Constâncio, a imprensa e a velha rábula da “história mal contada”

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 24/06/2019)

Daniel Oliveira

Nas últimas semanas, assistimos a uma daquelas novelas mediáticas onde o telespectador pára de acompanhar onde lhe dá mais jeito para ter o final que lhe interessa. Alguns jornais, sobretudo o “Público”, fizeram manchetes bombásticas sobre Constâncio, o ex-governador desmentiu-as com novos factos, eles passaram para os factos seguintes, eles foram parcialmente desmentidos por factos novos e chega-se ao fim com aquela expressão mortífera: é uma história mal contada. Pois se está mal contada, os jornais que a contem como deve ser, que é para isso mesmo que servem. Porque, a dada altura, no jogo do gato e do rato, parece que a verdade deixou de ser relevante, já só interessando quem não tem de dar o braço a torcer.

Estavam, se bem lembro, três coisas em causa quando Vítor Constâncio foi chamado ao Parlamento: como é que o Banco de Portugal permitiu um empréstimo da CGD de 350 milhões a Berardo que tinha como única garantia as ações que ele ia comprar; se Constâncio fazia parte de um conluio para tomar conta do BCP em que a própria Caixa participara; e qual o nível de conhecimento que o governador tinha de todo este processo. Recordo que o objeto da comissão era a Caixa Geral de Depósitos e os seus empréstimos. Por isso, o que queríamos saber de Constâncio relaciona-se com a Caixa e o empréstimo que deu a Berardo. Isso pode implicar ter um retrato mais geral, em que a guerra dentro do BCP tem importância. Mas não pode ignorar, a dada altura, o ponto de partida que é suposto ser também o ponto de chegada.

Talvez por arrogância, Vítor Constâncio não se preparou convenientemente na primeira ida ao Parlamento. Ao contrário de imensa gente, acho normalíssimo que alguém não se lembre de pormenores de coisas que aconteceram na sua vida profissional há 15 anos. Mas, como se viu na segunda vez que lá foi, podia levar a sério uma comissão de inquérito e, sabendo, como sabia, qual seria o tema das inquirições, pedir a documentação que precisava. Constâncio nunca iria daquela forma para um tribunal, não se percebe porque foi para a Assembleia da República. Às vezes, parece que os políticos são os que menos levam a sério a casa que os fez nascer para a vida pública.

Ainda assim, feito o balanço das três dúvidas, concluímos que o Banco de Portugal não tinha nenhum instrumento legal para impedir o tal empréstimo, que afinal não é exato as ações do BCP fossem a única garantia, que não há nenhuma evidência ou indício de que Constâncio tenha participado em qualquer conluio e que, sendo possível que o seu conhecimento sobre o negócio fosse maior do que nos fez crer, isso não tem grande relevância para o que poderia ter feito. Do ponto de vista mais concreto, no que estava em causa naquela Comissão de Inquérito, que era a Caixa Geral de Depósitos, não me parece que tenha restado nada de substancial contra Constâncio. E, no entanto, os jornais que fizeram disto tema durante várias semanas, alguns deles com erros factuais indesmentivelmente comprovados, ou não corrigiram com o devido destaque ou não corrigiram de todo. E já todos têm o contrato em causa.

Não só o contrato de empréstimo da Caixa dizia não necessitar de mais nenhuma autorização interna ou externa, como permitia o uso do dinheiro para adquirir ações de mais empresas. Formalismos, já que Constâncio sabia o dinheiro era para o BCP? É isso mesmo que os contratos são: formalismos. E com base neles, o Banco de Portugal não podia impedir aquele empréstimo

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Parece-me muito pouco credível que Constâncio tenha participado, com Sócrates, numa tomada de poder do BCP pelo PS. Também me parece, perante o alarme que se instalou em torno da situação no banco, provável que visse com bons olhos uma mudança de poder. Com os dados da altura, tinha boas razões para isso, mas esse é outro debate que talvez alguém um dia queira fazer. E até estou disponível para acreditar que Constâncio podia ter travado o reforço de poder de Berardo no BCP. Seria apenas importante saber com que argumento. Mas o que fiquei a saber é que não podia, pelo menos de forma legal, impedir o empréstimo que foi dado pela Caixa. E era este o assunto (e não sobre o BCP ou o Banco de Portugal) que a comissão de Inquérito sobre a CGD tratava.

Recordo a acusação, em manchete do “Público”: “Constâncio autorizou Berardo a ir levantar 350 milhões à Caixa”. O grande argumento, para atalhar pormenores, é que o Banco de Portugal poderia ter impedido o empréstimo se não aprovasse a operação de Berardo no BCP. Impedindo o negócio impedia o financiamento para o negócio. Acontece que, ao tornar público o contrato de empréstimo da Caixa, Constâncio desmentiu esta afirmação: não só o contrato de empréstimo não dependia de qualquer autorização do uso desse dinheiro na aquisição do BCP, como dizia expressamente não necessitar de qualquer autorização interna ou externa que não tivesse sido devidamente obtida. E permitia o uso do dinheiro para mais nove empresas do PSI 20. Formalismos, já que Constâncio sabia o dinheiro era para o BCP? É isso mesmo que os contratos são: formalismos. E com base neles, o Banco de Portugal não podia impedir aquele empréstimo. E nenhuma razão, para além do próprio empréstimo, podia ser usada para impedir a compra das ações do BCP. Um regulador não toma decisões porque sim.

