Envelhecer assim

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 08/01/2021)

Clara Ferreira Alves

(Só posso dar os meus parabéns à Clara pela qualidade literária deste belíssimo texto. Não, as palavras ainda têm força, mesmo quando sobrevoam a tristeza, a finitude e o medo. Porque há palavras que ficarão para sempre e nos irão sobreviver. Sobreviver à fugaz viagem pela nossa existência.

Comentário da Estátua, 09/01/2021)


Os velhos estão a morrer. E nem todos de corona. Este final de ano levou mais uns tantos, entre eles o Carlos do Carmo, o príncipe na cidade. Sobra uma mágoa seca, tão seca como aquele fado sem música que o Carlos cantou junto ao caixão do José Cardoso Pires, há muitos anos, e que foi a comovente despedida. Na Biblioteca das Galveias, a biblioteca pública onde José Saramago se refugiava a ler os clássicos enquanto trabalhava num emprego diminutivo, sabendo que havia mais na vida do que gastar as horas sem pensar. A voz do Carlos do Carmo ecoou no silêncio, cantou o fado sem um tremor, num desgosto limpo. Houve quem abandonasse a sala para chorar fora dali. Aquela emoção não podia ser quebrada com choraminguice. Só com a voz. O heroísmo da voz.

A safra deste ano dá-nos certeza de que uma geração ilustre não dobrou o cabo das tormentas. E viveu o último ano da vida numa clausura de pestíferos. Entramos em janeiro, um mês cruel para os velhos, um mês duro e metálico, um mês escarpado e que corta a pele como aço, um mês gelado e indiferente, com medo. Não há pior modo de entrar no ano novo. Toda a gente, naquela altura da vida a que se convenciona chamar “de certa idade”, tem medo. Pode não tomar todas as precauções, por incúria, por bravata, por desatenção ou por falso sentido de segurança, isto não me acontece a mim, mas o medo está lá, acoitado como um animal selvagem na caverna, à espera. Não há sentimento mais fácil de detetar do que o medo. Não são precisas palavras, o medo lê-se no corpo, e lê-se com clareza no corpo dos velhos.

Esta semana, ao visitar um hospital encontrei uma sala de espera cheia de velhos, homens e mulheres, uns mais novos, nos setentas, outros mais velhos, depois dos setentas. Os mais novos estavam sozinhos, e pela posição do corpo nas cadeiras via-se que não estavam confortáveis. O corpo torcido, virado para dentro, procurando ocultar-se. O corpo desconfiado e obrigado a distância. Ninguém falava, agora não podemos falar, o vírus não gosta da mudez e temos de contrariar o vírus. Este e os outros, os do inverno, os da gripe, os rinovírus, esse cardápio de doenças do frio que foram remetidas para plano secundário.

Os mais velhos estavam acompanhados. À minha frente, um homem muito velho seguia com uma mulher mais jovem, mas não jovem, que lhe segurava o braço e vigiava o passo. O velhote caminhava em passinhos trémulos, como uma criança a aprender a andar. Caminhava curvado, e notava-se que a altura do esplendor da vida não tinha sido aquela, tinha sido mais alto, a velhice obrigava-o a curvar-se como um prédio empenado. Os passos eram pequenos, um bocadinho de cada vez, e atravessar a sala tornava-se uma viagem de minutos. A mulher devia ser a filha, a criança que ele educou e da qual cuidou e que agora foi chamada a fazer o mesmo por aquele pai-criança, aquele pai destituído de poder ou controlo sobre o mundo. A inversão é clara, e inevitável.

Um velho tem tantas coisas de criança, incluindo a impaciência e a lágrima fácil. Depois de anos de repressão das emoções por uma cultura que não as aprecia, os velhos choram com facilidade. Mesmo que finjam que não choram. Uma parte dessas lágrimas acresce ao conjunto de indignidades da velhice, o olho húmido perpétuo, outra parte deve ter a ver com a desinibição, e uma terceira com a certeza de que tudo se torna tão difícil com a idade, desde descascar uma laranja a desrolhar uma água das pedras. Os ossos perderam a força e a pele engelhada recusa ficar com tudo a cargo. O corpo deixa de responder às mais pequenas coisas, numa teimosia que obriga a pedir ajuda para atravessar dois metros quadrados.

