Não sei

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 05/03/2020)

Daniel Oliveira

Do ponto de vista da procura, este é um bom momento para um colunista ter certezas do que não sabe. Pode escolher uma de duas teses. A primeira é que há uma histeria mundial e isto não é nada. Nada comparado com a gripe e outras doenças. A segunda é que isto tem dimensões nunca vistas, ou não fossem todos os dias deste tempo dias históricos. As cautelas têm sido poucas e estamos impreparados. Deviam ser tomadas medidas mais radicais, como na China. Temos o dever de dizer toda a verdade às pessoas para que elas se defendam.

Tenho de escrever, com a humildade que sobra a quem opina todos os dias e mesmo assim acha que a sua opinião interessa aos outros, que não sei. Mentira: não é humildade. Ninguém, de todos os que estão a opinar com mais ou menos firmeza, sabe. Os especialistas têm uma vaga ideia e trabalham com cenários que vão do pequeno susto à catástrofe. E se os que mais sabem pouco sabem como poderiam milhares de opinadores generalistas saber alguma coisa? Como não sei, olho para os dados desta e de outras epidemias, para as notícias, conheço a dinâmica comercial da histeria mediática, olho para os efeitos económicos do pânico e tento cruzar tudo. Sabendo que se isto for uma pandemia de grandes dimensões, não estamos nem poderíamos estar preparados. E descubro o que descubro sempre que não sei: que o ideal é ser cauteloso com o que se diz e escreve. Ficará gravado na pedra para reler quando finalmente se souber. Isto serve-vos de pouco, bem sei. Apenas me resta dizer o que acho que devemos todos fazer:

Passar informação seca, ponderada e sem sensacionalismos. Não se trata de esconder nada às pessoas. As coisas devem e estão a ser ditas. Trata-se de saber que o pânico não serve para nada. Pelo contrário, aumenta em muito os efeitos negativos das epidemias. Leva ao açambarcamento, ao esgotamento de material necessário apenas para quem esteja infetado, ao caos nos serviços de saúde, à crise económica e a uma desconfiança nas autoridades que têm de coordenar este esforço. Informação rigorosa e exaustiva mas serena e sem parangonas, é o que se pede. Campanhas de sensibilização para a prevenção. E as medidas que os técnicos, em conjunto com os políticos que têm de ponderar os seus efeitos, entendam necessárias para reduzir o risco de propagação. Estou a ser redondo? Estou. Porque não sou técnico. Este é um daqueles momentos em que a responsabilidade da comunicação social é posta à prova.

Esperar pelo fim disto para fazer balanços políticos, evitando a triste figura do eurodeputado Nuno Melo, que tentou, nas redes sociais, espalhar o pânico quanto à falta de máscaras e desinfetante, afirmando que é dito às pessoas que sintam os sintomas do coronavírus para irem aos hospitais quando a DGS disse exatamente o oposto.

Este não é o momento de, à boleia do coronavírus, se tentar provar que o SNS entrou em colapso, que os hospitais privados são piores do que os públicos ou vice-versa, que o Governo é incompetente, que os médicos e enfermeiros precisam de melhores condições de trabalho e mais salários. Será, mais à frente, se for o caso.

Este é um daqueles momentos em que um país (a Europa e o mundo) se une para fazer frente ao que pode ser uma tragédia ou apenas um alarmismo, deixando para o fim todos esses debates, que podem até ser bastante relevantes. Este é um daqueles momentos em que a responsabilidade dos políticos é posta à prova.

Não espalhar boatos pelas redes sociais e WhatsApp, não ir a correr à farmácia e ao supermercado tratar de si, criando problemas onde eles estão muitíssimo longe de existir. Pensar que a comunidade também é feita de pequenos gestos individuais. Este é um daqueles momentos em que a responsabilidade dos cidadãos é posta à prova.

Ajudei pouco? Como poderia ajudar mais do que isto? Não sou negacionista nem alarmista. Não sei. E este é daqueles momentos em que olho para quem sabe e acredito que me está mesmo a dizer a verdade. Não tenho outro remédio. Felizmente, o vírus do ceticismo absoluto, que tomou conta deste tempo, ainda não me atingiu. Acredito na dúvida metódica no escrutínio rigoroso. Mas também acredito que sem a autoridade intelectual do conhecimento estamos perdidos no caos. O que peço às autoridades de saúde é que não me escondam a verdade e me expliquem o que devo fazer. Quando isto passar ou soubermos mais, cá estaremos para discutir como cada um se portou.



5 pensamentos sobre “Não sei

    • Ui!

      Nota. Ó Madeira, tu que passas essa vida desgraçada a lamber os tomates ao José Sócrates com a personagem Valupiana, diz-nos lá se, hoje, já foste cumprimentar o burro no blogue do Jumento?

      🙂

  1. Tudo isto é muito interessante, mas a táctica do PSD-CDS e agora IL-Chega é precisamente explorar politicamente ao máximo qualquer crise nacional ou mundial que surja num governo PS.

    Ora é a crise financeira mundial, ora os incêndios, agora uma epidemia mortal.

    Estão-se bem nas tintas se isso tem um efeito negativo para o país ou a população.

    Eles vivem disto.

    • O objectivo da direita é fazer com que o estado funcione mal para precarizar e privatizar tudo, era importante deixar de lhes dar argumentos.

  2. Concordo plenamente acerca da postura serena e atenta que se deve adoptar face ao alastramento mundial deste novo vírus. Pena é que essa atitude não seja adoptada também pela população e especialmente por aqueles que desempenham funções de serviço público, funções essas que os deveria obrigar a ter sempre presente a sua responsabilidade social. São exemplo dessas atitudes nada ingénuas e claramente com segundas intenções, as provenientes de alguns grupos/associações/sindicatos de profissionais, que visam exclusivamente incendiar opiniões, fomentar intrigas e instalar o pânico, procurando assim impor a sua voz e dar a entender que cada vez são mais aqueles que os apoiam nas suas lutas por interesses profissionais particulares. Muitas dessas lutas são muito legítimas, mas não podem de todo beneficiar do pânico e da insegurança associados a este fenómeno de epidemia, sob pena de ficarem desvirtuadas irremediavelmente. O esforço que agora tem de ser feito deve ser coletivo, de todos, pois trata-se de uma causa que diz respeito a toda a sociedade, a todo o mundo. Lamento profundamente que a generalidade dos orgãos de comunicação social não tenha ainda entendido isso, tendo sido os responsáveis por amplificar o que não devia e por ignorar o que se impunha transmitir. Talvez seja também somente resultado da tal “impreparação”…

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