A esquerda que temos e o país que não temos – a propósito da queda eleitoral do PCP

(Por Vítor Lima, 11/10/2019)

Há uns anos, um sindicalista espanhol de topo dizia-me que Portugal politica e sociologicamente estava atrasado uns 20 anos em relação a Espanha. Há pouco tempo foi publicado na Estátua um trabalho meu sobre o perfil educativo nas várias regiões portuguesas e espanholas que evidencia isso mesmo.
É nesse quadro que precisamos de observar a situação do PCP, do BE e dessa coisa chamada “esquerda” portuguesa.

A “descoberta” do estalinismo ainda nos anos 50 afastou muita gente de esquerda dos PC’s europeus (em Portugal vivia-se em fascismo ) e isso viu-se na posição do PCF face à libertação da Argélia, como antes a tolerância face a Petain até Hitler invadir a URSS.
Depois veio o Maio francês, com o PCF a jogar contra a contestação e a apoiar a recuperação gaulista contra a contestação da esquerda, mormente guevarista, maoista e anarquista. O PCF, ao comprometer-se num governo de Mitterand abriu o seu caixão. Hoje é um dos grupos que se acolhe sob o telheiro roto dos trotskistas do Melenchon que, por sua vez nada tem de interessante.
O outro grande, o PCI deslizava para a social-democracia com o Berlinguer e acabou dissolvendo-se num curioso Partito Democrático della Sinistra antes de passar a PD, tout court.
Com o início da guerra colonial o PCP tinha uma posição curiosa. Não se podia desligar da aliança tática entre os estados ditos comunistas e o Terceiro Mundo mas, no seu íntimo nacionalista havia muito da superioridade colonialista sobre os “pretos”. E daí que apontassem aos seus militantes confrontados com uma ida para guerra colonial a presença efetiva na guerra “desertando lá e, se possível com armas e outros camaradas”; o que soava a impossível mas amaciava o coração patriótico do partido.
Entre PCP e PCE nunca houve grandes simpatias. O primeiro, foi sempre fiel ao PCUS (provavelmente porque daí vinham os fundos para manter o aparelho clandestino) o que lhe deu o galardão de único subscritor, na área, da invasão da Checoslovaquia; e como feroz nacionalista sempre se afastou de qualquer hegemonia ibérica do PCE, para mais, com Carrillo desligando-se do PCUS e aproximando-se do chamado eurocomunismo.
E foi mantendo, internamente a peregrina ideia de “levantamento nacional e democrático” coisa insípida para tentar atrair católicos e gente mais ou menos antifascista, com menos simpatia para com o chamado comunismo
O PCP teve um momento de glória até à descolonização, sobretudo de Angola, onde os sovieticos passaram a exercer a maior influência sobretudo através dos cubanos.
Quando Gorbachov avançou com a perestroika Cunhal apoiou, claro; como veio depois a criticá-la após a ascensão de Ieltsin, como também é claro;
O PCP continuou serenamente a defender algo de impreciso e ridículo como a “política patriótica e de esquerda” onde tudo ou nada pode caber, porque não passa de um chavão. E tem procurado manter a CGTP operacional sobretudo pelo seu lugar na Concertação e um número significativo mas decrescente de câmaras.
Em Espanha há vários PC’s e, o dominante e mais conhecido, que se apresenta dentro da IU, só tem implantação relevante em Madrid e na Andaluzia. Entretanto, inserido na galáxia Podemos, vê impotente a atuação algo demente do reacionário Iglésias, dileto discípulo de Laclau, caminhando todos para a irrelevância a prazo. Entretanto convém referir os méritos de Iglésias em desmembrar a galáxia dos Indignados que, em Espanha foram muito mais relevantes do que em Portugal, onde o movimento foi sabotado pela santa aliança BE/PCP.
Hoje, na ortodoxia, resta o fabuloso KKE grego que não tem pejo em pespegar no seu pasquim uma grande foto de Stalin.
Quanto ao BE é um partido eleitoral que vive da sua presença na AR e dos subsídios e apoios que ali recolhe, cada vez mais orbitando o PS de Costa. Os UDP’s liderados pelo Fazenda perderam relevância e muitos afastaram-se; os seguidores sociais-democratas do Miguel Portas perderam o líder, a Ana Drago saiu, agastada enquanto a Marisa, também social-democrata vagueia entre Bruxelas e Estrasburgo. O chefe trotskista Louçã guindou-se ao prestigiado (?) Conselho de Estado e tenta guiar o partido à distância através do seu delfim Jorge Costa enquanto a Catarina tem lugar cativo em frente das câmaras de tv e dos microfones.
E é tudo, o BE não tem sindicatos nem câmaras mas goza de uma atenção mediática constante e frenética. Na realidade é um balão que tanto pode inchar (2015) como esvaziar (2011) com peso mediático e eleitoral mas sem relevância social.
Na realidade Costa conquistou os BE/PCP em 2015 e reforçou o seu peso na AR, no seio da geringonça, satelitizando aqueles dois partidos, como aliás escrevi aqui em 2015. E que, recentemente tiveram a amarga surpresa dos resultados daquela coisa chamada PAN.