O poeta T. S. Eliot tem um poema enigmático, “The Love Song of J. Alfred Prufrock”, de 1917, poema do tempo da guerra e da peste, em que Prufrock pergunta se ousará perturbar o universo, se ousará comer um pêssego. E sabe que ao envelhecer enrolará a dobra das calças. “I grow old… I grow old…/ I shall wear the bottom of my trousers rolled.” Tantas interpretações críticas sobre esta “Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”. Para mim, e este é o poema preferido, o que aprendi de cor desde que o li a primeira vez, nunca houve outra interpretação. O poema da despedida, o poema do fim das coisas, do fim do amor e do amor do corpo, o poema da memória dilatada pela lucidez, o poema da vida medida em colherinhas de café, a vida de alguém que ouviu o canto das sereias, que não foi o príncipe Hamlet nem estava destinado a ser, e que no monólogo da gloriosa introspeção consegue reduzir as perguntas a uma. Ousarei perturbar o universo?

Ao contemplar os velhos do hospital, o medo dos corpos assustados com a novidade incompreensível da doença que gosta de atacar os velhos, os doentes, os pobres, os fracos, recitei o poema em pensamento. Os livros ainda dão consolo. O medo dos velhos, o medo daqueles olhinhos húmidos atrás das máscaras, analisando o espaço em volta e os perigos que o habitam, o medo dos monstros lunares e marcianos da ficção científica, o medo do que é estranho, é uma crueldade a acrescentar às outras. Não se trata já de enrolar as calças porque a altura diminui, ou de não conseguir comer um pêssego porque escorrega das mãos e os ossos não seguram os sólidos, trata-se de sobreviver à solidão a que este vírus condenou os velhos. A um terror vivido em solitário, atrás de vidros e de janelas e portas, atrás do escudo da proteção a que foram condenados. Conheço velhos que passaram a noite de Natal e a noite de fim de ano sozinhos nas casas. Muito pior do que ver um pêssego escapar das mãos. Pior quando a memória ainda segreda, foste em tempos uma pessoa inteira, tiveste poder sobre ti e sobre os outros, dominaste o mundo com a tua força, mediste a vida em colherinhas de café porque escolheste medi-la assim. E ouviste o canto das sereias. E sabes que não cantarão para ti, escreve Eliot.

Já tivemos outras pestes. No tempo da tuberculose, os doentes refugiavam-se e pensavam em solidão enquanto o mundo lá fora continuava composto. A tuberculose produziu obras-primas da literatura, como “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, e produziu mestres da escrita como Albert Camus, que quando teve tuberculose em novo passou o tempo a ler e assim se fez escritor. Deste vírus, não sairá o génio das artes. A tecnologia instituiu outras formas de comunicação e de pensamento, ou aboliu o pensamento. O telemóvel de última geração não salvará os velhos. Já ninguém lê livros. E a idade não deixa ler. Na solidão das salas e das casas, a companhia que lhes resta, no cansaço do dia, é a televisão. No hospital, no consultório, na espera, lá está ela, a luz azul acesa com pessoas dentro que falam com uma felicidade fingida, infantil, para alegrar os velhos.


33 pensamentos sobre “Envelhecer assim

  1. Um belíssimo texto que deveria ser de leitura imperativa para quem sabe pensar e não descarta ouvir a opinião alheia. Nunca esqueci a sua frase de há anos atrás, a que frequentemente recorro, quando tento direccionar alguém para hábitos de leitura, cito de memória ” A cultura é tudo o que temos quando a vida nos falha, e tudo o que nos sustenta quando a vida nos faz feliz”. Muito Obrigado, CFA, por nos levar a pensar.

  2. Obrigado, Clara. É confortável saber que no meio da palhaçada política em que vivemos e que tudo queima, ainda há alguém que com uma palavra sábia apaga muitos fogos. Continue, menina, porque chegará cá (83) com uma carga razoável de felicidade e com a sensação do dever cumprido.
    Parabéns.

  3. Obrigado Clara, eu sou um desses velhos (não tão velho) e vi-me perfeitamente retratado no que escreveu. Já tive os meus 15 minutos de fama e os 20 de felicidade. Ainda não dobro as calças, por vergonha, mas vejo que já rompem a bainha por baixo. Pesa-me deixar este mundo bem pior do que o encontrei, e de não ter conseguido fazer pelos meus filhos o que o meu pai fez por mim. Obrigado.

  4. Acompanhei o envelhecimento do meu pai e revi-me em muitos aspectos do seu artigo; posso dizer que me comovi ao lembrar-me do homem poderoso e cheio de si que quando envelheceu ficou frágil e de quedas fáceis e impiedosas.Também ele teve de enrolar a bainha das calças para não se atrapalhar no andar. Nunca gostou de televisão e no lar para onde teve de ir para ser acompanhado e vigiado, era o único velhote que lia; lia muito José Rodrigues Miguéis, que já lera antes de ser velho, dizia ele que o consolava ler sobre o quotidiano de um mundo que tinha conhecido. Morreu no sono e tendo sido crente, mas tendo -se afastado do conforto da fé, com um grande medo da morte, que eu nunca imaginei ver nele.
    Obrigado pelo seu artigo.

