Diz o/a menino/a: “Ai como eu gosto de ser seviciado…”

(Pacheco Pereira, in Público, 26/02/2020)

Tenho algumas matérias recorrentes nestes artigos, que são uma espécie de campanha. Todas têm um aspecto em comum: o combate a formas atávicas do nosso atraso como sociedade, à nossa complacência com práticas inaceitáveis numa forma “civilizada” de viver, ou decisões que nos fazem andar para trás por inércia, preguiça ou cobardia. E deixem-se de hipocrisias, toda a gente sabe o que significa “civilizada”, por oposição a bárbara, ou “andar para trás”, em contraste com andar para a frente. Não precisamos de grandes polémicas sobre a “civilização”, nem sobre o sentido da história, para aceitarmos que há atitudes culturais que fazem o mundo em que vivemos, no pequeno tempo em que cá estamos, melhor. Direitos, garantias, comportamentos, que distinguem o mundo com tortura ou sem tortura, o mundo da igualdade entre homens e mulheres, o mundo que pune a violência, o mundo que preza, respeita e defende o adquirido na cultura e na ciência, o mundo que assenta na liberdade, o mundo em que se é “mais humano”, mais próximo do “milk of human kindness”, em vez do sangue.

Verdade seja dita que Lady Macbeth detestava essa “human kindness”, que associava à fraqueza, mas numa altura em que as sociedades democráticas estão em crise, com o reservatório do ódio das redes sociais, precisamos de dar força a essa humana fraqueza e não ser complacentes com a sobrevivência diária e reiterada de manifestações de barbárie de todo o tipo, no meio do nosso silêncio. Daí, voltando ao princípio, que escreva várias vezes sobre mil coisas pequenas e grandes que são da família alargada de Lady Macbeth, mesmo que não pareçam.

Três são recorrentes nestes artigos: a violência contra os animais traduzida no espectáculo do gáudio público com a tortura dos touros; outra, o aviltamento das praxes, e uma, que não parece ser da mesma família mas que é, a degradação da língua portuguesa pela ortografia oficial do “acordês”. Em todas estas perversões ou não andamos para a frente, ou andamos para trás, e todas comunicam entre si num desprezo pela dor gratuita noutros seres, na vontade de sujeição e humilhação, de dar e de receber, por uns finórios de colher de pau na mão, e por fim na inércia na ignorância da riqueza expressiva da língua. As duas primeiras já cá não deviam estar há muito tempo, a terceira é o resultado de uma engenharia desastrosa que só sobrevive pela indiferença dos poderosos pela riqueza expressiva do português.

Hoje voltamos à praxe, esse mundo personificado por uma colher de pau que não é para cozinhar, por uma moca que é para partir cabeças e por uma tesoura que não é para esculpir os cabelos. A trilogia original era uma palmatória, uma moca e uma tesoura.

Estes tempos de pandemia voltaram a colocar de novo a questão das praxes, que só a cobardia das instituições universitárias tem permitido sobreviver, com um pé ou mesmo com os dois dentro das instalações académicas ou nas suas imediações, poluindo as ruas das cidades com as cenas vergonhosas de poder e submissão.

Apetece dizer que há coisas boas que advêm de coisas más, e que a pandemia, ao levar as autoridades académicas a proibir com diferentes graus de rigor as actividades da praxe, são disso exemplo. Mas não digo, porque é tudo mau e mesmo esta proibição, que não é mais do que uma suspensão, vai deixar quase tudo na mesma, a não ser uma geração de órfãos da praxe, dos da colher de pau e dos que levam com ela.

pandemia se há coisa que não faz é educar, como se vê num decreto de um grupo chamado em latim macarrónico Magnum Consillium Veteranorum: “A Tradição Académica, nas suas variadas vertentes, configura-se como uma componente integrante e indissociável da frequência do Ensino Superior em Portugal, com uma forte carga histórica e simbólica, sendo responsável pelo acolhimento e integração de sucessivas gerações de estudantes universitários numa nova fase da sua vida. Não obstante a assumida vontade em perpetuar esta Tradição…”, lá veio a covid estragar a festa da colher de pau. Estou, aliás, a imaginar os lamentos dos meninos e das meninas: “Olha que pena, logo este ano em que eu entrei para a faculdade não vou poder ser seviciado(a), para depois daqui a um ano poder andar a apascentar pelas ruas da cidade uns “caloiros” a fazer imbecilidades em público”.