Se os sistemas políticos se mantiverem com o perfil atual; se não for superado o modelo de representação que favorece as oligarquias políticas; se forem acontecendo happenings sobre as alterações climáticas por quem tiver uma visão idílica ou nenhuma visão sobre o capitalismo, nesse contexto, não haverá uma verdadeira esquerda na Europa nas próximas décadas.

Se entretanto ainda houver a Europa de hoje ou um terminal da Rota da Seda; restará um território retalhado por dementes nacionalismos, com versões ainda mais imbecis e perigosas que Trumps e Boris.
E disse.


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6 pensamentos sobre “A esquerda que temos e o país que não temos – a propósito da queda eleitoral do PCP

  1. Mário Reis e Samuel Clemens

    Seria mais interessante se acrescentassem factos e argumentos
    Os elementos de ordem histórica só não sabe quem não quiser
    Não fui um defensor da ordem fascista e não sou um defensor da ordem pós-fascista atual. Penso para além do bolor e da putrefação do bloco central e das suas imediações
    Por outro lado, a experiência política que tenho, naturalmente comporta conhecimentos factuais mas não escritos em parte alguma.
    Talvez seja útil verem aqui o que é uma análise do regime atual que, naturalmente, não sai da boca dos comentadores televisivos que enformam as mentes. Estudar é um exercício muito salutar
    https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/10/eleicoes-num-regime-pos-fascista-e.html
    Boa noite
    VL

    • Nota., única.

      Ó Vitinho: o que tu sabes da história do PCP é de burrice para baixo, falas das coisas como quem está na taberna ou no café (ao menos o Dieter é mais honesto e escreveu por aqui um post, memorável, sobre uma sondagem que fez à volta da bica com ums bacanos da sueca). Quem te lê, e tem umas luzes, fica marado ao ouvir-te fala dos movimentos de libertação sem sequer referires, um marco para te aturar!, a elite de estudantes universitários das “províncias ultramarinas” que tinham uma dupla filiação, digamos assim, no PCP clandestino e, por exemplo, no incipiente MPLA de Angola. Da mesma forma, basta consultares o Avante!, e vais encontrar posições sobre a exploração dos recursos em Angola e de mão de obra africana, outro exemplo, por parte de empresas “metropolitanas” que dispunham de largas e importantes concessões nas antigas colónias. Da mesma forma, se lesses um cu que fosse de quem se dedica ao tema (e há vários, fazem-no o José Neves e o João Madeira e mesmo o José Manuel Garcia, do ICS) sobre uma “carta” de luta contra o racismo em Portugal em que entram os anarco-sindicalistas da 1.ª República e, depois, o PCP algures a partir das décadas de 1940/50 (antes das lutas de libertação, portanto). Sobre o que dizes sobre o BE é típico de provocador, vai à merda, lembro só que há quem o faça na blogosfera, e com razão!, mas sobre o MRPP. Há uma diferença, mas na tua cabeça de doidavanas deve ser gual ao litro.

      Não corrigi, como escreves com as patas és daqueles que não merece.

  2. Os sistemas políticos em um país democrático para se mantiver atualmente neste modelo atual; com este modelo de representação que só vai favorecer as oligarquias políticas; nesse contexto, não haverá uma verdadeira esquerda na Europa nos próximos seculo.Será preciso uma revolução cultural e de esclarecimento para com as populações europeias e, por que não global.

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