  5. Brilhante, Clara Ferreira Alves. Faço minhas todas as suas palavras! Embora não tenha atingido essa idade em que nos sentimos descartáveis, para lá caminho. Obrigado pelas suas oportunas palavras.

  6. Exemplar este testemunho… este grito, abafado, mas mesmo assim contundente!… As palavras foram criadas precisamente para isto, para projectarmos no espaço que nos contém, aquilo que mesmo calados, nos assalta a garganta e nos ajuda a organizar os medos, as incertezas, as raivas, os desabafos e tudo o resto que nos insulta e atormenta!… Eu escrevo e nunca deixei de usar as palavras para me reconstruir nas dúvidas que tenho e quando as dúvidas são muitas, recorro às palavras de outros, aos livros, e às memórias dos pensadores!… A ditadura da velhice é o que mais me atormenta, embora ainda me sinta só a meio caminho, mas esta vida tem cada vez menos espaço e paciência para os velhos que caminham em pequenos passos e não saem da frente dos apresados que acham que nunca vão envelhecer!
    Obrigado pelas palavras que me comoveram, mas também me inquietaram e me fizeram olhar para dentro de mim próprio!…

  7. Esta Clara está mesmo a explorar o espirito catastrofista para vender o Expresso.

    Faz lembrar o Artur Albarrán com o seu célebre “o drama, o horror, a tragédia”.

    No outro artigo era que ia haver uma “guerra” terrível pelas vacinas que não chegavam para todos!!!

    Até dava para fazer um filme género as massas em revolta a massacrarem-se na rua em volta de um carregamento de vacinas saqueado com o exercito a disparar sobre a multidão para a controlar. Assim tipo cenário pós apocalíptico ou holocausto Zombie.

    Como se não soubesse que grande parte da população não está com pressa nenhuma de ser dos primeiros – porque não tem a certeza da vacina estar bem testada e quer ter a certeza que aquilo funciona mesmo bem e não nos mata de complicações colaterais. Logo preferem que seja vizinho a levar a pica primeiro. O que neste caso até é bom, precisamente por as vacinas irem chegando aos poucos.

    Agora isto.

    Parece uma carpideira a carpir até quem ainda não morreu.

    Portugal já passou por crises muito piores. Só para falar em duas, a gripe espanhola ou a primeira guerra foram muito piores do que isto.

    Nós precisamos é de resiliência para enfrentar a crise, não é de drama de faca e alguidar.

      • Talvez seja um anormal por não estar a choramingar pelos cantos por causa da crise.

        Mas pelo menos não sou um MENTIROSO como vocês com histórias fake como aquela vossa ALDRABICE de que foi o Lenine que derrubou o czar.

    • O seu comentario e Lamentavel, porque demonstra a INSENCIBILIDADE de muitos dos mais novos que se esquecem que tambem para la Caminham, e esquecem o Ditado FILHO ES PAI SERAS, CONFORME O FIZERES ASSIM O ACHARAS ele e muito realista, ninguem espere BONANCA, quando semeia TEMPESTA !!!

      • Conversa da treta ó Geraldes.

        Eu não sou jovem e pertenço a um gruoo de risco a dobrar e se calhar desta não me safo.

        Mas não me revejo nesta Clara que não pára de tentar lançar o pânico com a exploração da desgraça.

        No artigo anterior era a vaticinar uma guerra nas ruas porque não vai haver vacinas para todos logo no inicio. Como se a gaja não soubesse que a maior parte das pessoas prefere esperar uns meses ou um ano até ter a certeza que aquilo é mesmo seguro antes de ser vacinado.

        Agora é a apelar à revolta dos velhinhos que se devem revoltar até por se poderem proteger melhor que os outros.

        Transforma em desgraça até a vantagem de não precisarem de andar em aglomerações como quem não não está reformado é muitas vezes obrigado a fazer.

        Até parece que está a incentivar a que violem as medidas de segurança.

        Talvez para depois explorar ainda mais desgraças no pasquim dela.

        Vejam a merda que andam a fazer. Quem se pode proteger melhor deve considerar-se é privilegiafo. Tomara a mim.não ter de andar em transportes publicos e poder ficar em casa a ler os tais livros que diz que ninguém lê.

  8. “A tecnologia instituiu outras formas de comunicação e de pensamento, ou aboliu o pensamento. O telemóvel de última geração não salvará os velhos. Já ninguém lê livros.”

    Ó Clara, eu já li vários livros no telemóvel.

