectivas variantes lexicais, tal como o inocente trombalazana (ou seja: idiota, palerma &etc.) são linguagem corrente, colorida, tal como dondoca é um neologismo, e ai de quem ficar aparvalhadamente enxofrado. Não tenho pena dos visados, era o que faltava!, embora seja penoso ter de explicar o aeiou.

    3. Por fim, a um fascista residente: basta dizeres o curral onde moras, repito-me, e prometo-te que levas o maior enxerto de porrada de que há memória, olha bem o que eu te digo. Mais, pázinho: prometo qu’ainda te publico o escalpe, que farei uma quite para te pagar as despesas do caixão, uns trapos decentes e a fogueira do crematório evitando, assim, que fiques ao deus-dará a expensas da santa casa e que vás esticado na carreta da misericórdia direitinho à vala comum para os vermes, ou os anjinhos, tratarem de ti.

    É simples.

    • OK, RFC. Enquanto lhe foste chamando “fascista”, tudo OK era a tua leitura. Quando entraram em ordinarices com mãezinhas pelo meio, aí Stop. Os restantes frequentadores do Blog não tem que aturar tal. Por isso, juízo. Quanto ao enxerto de porrada que prometes: como não vai ocorrer aqui, a Estátua lava as suas mãos. Pilatos dixit… 😉

      • Adenda. OK, ou OK, mas sobre o que interessa nada. Não entendo a tua comparação, francamente, e mesmo que me esforçasse ela não seria sequer aceitável. O gajo é intelectualmente fascista, e? Peço-te novamente: apagas aqueles comentários, please?

      • Cara estátua.

        Compreendo.

        Portanto o teu camarada insultar-me todos os dias de fascista, ameaçar-me de agressão e de morte para ti não é linguagem ordinária.

        Para ti é um comportamento correto, desde que venha de um esquerdista, claro.

        O teu blogue tem sido uma lição de vida para quem, como eu, costuma votar em vocês.

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