José Saramago – 20 anos depois do Nobel

(Carlos Esperança, 08/10/2018)

saramago

O maior ficcionista português de todos os tempos foi um escritor que se reinventou em cada livro que acrescentou ao banquete da literatura. O jornalista robusteceu a escrita na crónica e tornou-se um caso ímpar na arte de contar, na forma como moldou a língua e na argúcia com que abordou o outro lado da nossa História nas mais belas páginas da literatura.

Há 20 anos, mal acabara de ser anunciado o Nobel do nosso contentamento, recebi uma chamada do meu querido colega e amigo, Marinho Rosa, a transmitir-me a novidade e a dizer que a minha convicção se tornara realidade. Há anos que esperava ver o nome de Saramago entre os laureados do prémio maior da literatura. Acabara de acontecer.

Foi com um grito de júbilo que gritei a notícia no bar do Hospital de Leiria, onde me encontrava, para ficar estupefacto com o desconhecimento generalizado do escritor e a indiferença perante o galardão. Há paladares rudimentares que a Universidade não ajuda a requintar e as iguarias são para quem sabe apreciá-las.

Vinte anos volvidos, Saramago não precisa de panegiristas, merece apenas ser lido com a sedução que inspira, o prazer que transmite em cada página e a descoberta da riqueza da língua portuguesa trabalhada por um notável criador.

Ao indizível prazer da leitura do gigante literário que é José Saramago junta-se o deleite pelo azedume que provocou o seu êxito e a animosidade de que ainda é alvo.

L’Osservatore Romano, diário do Vaticano, escreveu quando B16 era líder da Empresa: “Saramago é, ideologicamente, um comunista inveterado” e, alguns dias depois da sua morte, distinguiu-o com os epítetos “populista extremista” e “ideólogo antirreligioso”.

Sousa Lara, pai do exorcista homónimo, subajudante de ministro de Cavaco, censurou “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e opôs-se a que fosse incluído no concurso a um prémio literário europeu. Foi a rosto do cavaquismo, intolerante, vesgo e analfabeto.

O eurodeputado do PSD, Mário David, nascido em Angola, e a viver há décadas fora de Portugal, declarou ter vergonha de ser compatriota do escritor e que este devia renunciar à nacionalidade portuguesa.

O Dr. Manuel Clemente, então bispo do Porto e ora o mais medíocre patriarca de Lisboa do último século, afirmou que José Saramago “revela uma ingenuidade confrangedora quando faz incursões bíblicas” e, como “exigência intelectual, deveria informar-se antes de escrever”, com o se alguém o obrigasse a ele, bispo, a pensar antes de falar.

Saramago teve a sorte de viver numa época, como admitiu, em que não havia fogueiras da Inquisição, e Portugal a de gerar um escritor cujas posições políticas são irrelevantes para a talentosa criatividade do Nobel do nosso contentamento.

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3 pensamentos sobre “José Saramago – 20 anos depois do Nobel

  1. Nada disso impede que tenha sido um mau caracter. Se me pedirem explicações terei muito para dizer, ao vivo… Não é só ler «O Memorial do Convento» e ficar extasiado. Richard Strauss foi um genial compositor e não deixou de ser «um nazi relutante»…

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  2. Saramago foi genial como contador e como trabalhador da palavra e da frase. Foi também homem de convicções e com um carácter bem vincado. Et alors ? Defender as classes pobres contra quem nunca para de extorquir, roubar, enganar, desviar leis para melhor se safar etc… é mal ? Eu aprovo, e se não aprovo em tudo, posso discutir e combater democraticamente na imprensa,ou na Assembleia …gente como Saramago o permitiram, lutando..
    Saramago sempre teve muitos inimigos, e não é de admirar… inclusive naqueles que escrevem para só falar dos seus umbigos, das suas pequenas pessoas, da sua família, dos seus sucessos literários que não chegam aos calcanhares de Saramago. Odiado até, por terem dores de cotovelo… dores que levarão ao caixão, hélas!
    Aplausos ao nosso querido Prémio Nobel.

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  3. « subajudante de ministro de Cavaco»
    Mr Cavaco, hoje avaliado pelo PR, sobre Saramago.
    A obtusidade infantil, com categoria adulta de paga.
    Ou a inteligência contra o obscurantismo, para não dizer estupidez.
    Bingo, Mr President.

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