Poucas coisas são mais deprimentes sobre o estado da chamada “juventude” do que a aceitação ou, pior ainda, a vontade da praxe, de a praticar e de ser “praxado”. Quanto a mim, podem ir a todas as manifestações verdes e pela Amazónia, ou chorar pelo Tibete, mas, se aceitarem andar a pintar a cara, a arrastar-se pelo chão e a engolir as obscenidades duns tipos vestidos de padre, numa exibição de sadismo e de masoquismo, é porque não cresceram o suficiente para ter voto em qualquer matéria.

Historiador


10 pensamentos sobre “Diz o/a menino/a: “Ai como eu gosto de ser seviciado…”

  1. Bem, vou tentar ser curto, já que os meus textos são longos e chatos. A tecnologia vai engolindo a língua com o acordo ortográfico, a geração à rasca versão 2 já cá está e a culpa que sempre morre solteira, afinal é do antigo regime sem dúvida e claro como não podia falta não dos políticos somente, mas de todos aqueles que se formaram nos anos sessenta e passaram pela experiência construtiva do maio de 68, mas depois de consumada a revolução de Abril que foi um excelente marco nacional, não souberam continuar a ser construtivos e legar às gerações seguintes os seus próprios fantasmas do regime anterior. Engraçado, provavelmente é tudo imaginação minha, mas se se insiste no conhecimento através dos canudos milagrosos porque só assim se pode singrar na sociedade, porque é que não se muda o sistema de ensino que ainda cheira mal, todos sabemos porquê. Exemplos de universidades funcionais e com ligações empresariais e não só existem no mundo inteiro, tanto no Ocidente, como no Oriente, mas cá fatalmente o que interessa é Unis de Negócios e de Gestão já que parece que essas é que são a chave de desenvolvimento de uma comunidade. Apostem na língua, na filosofia, nas artes enfim nas humanidades e claro nas ciências com ética e outras tantas coisas sempre úteis, não se deixem levar como de costume por aquilo que os outros fazem, será que Portugal nem sequer têm uma identidade própria atualmente ?
    Com tantos inventores nacionais o que é que custa fazer uma rede social nacional por exemplo ?
    Ensinem os vossos filhos a pensar por eles antes que eles sejam engolidos pelo sistema que todos nós deixamos criar a nível nacional (lol). Não se trata de comunismo ou fascismo mas sim de futuro saudável e sustentável para todos, poças :P:D

  2. Para terem uma ideia sobre o 5G basta pesquisar, de qualquer maneira este documento mostra que um dos intuitos do 5G é facilitar a vida aos militares e aos seus brinquedos (drones) assassinos, ou seja, com o mundo todo com 5G, qualquer sítio do mundo será um alvo rápido e fácil ?

    Documento do Congresso dos Estados Unidos

    https://www.voltairenet.org/IMG/pdf/IF11251.pdf

    Ou seja da guerra fria para a guerra quente por todo o mundo, e claro que se lixem as alterações climáticas, porque parece (não sei se é verdade) que as radiações das antenas do 5G não são muito saudáveis, mas já estamos habituados a comida química e drogas químicas para as dores, enfim , logo não deve ser nada de especial.

    https://blogs.scientificamerican.com/observations/we-have-no-reason-to-believe-5g-is-safe/
    https://www.forbes.com/sites/johnkoetsier/2020/06/11/5g-radiation-levels-9-comparables-from-everyday-life/

  3. De facto.

    Nunca me “integrei na comunidade académica”. Logo à partida aquilo mostra bem o que vale tal comunidade.

    Até fui ameaçado para alinhar na praxe, o que só me fez mandá-los á m… com mais entusiasmo. Numa sociedade de bosta mais vale ser outsider.

