O PR e o Panamá

(Carlos Esperança, 26/01/2019)

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Quando li que o PR estava no Panamá, pensei que o dom da ubiquidade, atributo de um frade português que a mitologia católica colocou em Pádua e em Lisboa, à mesma hora, no mesmo dia, se repetia agora com Marcelo.

Dado que fujo dos telejornais, para preservar alguma sanidade mental, resolvi consultar o sítio da PR onde, de facto, estava anunciada a deslocação do PR ao Panamá para as XXXIV Jornadas Mundiais da Juventude.

A deslocação a festivais da juventude, de onde o julgava arredado pela idade, levou-me a indagar o que iria fazer ali o PR e a surpresa tornou-se azedume e a deslocação motivo de censura. Não foi procurar os papéis do Panamá que, noutros países, levaram pessoas à prisão, foi participar numa Via Sacra com os jovens, numa missa e assistir à bênção das obras de restauro de um edifício pio.

Se foi a expensas próprias, em merecidas férias, só me cabe respeitar a devota intenção, mas se foi em viagem de Estado fico com a vaga sensação de que desprezou o País laico que representa, num atentado à ética republicana e à neutralidade do Estado em questões religiosas.

Portugal elegeu um PR, não colocou em Belém, apesar do nome do palácio, uma figura do presépio, o sacristão que voa para as missas em vários continentes, um devoto, ruído pela fé, com um tropismo especial para beijar o anel do seu homólogo do Vaticano.

O encontro com jovens peregrinos portugueses não legitima a despesa e abre um grave precedente para encontros com jovens amantes do remo, do berlinde, da Música Pop, da vela, do andebol, do Rock ou da bisca lambida, sem necessidade de se ajoelhar na missa que o Papa Francisco vai dizer no exercício da sua profissão.

É natural que do encontro com o PR do Panamá, Juan Carlos Varela, resultem grandes vantagens para Portugal, mas podia aproveitar quando ele não estivesse ocupado com a receção ao chefe de Estado do Vaticano.

Marcelo, nesta fé que o devora, fere a laicidade e reduz-se a presidente dos portugueses amigos da hóstia e da missa. Parece o enviado da Conferência Episcopal Portuguesa.

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4 pensamentos sobre “O PR e o Panamá

  1. Marcelo acha que o anel do Papa é muito docinho dos muitos beijos açucarados que já recebeu, mas Marcelo gosta, alheio a todas as bactérias que pululam no dedo do novo reresentante de Deus na terra já que o outro se demitiu.

  2. Na verdade tenho dúvidas que o Estado português, tendo em conta a sua configuração constitucional seja, de facto, um Estado laico.É certo que consta da nossa CRP o princípio da separação entre as Igrejas e o Estado mas, será isso sinónimo de laicidade?A verdade é que olhando para o histórico dos nossos Presidentes desta III República observamos que os únicos que se aproximaram da orla da laicidade do Estado foram os oriundos da Esquerda, pelo menos formal, sendo que no caso de M. Soares, este se pautou por uma lacidade algo flexível, se atendermos quer às suas afirmações, quer a algumas das suas posturas públicas.Os outros presidentes nunca me pareceram fazer uma verdadeira profissão de fé na laicidade do Estado, antes pelo contrário.
    Aliás, para quem não saiba, os únicos Estados europeus em cuja arquitectura constitucional e legal o princípio da laicidade está inscrito são a França e a Turquia.

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