    Os que não os lêem se calhar são os mesmos que nunca os leram. Sim, antigamente era fino aquelas bibliotecas na sala. Com livros com capas belíssimas, Muitas vezes com aspecto que nunca foram folheados…

  9. Um texto vindo da alma, daquela que sabe ver e não só olhar, daquela que sabe escutar e esquece o ouvir!
    E tenha maneiras Pedro! Até nem sabe ler!
    JJ

    • Ó Jobes, eu pertenço a um grupo de alto risco e não estou a chorar.

      Já estou a entrar na idade de risco e tenho problemas de saúde crónicos que me fazem ser candidato numero um para o cemitério se apanhar o bicho.

      E e ao mesmo tempo tenho uma profissão de risco que me faz ter de estar na linha da frente, muito mais sujeito a ser contaminado do que a média.

      Tomara a mim estar “em solitário, atrás de vidros e de janelas e portas, atrás do escudo da proteção a que foram condenados.” em vez de ter de correr riscos a decuplicar por ter de trabalhar na linha da frente.

      Quem pode estar protegido é um PRIVILEGIADO.

      Tenham vergonha pá.

  10. Desde muito nova que a vejo e ouço na TV e vou lendo alguma coisa sobre si e de si. Sempre a achei uma Mulher fantástica e muito liberal. E sim é difícil ser-se velhinho neste País.

  11. A Clara escreve muito bem mas…este tema, na minha humilde opinião, não teve o melhor tratamento…
    Os velhos estão cá, sempre estiveram, sempre hão-de estar!
    Não os podemos olhar como os coitadinhos, como os que já não são o que foram…
    Vamos olhá-los com respeito, admiração, gratidão…
    Vamos olhá-los apoiando-os!
    Já sou velha, 73 anos!
    Já apoiei os pais velhos: a Mãe centenária, o Pai quase.
    Milão consigo ver os velhos como a Clara!!
    Lutemos, sim, para que os velhos sejam mais amados pela sociedade!
    Não é a dramatizar que significam os os velhos…

    • 100% de acordo Maria.

      Eu ainda não sou mas estou a entrar nessa idade e pertenço a um grupo de risco por motivos de saúde e profissionais e digo que estes tipos estão a fazer um dramalhão.

      Precisamos é de cerrar fileiras para enfrentar isto e apoiar-nos mutuamente e não vir com fadinhos.

      E quem pode estar protegido “por detrás de vidros” deve estar agradecido por causa disso e não fazer um dramalhão com o próprio facto de estar mais protegido.

      Tomara a mim…

    • Estou de acordo com Maria Reis, pois “catalogar”os velhos por pobres coitados, retiram lhes a completa identidade a que têm direito.
      Vamos olhar os velhos sem um certo racismo que se sente de uma forma subtil.

    • Ó Castro, se queres trocar comigo, pertencendo a um grupo de risco e ter de trabalhar na linha da frente, é já.

      Eu não me importo nada de ficar a tomar os comprimidos confortavelmente em casa, atrás dos vidros que me protegem do frio, a ler um bom livro.

      Coisas que para vocês são a maior das torturas.

      Depois se não morreres por asfixia contas-me como funciona aquilo do ventilador.

      Gosto imenso de tipos inteligentes como tu.

      É que vocês consideram-se mesmo uns génios.

  12. Dois modos de ver a velhice, mas que poucos saberão enfrentar…Enfrentá-la em comunidade, com optimismo e na diferença…CFA, mulher determinada, põe naturalmente o tónus nos seus escritos com objectividade e assertividade, tendo nos seus leitores o alvo da mensagem; que é a sua função como jornalista!

  13. Obrigado Clara por esta reflexão, pena é que os cérebros da informática, não tenham inventado ainda, um filtro ou bloqueador, que anule comentários de ralé, ignorante e analfabeta, que julga por ter acesso a um telemóvel, um carro ou uma ida a um restaurante se julga ao mesmo nível do pensamento das pessoas normais.

  14. Magnifico texto.Parabens. Só uma coisa. Há velhos que passaram ” o cabo Bojador” os veteranos da Guerra de Africa.
    Obrigado Senhora Jornalista.

  15. Clara,ate gosto de si mas nem uma palavra aos “velhos” que ainda estão vivos e que no meu caso.em 1963 fui como milhares de jovens ao ” encontro” de um VIRÚS com + ou – de 94% de probalidades de não voltar?,como 10.000 mais ou menos que morreram ou vieram incapacitados?
    Sou dos sortudos,pois voltei.mas já que o nosso Governo não nos passa “cartão”,que haja alguém que escreva (sem politiquices)algo sobre esta MALTA que resta.bjs

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