  4. Assim como o Pedro não se integrou não quero imaginar a quantidade de outros milhares que passaram pela mesma experiência humilhante e claro todos os que para cá imigram continuam a ser cidadãos de 2ª como eram carimbados os pretos no antigo regime, engraçado não é. O populismo dessas massas de outros países que cá fazem os trabalhos de merda aparentemente não existe, mas o dos nacionais que querem “salvar” a pátria é um sintoma da decadência da sociedade que não se realizou como prometido, e que infesta de ódio, egoísmo, avareza e todos os lindos adjetivos que aquecem essas mentes brilhantes que com ganância querem rapar o tacho dos dinheiros (sem fim) da comunidade europeia para “melhorar” Portugal. Assim vai o progresso (lol). Eu pessoalmente no liceu, cedo percebi que o ensino era e é uma fantochada, por isso, enfrascava-me às vezes, fumava ganza de vez em quando para não aturar a seca que eram as aulas, sempre tudo certinho e direitinho e caladinho, e quando fazia uma pergunta ligeiramente diferente, mandavam-me para a rua, porque não percebiam a minha crítica, achavam sempre que era uma piada de mau gosto ou que estava a meter em causa o “estatuto” e o devido respeito pelo professor(a), claro que já não havia réguadas, mas havia as psicológicas, lindos meninos. Aprendi muitas coisas dentro e fora da escola, mas principalmente a ler em casa, quase todo o tipo de livros e jornais, que na altura abundavam, engraçado, que aos 13 anos, já tinha percebido que o 25º de Abril tinha sido uma farsa não a revolução, mas os que se aproveitaram dela para manter o poder, cheguei a frequentar cursos informáticos, a Lúsofona e sempre cheguei à mesma conclusão, temos um ensino adequado, que limita e “intimida” os alunos, a aprender a decorar, quando na realidade decorar ou “marrar” não serve para nada, pois vai tudo pela pia depois. Se em vez de testes fizessem com que os alunos tivessem que fazer projetos e trabalhos fora e dentro da escola, “obrigavam” os mesmos a terem que se orientar no bom sentido, pensar, refletir, procurar, sintetizar, esquematizar, etc, mas claro mais vale manter o sistema de ensino de merda. :P:D Em relação às drogas e bebidas, cedo percebi que era muito engraçado, muito fixe, mas o corpo e a cabeça é que pagam logo, parti para outras margens tipo voltei às leituras e imensas culturas de todo o mundo que dão saber, alegria, tristeza, conhecimento ou seja tudo aquilo que é necessário para sermos livres.

  5. One last thing, não subestimem a música Punk a que apareceu nos anos 70 e o rock dos anos 60 porque a letras ensinaram e alertaram para o que seria o futuro, ainda hoje é assim :P:D

  6. terça-feira, 3 de junho de 2008
    A minha breve visão deturpada da história
    Ao longo, da história, as guerras foram parte essencial, no desenvolvimento, das diferentes raças, principalmente, com o objectivo, de conquistar, as terras, e suas riquezas, e claro, escravizar os nativos, para assim, criar, o aspecto “positivo”, da mão-de-obra barata, que ainda hoje prevalece, mas numa roupagem mais moderna. Claro, que com a ajuda preciosa, da fé, emanada através da religião católica, pegando no exemplo nacional, se impunham, novas crenças, e maneiras de lidar com o desconhecido, aos nativos, assim como, esta imposição, muitas vezes, era feita, da forma mais bruta, ou seja à força. E, claro, a maneira de pensar local, era, aos poucos, silenciada, para com a razão, pura e cheia de dogmas, da evangelização, se formatar o velho mundo dos locais, e abrir os seus horizontes para o, novo mundo, da Igreja cristã. Enquanto esta prática, era realizada, as riquezas das novas terras, mudavam de dono, e os colonos, começaram a criar a primeira versão de tráfico humano, neste caso, para trabalhar em prol do Reino que os tinha conquistado, ou até para serem vendidos, aos burgueses, para assim, estes puderem desfrutar, de mão-de-obra barata, e por vezes, sem despesas adicionais.
    Assim nasceu o “tráfico humano”.
    O caminho marítimo para a Índia (cabo da Boa Esperança) , proeza do navegador Bartolomeu Dias, a façanha da descoberta do Brasil, pelo navegador Pedro Álvares Cabral, ou o feito heróico de Diogo Cão, com a colonização de Angola, são marcos, dos nossos antepassados, que sem dúvida, foram importantes, na medida em que se criaram pontes de comunicação e comércio, para outras geografias do mundo, mas violaram, e desrespeitaram as culturas locais, criaram o comércio de escravos, bastante rentável, e tentaram mudar o paradigma social.
    É claro, que o império português, à medida, que foi crescendo, teve contratempos, como tentativas, por vezes com sucesso, de outros povos europeus, de conquistar as terras de Angola (os Holandeses em 1641), ou, claro, os próprios colonos, que através, de grupos rebeldes, começaram, assim a criar, nessas datas longínquas, aquilo que hoje chamamos, de “terroristas”. Esta conclusão, dá-me vontade de rir, então os tais terroristas, sempre foram, os índios e aquelas outras raças esquisitas, tipo, os pele vermelha, os “escuros”, e os amarelos com olhos engraçados, porque não gostaram, da imposição da inteligência dos povos ocidentais, que coitados, só queriam a suas riquezas naturais, e proclamar uma fé divina e sagrada para os salvar e lhes explicar os fenómenos, como as tempestades da natureza, é claro, os sinais de deus.
    Assim nasceu o “terrorismo”.
    O mundo em constante, evolução, tinha na Europa, o seu coração, donde, os seus povos, além de se terem mutuamente, conquistado, passando pelos, Fenícios, continuando no Império romano, e passando para os Bárbaros, continuava, progressivamente, em busca de novas artérias, como um órgão insaciável, e necessitado, de mais riquezas, para sobreviver.