Só posso ter uma opinião sobre um caso destes com base na informação que me dão os jornais. Infelizmente, tive de esperar várias semanas para perceber onde estava pelo menos parte da verdade.

Que Constâncio, Pinhal e Berardo não me digam tudo, é o que se espera. São parte neste processo. Que o jornalismo se torne, por dependência em relação a fontes interessadas ou apenas teimosia, ele próprio parte interessada, já é um pouco mais aborrecido. É com ele que conto para, no meio das guerras entre atores políticos, empresariais ou institucionais, me digam, com base em factos rigorosos, o que realmente aconteceu.


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5 pensamentos sobre “Constâncio, a imprensa e a velha rábula da “história mal contada”

  1. Se calhar está na altura é de nos debruçarmos mais sobre o director do Expresso. Já que o Manuel Carvalho fez questão de continuar a demonstrar toda a sua falta de carácter. No caso com a Casa do Douro. E para quem não saiba, também aqui voltamos a debruçarmo-nos sobre um regulador. A quem felizmente o neo-liberalismo ainda não conseguiu retirar todas as ferramentas de regulação para em alturas de crise vir depois gritar pelo regulador. Sim, também é a Casa de Douro que permite aos pequenos produtores da região fazer vinho do Porto. O ouro do Douro. Digamos assim de forma mais compreensível. Todos os produtores produzem vinho e consoante alguns critérios é-lhes autorizado um acréscimo de rendimento com uma percentagem de um dos vinhos generosos muais famosos do mundo. E assim que se controla a produção e o preço de um produto de excelência. Acontece que as grandes famílias produtoras, como é o caso da família de Manuel Carvalho, sempre ambicionaram abarbatar a quota de vinho do Porto toda. E mais uma vez foi só este facto que justificou a fúria toda que se abateu sobre a Casa do Douro em mais uma “peça jornalística” do senhor em causa. Já não lhe chegava omitir essa proveniência enquanto provador de vinhos no mesmo pasquim. Ou seja, mais uma vez juiz em casa própria. Não satisfeito ainda tentou a milionésima investida sobre a Casa do Douro. Careca destapada nunca mais ninguém ouviu o Carvalho a falar da Casa do Douro.

      • Obrigado. Sem dúvida diz muito do país político hoje. Quem anda a provar vinhos em concursos e jornais patrocinados pela própria família é quem mais apela à transparência e chama os outros de corruptos. Talvez antes que o chamem a ele. Da mesma forma que quem mais chama pelo Estado hoje são precisamente os maiores fanáticos da mão invisível. Mas ainda há muita boa gente que diz que não há populismo em Portugal. Excepto talvez a geração que adora governos sombra com a cabeça cheia de merda. Há meia-dúzia de anos também ninguém achava possível que um aldrabão que nunca teve onde cair morto comesse o cérebro a 90% dos sportinguistas. Com o pseudo-intelectual que assina este post à cabeça. Bastou que os resultados não aparecessem… Por isso é que eu digo muitas vezes que talvez nunca venhamos a descobrir o que Centeno está a fazer por Portugal. Era muito bom sinal. Sobretudo devido ao estado em que encontrou o país. Para amostra de populismo já chegou o desgoverno anterior.

        P.S. Não percebo porque é que não consigo inserir um comentário no post anterior.

  2. Ainda uma nota acerca do recente texto do Pacheco cerca do qual “estatuadesal” escreve:

    “Ora, quando o PS executa as politicas de pauperização dos serviços públicos tal como o Passos e o Gaspar fizeram, a única diferença é que o Passos o fazia com gosto, enquanto o Centeno alega que “não há dinheiro”.”

    Na altura não dei por esta pérola filha de uma tão má interpretação dos factos reais. Senão veja-se a diferença, não filha do linguajar político corrente dos slogans mas na profundeza substancial do que acontecia então.
    Passos não “pauperizou” os serviços públicos mas sim, e muito antes e muito muito pior, pauperizou o povo numa tentativa de o empobrecer, arruinar e proletarizar como castigo de uma culpla de um crime moral; viver acima das possibilidades e à custa dos “trabalhadores ” do Norte.
    Foi a pauperização do povo desempregado que o fez ficar em casa sem trabalho e rendimentos ou, muitas vezes ir para casa dos pais sobreviver da parca pensão de pais e avós e, noutros casos, emigrar como nos anos sessenta do salazarismo.
    Como poderia haver “pauperização” de serviços públicos se não havia público? Como poderia não haver “autoestradas ás moscas” se até nas estradas rurais e nas ruas de Lisboa, como constatei na altura, o transito diminuto era notório?
    E finalmente, porque ninguém escreveu ou designou pelo termo “pauperização” o que existia na altura e porquê agora é trombeteada a mil trombetas tal termo?
    Naquele tempo a pauperização exerceu-se sobre os próprios serviços públicos tornados excessivos para permitirem despedir os seus servidores.
    Deixar passar e propagandear a ideia que a pauperização pelo excesso repentino de utentes devido a uma boa medida governamental dos passes é a mesma que a “pauperização” pela miséria de vida imposta aos portugueses tem qualquer semelhança é um atentado à inteligência e à lógica inventada pelos mestres gregos.

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