Carta aberta de vítima: “Não sou eu que tenho que fugir. Não sou a criminosa”

(In Diário de Notícias, 07/03/2019)


Este ano já morreram 12 mulheres vítimas de violência doméstica

Há seis meses que esta mulher está escondida do seu ex-companheiro numa casa abrigo. Teve de abandonar a vida que tinha começado a construir. Numa carta aberta do Presidente da República e ao DIAP de Leiria diz que não deveria ser ela a desistir de tudo, que o seu agressor é que devia estar internado numa instituição.


Geysa viive desde 30 de outubro numa casa abrigo para vítimas de violência doméstica. Antes de ser instalada nesta casa, juntamente com os dois filhos, a muitos quilómetros de distância da sua residência, ainda passou 20 dias por uma casa de emergência. É brasileira, chegou a Portugal a meio de junho do ano passado para se casar com o homem que conheceu dois anos antes. Vinha à espera de uma vida de sonho e em seis meses acabou por viver um filme de terror – ela e os filhos.

A carta aberta ao Presidente da República é também dirigida ao DIAP de Leiria onde decorrem os cinco processos que interpôs contra o ex-companheiro, mais dois do seu filho. Geysa processou-o por violência doméstica, violência psicológica, violência sexual, calúnia e difamação e maus tratos a animal. O filho dela processou o ex-companheiro da mãe por tentativa de homicídio e maus tratos a animal.

Leia na íntegra a carta de Geysa:

Carta aberta ao Senhor Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, e ao DIAP de Leiria:

“A minha intenção é ser a voz de inúmeras mulheres e homens também (pois acontece em número menor, mas não deixa de acontecer diariamente) que passam todos os dias por situações que poderiam ser facilmente evitadas neste país.

Eu sou brasileira, vim para esse país para me casar com um homem português, o qual achei um dia que poderia ser aquele com quem eu gostaria de dividir uma vida (esse foi um erro meu); vim para empreender neste país pois sou uma empreendedora; vim pela expectativa de um futuro melhor para meus filhos, saúde, educação de qualidade e avançada , e acima de tudo: vim pela segurança!

Portugal é um país seguro, comparando com o meu, mas minha segurança e dos meus filhos, nossa paz e tranquilidade em Portugal está sendo ameaçada por um único cidadão português! Um único homem! Porque infelizmente este país tão maravilhoso, tem um sistema um tanto quanto falho e injusto, para vítimas de violência doméstica, seja o tipo de violência que for: física, psicológica, sexual, verbal, tentativa de homicídio…

Em Portugal, quando alguém sofre violência doméstica, a vítima, com seus filhos, cachorro, papagaio e o que mais tiver, é obrigada a deixar sua casa, suas coisas, seu trabalho, seus filhos deixarem as escolas, os amigos, tudo para trás, para viver em casas abrigo longe de sua cidade de “risco”, longe de seu “agressor”, para ter o mínimo de “segurança”Quando o certo seria, muito mais justo e certamente até mais fácil, tirar o agressor do local. É o agressor que deveria ser afastado de sua família e de sua vida, ficar em uma instituição para se tratar e aprender a ser gente! Não a vítima!

Eu não sou parva, como vocês costumam dizer, percebo muito bem que, contrariando tudo o que eu lia e sabia respeito do país, existe um grande interesse político e económico por detrás de tudo isso. Se esse sistema não fosse lucrativo de alguma forma, não existiria, não é mesmo?

Mas ao menos tentem ser menos falhos e mais justos! Afinal estamos falando de justiça!

A maioria das violências domésticas acontecem DENTRO DE CASA, ou nas ruas com a vítima envergonhada fazendo de tudo para que não percebam o que está a se passar. Portanto, na grande maioria das vezes, meus senhores, não existem testemunhas! As cenas se passam no desespero das paredes daquilo que deveria ser um lar…na presença de um filho, algumas vezes de um animal de estimação. Outras vezes apenas entre vítima e agressor.

Não esperem testemunhas para que um crime tão avassalador possa ser julgado. Não esperem uma tragédia acontecer! Não permitam que esse número cresça a cada dia pelo facto das vítimas nem sequer terem coragem de denunciar por estarem desacreditadas da lei! Por perceberem que a exposição e reviravolta na vida é demasiada para pouca ou nenhuma solução…

E com isto, os agressores e criminosos crescem… pois sabem o que podem fazer e como podem porque não serão punidos!

Não serão! Ou até que sejam fazem estragos ainda maiores pois a justiça é lenta… demais.

Depois que eu fui obrigada a deixar minha casa, muitos foram os problemas, mentiras, calúnias que eu passei. Como os portugueses gostam de dizer, são inúmeras as asneiras que este cidadão português faz diariamente…e adivinhem: escapa de todas!Motivos para ir preso não lhe faltam… Mas se não for pego no famoso flagrante…não vai. Os criminosos sabem disso!

Um dia ele me encontrou, e me ameaçou. Só não fez pior porque eu estava rodeada de pessoas numa rodoviária, porque ele não é burro, sabe muito bem o que pode fazer e como. Eu telefonei a polícia, em dois minutos os policias chegaram e fizeram seu papel: me protegeram. É isso que os polícias devem fazer, certo? Proteger as vítimas.

Ele queria a todo custo seguir meu autocarro, quer a todo custo saber onde estou… a polícia bravamente o impediu. E este cidadão ainda teve a coragem e audácia de processar a polícia! Me diz, como é possível tanta injustiça ser aceita? Isso me faz grande confusão…

Senhores, vocês sabem o que aconteceria se meu” agressor” soubesse onde me encontro? De uma hora para outra, mais uma vez, em poucas semanas, depois dos meus filhos estarem novamente matriculados em outra cidade, minha vida estar tomando rumo mais uma vez…eu seria obrigada a mudar de cidade! Parar tudo mais uma vez! Que vida é essa? Isso é vida para alguém?

Não sou eu que tenho que fugir…

Não sou eu que tenho que ir embora…

Não fui eu que fiz mal a alguém…

Não sou eu a criminosa!

Por favor! Sejam ao menos justos! Repensem uma situação que acontece a cada dia e tem tirado a paz a dignidade e até a vida de muitas pessoas…

Um país considerado desenvolvido, entretanto tão subdesenvolvido no quesito justiça.


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Um pensamento sobre “Carta aberta de vítima: “Não sou eu que tenho que fugir. Não sou a criminosa”

  1. Esta é a triste realidade de muitas mulheres. Justiça mais pesada para estes criminosos é o que devia acontecer.

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