    Aqui, em Portugal, assim como conquistamos, também fomos conquistados, e temos, na nossa, cultura, língua, todas as marcas dos povos que nos influenciaram, o que só vai enriquecer, o legado histórico, que se vai ensinando a todas as crianças na escola.
    O que se ensina, e como se ensina, além de importante, e fundamental, para a formação, do aluno, como ser aberto, pensador, questionador, e interessado, pela sua sociedade, deve, na minha óptica ser feito, não como forma de entretenimento, ou de visões pré-formatadas, que querem engrandecer, com frases heróicas do grande império, e das grandes vitórias, o que vai encorajar e influenciar os alunos a sentirem, orgulho, por exemplo, na sua raça, necessidades de serem algo que não existe, os tais heróis, que afinal são só mitos e lendas do passado, mas que se eternizam com glória e grandeza, e esquecem-se, ou se explica ao de leve, o que sofreram os povos, dizimados por esses mesmos heróis.
    Claro, que as famílias, que na escola aprenderam, a história, também gostam de contar e enaltecer, a “grandeza” do Império Português.
    “Assim podem nascer, o nacionalismo, a indiferença, o racismo, a xenofobia.”, e tantas outras coisas.
    Nasceram ao longo da história, muitas democracias, orquestradas, como se a sinfonia, fosse, com base, em escalas, pré-definidas, e bem estruturadas, à medida de todos, consagradas, numa pauta fundamental chamada constituição, com grandes virtudes e polifonias, e uma ária, belíssima, que criava a impressão de sermos todos iguais, e possuirmos os mesmos direitos.
    “Assim nasceu o triunfo dos Porcos”.
    Hoje, no séc. XXI, continuamos, a assistir a situações de guerra, sempre com os objectivos estratégicos, de se roubarem, as riquezas, dos vencidos, e alimentarem, os vícios e a preguiça de poucos, para se puder, continuar a ter um estilo de vida “moderno” e não muito cansativo. A forma, é a mesma, mas hoje, os tais “terroristas”, já existem, nasceram no passado, por isso, é fácil, criar um pretexto, e explicar a todos, que, o mal (o diabo = os terroristas), vão ser dominados, pela nova ordem mundial ( deus ou os puros = civilização mais avançada do mundo, a ocidental ), usando uma doutrina denominada de democracia, como formula sagrada dos tempos modernos de evangelização.
    “Assim nasceu a terceira guerra mundial.”
    Esta “guerra tecnológica” com a internet a fazer o mundo marchar em nome do deus MACHINE e claro os robots somos todos nós. Rica evolução começou-se com barcos a fazer escravos, hoje com teclas do télélé ou do com+puta+dor (lol) :P:D

    Divirtam-se isto foi escrito no reinado do grande Sócrates que ajudou a engrandecer a sua terra natal o divertido Portugal.

    Se tiverem pachorra para ler mais textos meus:

    https://virtualucina.blogspot.com/

    Daniel Alves

    • Penso que o racismo e nacionalismo nascem de um e equívoco que é o de nos identificarmos com o que é semelhante. É um erro. A maior parte das vezes o nosso maior inimigo é o mais semelhante.
      Por exemplo, a maior parte dos homicídios são cometidos por familiares próximos, amigos, vizinhos, colegas e conhecidos da vítima.

      • Inteiramente de acordo, basta para que tiver pachorra ler o Correio da Manhã todos os dias e perceber quem mata quem e de que nacionalidades são. Aqui em Portugal ao contrário dos USA, ele lá os media sempre deram mais importância aos crimes das outras “raças” (porra século XXI e ainda não perceberam que raça só há uma = SERES HUMANOS lol), as de origem espanhola e africana, e claro nas suas prisões são esses que estão lá aos molhos. Incrível como o país da “liberdade” foi evoluindo e manipulando todos os países ocidentais e outros que tais, e ainda mantém esse domínio absoluto, muitas décadas de UNCLE SAM, depois aqui em Portugal queixam-se que os putos só querem tecnologia, netflix e outras coisas lindas de consumo e que não ligam népia à cultura nacional, porque será ? (lmao)
        Eu sempre gostei de todas as culturas, não só da americana, acho que uma das coisas boas que a internet nos dá é o acesso a outros mundos culturais, espantoso e não viciante, mas altamente instrutivo, é pena que as pesquisas em português mostrem muito mais coisas dos brasileiros, porque será ?

      • A maior parte dos ~~homicídios~~ crimes violentos são cometidos por familiares próximos, amigos, vizinhos, colegas e conhecidos da vítima.

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