Os malefícios dos benefícios

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 20/06/2019)

Alexandre Abreu

Um bom sistema fiscal deve ser simples, transparente, justo, proporcionar os recursos adequados à atividade do Estado e não implicar custos excessivos (incluindo em termos de dispêndio de tempo) nem para a administração fiscal nem para os contribuintes. Sobre isto é possível toda a gente ou quase concordar, independentemente da posição política – ao mesmo tempo que naturalmente se diverge sobre quão progressiva deve ser a fiscalidade e sobre qual deve ser o alcance da provisão pública.

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O uso – ou abuso – generalizado dos benefícios fiscais no sistema fiscal português é, à luz dos critérios em cima, um fracasso em toda a linha. O grupo de trabalho criado pelo Governo há um ano para estudar esta questão apresentou esta semana as suas conclusões, tendo encontrado 542 benefícios fiscais diferentes que, no seu conjunto, implicam uma despesa fiscal (perda de receita fiscal estimada) correspondente a perto de 12 mil milhões de euros – cerca de 6% do PIB, ou mais do que o orçamento anual do Estado para a saúde.

Mais grave do que isso, concluiu o mesmo grupo de trabalho, é o facto de não estarem contabilizados de forma minimamente rigorosa e sistemática nem os custos nem os benefícios da grande maioria dos benefícios fiscais que têm vindo a ser criados de forma ad hoc ao longo dos anos. Cerca de um quarto destes benefícios nem sequer tem uma função definida – não se conhece ao certo o objetivo económico ou social que se pretende com eles alcançar.

O sistema português de benefícios fiscais é um emaranhado de exceções, lacunas e escapatórias, principalmente em sede de IRS e IRC, que é tudo menos simples e transparente, servindo interesses particulares mal definidos e beneficiando desproporcionalmente quem melhor domina os meandros labirínticos da legislação e consegue fazer-se valer disso.

A essa dimensão de injustiça acresce a que resulta do facto de os benefícios fiscais serem em geral uma forma socialmente regressiva de despesa. Veja-se o exemplo da proposta, ainda esta semana retomada pelo CDS, de os residentes no interior do país pagarem metade do IRS. Quando temos em conta que perto de metade das famílias portuguesas (as de menores rendimentos) não paga IRS devido a não terem rendimentos suficientes para tal, percebemos facilmente que esta medida beneficiaria essencialmente as famílias do interior que auferem maiores rendimentos – as mais pobres não teriam qualquer vantagem – e que o benefício será tanto maior quanto mais elevados forem os rendimentos das famílias em questão. Por baixo de uma capa aparentemente benigna, esconde-se uma proposta fortemente regressiva em termos sociais, nomeadamente face à alternativa de reforçar o investimento público e os apoios sociais dirigidos ao interior, que têm um efeito muito mais transversal e progressivo.

Os benefícios fiscais reduzem os recursos que permitem financiar a atividade do Estado, aumentam a opacidade e complexidade do sistema fiscal e são uma fonte importante de injustiça e regressividade. Devem por isso ser excecionais, rigorosamente avaliados nos seus custos e benefícios e preverem mecanismos automáticos de caducidade. Em boa hora este grupo de trabalho começou a olhar para este problema, avançando com propostas neste sentido que o Ministério das Finanças parece ver com bons olhos. Resta agora agir em conformidade.



Um pensamento sobre “Os malefícios dos benefícios

  1. Claro que as boas medidas são as oriundas de uma observação inteligente detectada primeiro depois bem estudada e verificados os factos e respectivas consequências. Constatados e bem definidos os contornos dos erros de expediente às vezes tão velhos e entranhados na normalidade da repetição que passam pela força do hábito.
    Fazer isto é da boa governação que está atenta quer ao contribuinte quer ao especialista de sacador por expedientes.
    O contrário disso, o oposto ridículo e mentiroso disso é dizer-se ao povo que para governar o país com finanças fartas sem cortes de pensões ou salários nem aumentos de impostos basta “cortar nas gorduras do Estado”. E afirmar tal sem ter o mínimo conhecimento do estado das finanças públicas nem ter executado o mínimo estudo e avaliação nem sequer ter uma ideia precisa do que verdadeiramente era isso das “gorduras do Estado”.
    E, mais tarde, a mentira das “gorduras do Estado” sobre as quais não havia a menor ideia nem os ministros incompetentes sabiam avaliar, em desespero de causa, deu origem às perseguições das Fundações com base num estapafúrdio e mal amanhado estudo feito com a cabeça dos dedos dos pés que produziu casos tão absurdos como aquele em que a Fundação do Alberto da Madeira, toda ela financiada com dinheiros do Governo Regional, teve melhor classificação, para efeitos de financiamentos estatais, do que a Fundação Gulbenkian.
    Compare-se o método, a actuação e resolução do problema das gorduras do Estado entre um Governo de Estado e um grupo de salteadores do Estado.

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