RACHANDO LENHA

(Virgínia da Silva Veiga, 09/09/2018)

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Excepto algum núcleo restrito, ninguém faz a menor ideia do cerne da matéria que consta dos requerimentos de Abertura de Instrução por parte dos arguidos que a apresentaram no caso designado por Operação Marquês. Das questões de fundo que possam ter invocado nem uma foi mencionada na comunicação social e essa é a notícia: depois de anos a divulgar matéria acusatória, o jornalismo não teve a menor preocupação com a substância do contraditório.

O assunto único trazido à ribalta dos dias é a contestação da equidistância do juiz Carlos Alexandre para presidir à diligência e, mesmo nesse caso, sem que tenham sido divulgados os argumentos concretos, quais, exactamente, as razões invocadas.

Facto parece ser haver três arguidos, Armando Vara, Carlos Santos Silva e José Sócrates – que igualmente põem em causa a respectiva imparcialidade e – diz-se – o último ter mesmo pedido para acompanhar tecnicamente o sorteio electrónico.

Verdade ou mentira, intriga. É facto – esse é – que José Sócrates justamente levantou em tempos um incidente de suspeição sobre o magistrado, na sequência de entrevistas em que o mesmo revelava pré-juizos sobre quem tenha amigos que lhe emprestem dinheiro, elemento crucial para apreciação do fundo da causa. Perdeu o caso por decisão de magistrados que o hão-de julgar em última instância, se o processo não for arquivado.

Sendo assim, a probabilidade de êxito desta questão está antecipadamente toldada, além de estarmos para ver o que se fará caso o algoritmo prefira Alexandre.

O assunto torna-se ainda outro se atentarmos em haver apenas duas pessoas a poder dirigir esta fase: o suspeito do costume e Ivo Rosa. Inexoravelmente o caso cairá nas mãos de um dos dois. Ivo há muito tem sobre ele a pressão dos jornais, sibilinamente fazendo crer que, se o colega é contra, ele é pro, isto é, também ele não seria isento. Apesar disso, este último resiste e consegue manter a imagem de competência. A preferência dos arguidos percebe-se, portanto, o que se não percebe é outro assunto.

Pôr de novo em causa Carlos Alexandre quanto ao julgamento que pudesse vir a fazer não é o mesmo que arguir a nulidade dos actos por ele anteriormente praticados ou omitidos, o que parece, pelo pouco que nos chega, ter sido a posição do cliente de Paula Lourenço, Carlos Santos Silva. A perceber-se o que se passa, esta Advogada invoca, em momento apropriado, a invalidade da prova produzida anteriormente no inquérito o que é bem diferente de invocar a capacidade para apreciação da que venha a produzir-se.

Em que dá tudo isto, em conclusão? Em que quem está de fora e não conhece os argumentos racha lenha porque, com os dados até agora conhecidos, não se entende o que possa garantir melhor apreciação por parte de uma das duas escolhas possíveis.

Quem está de fora, pergunta-se se importa mais um sorteio que se não controla, por muito que a ele se assista, se questionar passo a passo o andamento desta fase, caso seja a defesa atropelada por seja lá quem for o magistrado a quem for entregue, não deixando cair sem arguição os actos irregularmente praticados ou, melhor dito, praticados ou omitidos anteriormente.

Quando a escolha recai obrigatoriamente sobre uma única alternativa é demasiado arriscado colaborar com a ideia de que uma delas é inquestionável, limitando a força da argumentação caso assim não venha a ser e pode bem. Não por suspeições, porque Ivo Rosa é humano.

A latere, certo é o processo já não estar nas mãos da PGR sendo melhor deixar de avocar Vidal, ou quem a substitua, como garante de um julgamento que, felizmente, já não controla nem pode continuar a deixar protelar. De fora, aguardemos que alguém divulgue os verdadeiros argumentos das defesas, desta feita por interesse público, do público e privado.

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5 pensamentos sobre “RACHANDO LENHA

  1. Contra a imparcialidade do juiz Calex está a sua entrevista à SIC, onde fez referências
    directas ao inquérito designado “operação marquês”, afirmando não ter amigos que
    lhe emprestassem dinheiro, numa alusão a José Sócrates mais tarde, veio a saber-se
    que o seu grande amigo e ex procurador Figueira lhe emprestou vários milhares de
    euros ao ser apanhada uma transferência bancária de 10 mil euros a favor do citado
    procurador a ser julgado por corrupção!
    Pior, só se mantém no actual cargo porque quando o seu comportamento foi aprecia-
    do no CSM, se safou por um voto, em virtude de os dois representantes do PS nesse
    Conselho terem faltado à reunião senão, o resultado seria pela penalização da figura!

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    • Lixo.

      Nota, ó José da Madeira Queimada! Lá por o post da Virgínia, No País das Maravilhas, apelar a uma eventual carrada de lenha não quer dizer que tu venhas para aqui armado em cepo (a exemplo do que sempre fazes entre a troupe dos fanáticos da personagem Valupiana, no Aspirina B).

      ce·po |ê|
      substantivo masculino
      1. Pedaço de tronco cortado transversalmente.
      2. Espécie de coluna que serve, nas igrejas, como de caixa para esmolas.
      3. Trambolho que se prende à perna dos animais domésticos para não fugirem.
      4. Armadilha para caçar.
      5. [Figurado] Pessoa estúpida que não serve para nada.
      6. [Técnica] Nome de diversas espécies de plainas.

      Como diz o Karl Marx, d’A Estátua de Sal, aqui também se aplica, principalmente, o ponto 5 (e também o trambolho e a caixa de esmolas, pelo que toma lá uma moedinha!).

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  2. «Excepto algum núcleo restrito, ninguém faz a menor ideia do cerne da matéria que consta dos requerimentos de Abertura de Instrução por parte dos arguidos que a apresentaram no caso designado por Operada ção Marquês.», lida a frase por duas ou três vezes, lida esta frase primeira no âmbito do parágrafo, não se percebe se a sôtora Virgínia, No País das Maravilhas, se lamenta, ou confessa?, de não pertencer, não?, ao tal “círculo restrito” (e tem uma bola de cristal, ou nem por isso?) da defesa de José Sócrates. Ou seja, daquilo que parece ser um comité manipulado ao sabor de uma mão por detrás do arbusto, ena!, formado pela firma Araújo, Delille & C.ª, Limitada, pela advogada de Carlos Santos Silva, pelo advogado do ex-empregado bancário Armando Vara- cuja-tese-ainda-antes-de-ter-pés-para-andar-já-foi-desmentida e, ainda, o mediático advogado da Sofia que, sabe-se, sofre ela de alguns apertos financeiros.

    A seguir, ainda.

    Nota. Destaco a subtileza do teu destaque no entretanto, Manuel G.

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