Ser realista, exigir o impossível

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 09/12/2018)

cancio

Nasci quatro anos antes de Maio de 68. Não posso ter memória disso, mas nos Paris Match dos meus pais, como em documentários na TV pós-25 de Abril, folheei e gravei no coração o romantismo e rebeldia daquela revolta de rapazes e raparigas sem medo, a beleza das imagens a preto e branco e das palavras de ordem nas paredes, a ideia de que por algum tempo – um mês e meio – tinha sido possível desafiar toda a ordem, toda a autoridade, e acreditar que tudo iria mudar.

A melancolia que sempre senti face a isso encontrei-a, deslumbrantemente exposta e narrada, em No Intenso Agora, o filme no qual João Moreira Salles, como eu uma criança à época, interroga, a partir de imagens de arquivo, aqueles dias extraordinários e o que se seguiu – desmobilização, desilusão, conformismo, integração, carreirismo, a vida normalmente. Um dos momentos mais pungentes é aquele em que uma jovem operária chora à porta da fábrica porque não quer desistir, regressar ao mesmo, enquanto colegas a tentam convencer de que houve conquistas, que não foi tudo em vão, que não ficou tudo igual mesmo se a revolução sonhada – qual? – não chegou a suceder.

Fast forwardCohn-Bendit, o mais famoso rosto de Maio de 68, já veio certificar que este inverno revoltoso nada tem a ver com a primavera de há 50 anos – “Em 68 queríamos tirar um general do poder, agora querem lá pôr um”. É certo. Como é certo que no 68 internacionalista se gritava “não queremos saber de fronteiras”, e em 2018, entre as reivindicações dos coletes amarelos – ou pelo menos de uma das listas que circulam – está o frexit, a saída da UE, e “impedir os fluxos migratórios impossíveis de acolher e integrar dada a profunda crise civilizacional que vivemos” (que crise civilizacional não explicam).

Mas nas 25 exigências de um dos manifestos desta revolta, que li ontem, há decerto alguma coisa com que os manifestantes de 68 se identificariam. Porque a lista atira em todas as direções, contraditória e infantil como é inevitável num movimento que mistura gente de várias ideologias e sobretudo de nenhuma.

Vejamos: se a primeira reivindicação é “inscrever na Constituição que o Estado não pode confiscar mais de 25% da riqueza dos cidadãos”, o que dificilmente veríamos num manifesto de 68, a segunda é “aumento imediato do ordenado mínimo, das pensões e das prestações sociais mínimas em 40%”, e a terceira é “contratação massiva de funcionários públicos para restabelecer a qualidade dos serviços”, encontrando-se também “quadruplicar o orçamento da justiça e torná-la totalmente gratuita”. Ou seja, os coletes amarelos querem que o Estado recolha menos impostos, uma exigência típica (no discurso; na prática outros galos cantam) da direita liberal, mas, numa reivindicação tradicional da esquerda coletivista (mas também da direita populista), igualmente que gaste muito mais; de onde julgam que virá a riqueza para a segunda parte não dizem.

Uma contradição na qual, de resto, e mesmo após o curso de macroeconomia forçado a que fomos submetidos nos últimos anos, se tropeça todos os dias nos comentários de internet – como se as pessoas em geral ainda não tivessem percebido que o dinheiro do Estado advém das contribuições, e que exigir muito mais investimento público não é compaginável com reduzir impostos.

A seguir vem “anular a dívida pública”, e “sair da UE e da NATO” – um orgulhosamente sós à maneira – mas também “tornar os bancos mais pequenos, desfazer monopólios, separar a banca de investimento da de retalho e proibir o resgate pelo Estado” e “parar com as privatizações”. Portanto, nacionalismo anticapitalista e reforço da ingerência do Estado no setor privado da economia, para a seguir lermos, sobrancelhas levantadas pelo paradoxo: “Interditar ao Estado a ingerência no ensino, na saúde e na família” e “excluir toda a ideologia do ministério da educação”. Mais Estado e menos Estado, ao mesmo tempo, pois. Mas “não ingerência na família” será o quê? Acabar com o reconhecimento estatal do casamento e da união de facto ou permitir todo o tipo, incluindo o polígamo, de casamento? Liberalizar a procriação assistida e a maternidade de substituição? Desmantelar a proteção de menores e acabar com a escolaridade obrigatória e a proibição da violência doméstica? Seria interessante descobrir, como o que será essa ideologia que recusam ao ministério da Educação – a menos que estejamos ante a cartilha antifeminista e anti-igualdade de todas as extremas-direitas emergentes.

Sim, é uma baralhada assustadora e sobretudo hiperpopulista, que sonha com homens providenciais e o regresso a uma abastança autossuficiente que nunca existiu – não admira que Trump bata palmas. Mas pode a noção disso esgotar o pensamento sobre o que se passa em França? Temo que não.

Porque há motivos para a raiva, para um sentimento de traição fundamental face à persistência da desigualdade; porque o desespero e o ressentimento são reais. Porque, caramba, ninguém pode ver aquela imagem dos liceais de joelhos sem se revoltar – que Estado faz aquilo? Que governo democrático? Porque, 50 anos depois, o poético e irónico “sejamos realistas, peçamos o impossível” de Maio de 68 é a fórmula triunfante dos demagogos.

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Um pensamento sobre “Ser realista, exigir o impossível

  1. É, de facto, uma bagunça e inevitável consequência de um sistema que não é menos confuso e disfuncional. Já «as pessoas em geral ainda não tivessem percebido que o dinheiro do Estado advém das contribuições» é um disparate tantas vezes repetido e ignorado (https://www.google.com/search?q=taxes+don%27t+fund+anything) que não admira que alguém comece a notar o óbvio.
    E por muitas congratulações que os eurófilos tenham feito uns aos outros em Lisboa, ninguém parece perceber que nada das suas “reformas” é minimamente permitido pelos vários tratados do orgulhosamente pobres – a salada progressista também não sai disto.

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