Low cost e luta de classes

(António Guerreiro, in Público, 17/08/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Quem, nestes dias, nestas últimas semanas, ou até nos últimos meses, viajou de avião, de uma cidade qualquer para outra cidade qualquer, passou muito provavelmente pela experiência de viver o caos na terra e o inferno nos céus. O acidente, escreveu uma vez um urbanista, é a face escondida do progresso. Não há hoje nenhum lugar onde o acidente seja tão visível como nos aeroportos, que são plataformas logísticas que funcionam como os centros das cidades.

O acidente consiste desde logo na indistinção entre quem chega e quem parte. Dantes as duas categorias eram bem distintas, não só porque cumpriam rituais diferentes, mas também porque os que partiam não tinham a mesma cara, a mesma deixis corporal, daqueles que chegavam. Ora, hoje são todos iguais porque, em rigor, os aeroportos são o lugar da chegada generalizada. Toda a gente, independentemente de estar à espera de partir pelos ares ou de ser posto finalmente em terra, tem aquela mesma cara de quem chega ao aeroporto, isto é, ao lugar do grande fechamento, como foram – ou são – as prisões e os asilos. Mas esse é apenas o primeiro estádio do acidente. O acidente numa fase mais avançada é quando, uma vez transpostos todos os obstáculos e barreiras, começa a espera. Pode durar horas e nós nunca sabermos porquê. Mesmo quando tudo decorre normalmente, acedemos sem atribulações ao lugar reservado e são cumpridos os horários, a sensação de que atravessámos um campo de batalha e de que ali se trava a mais actual forma de guerra deixa-nos antecipadamente com medo da próxima chegada ao aeroporto. Há aeroportos por essa Europa fora que por estes dias foram considerados lugares de perigo, a evitar. Não é apenas o aeroporto de Lisboa que está superlotado, o céu está superlotado de aviões e o mundo está superlotado de viagens.

Tal como no final do século passado se falou muito do fim da história, é agora o tempo de perceber que chegou o fim da geografia. Andávamos todos nós tão contentes com os voos low  cost, e antes disso com a velocidade que modificou as condições da viagem e do percurso. Sabemos agora que alguém, ou alguma coisa, desatou a rir-se de nós, fazendo-nos experimentar a situação paradoxal de ficarmos imobilizados por causa do excesso de mobilidade.

A situação já era nossa conhecida nas entradas e saídas das grandes cidades. Mas agora todas as ligações aéreas de umas cidades às outras conhecem esse regime do trânsito parado.

Este mundo que tende para a sua perda, isto é, para a entropia, é um mundo irónico que transforma toda a promessa de felicidade (temporária, é certo) num inferno e deixa toda a gente parada – por muito mais tempo do que aquele que conseguimos suportar – exactamente porque foi prometida a toda a gente a fácil mobilidade e a velocidade.

Nunca o fenómeno da entropia foi tão espectacular como é hoje nos aeroportos e no tráfego aéreo. Talvez seja necessário ter em conta que há uma economia política da velocidade e não apenas da riqueza produzida. E quando somos submetidos nos aeroportos e nos aviões à condição de plebe desprezível, pensamos que ali pode estar a renascer uma nova modalidade de luta de classes: por onde circulam os ricos nos aeroportos?

Em que aviões viajam para não correrem o risco de perder tempo? Porque é que a velha máxima do “tempo é dinheiro” continua a ser tão actual que ou se tem as duas coisas – tempo e dinheiro – ou não se tem nenhuma. Tempo low  cost? Bela promessa. A situação de “desastre” nos aeroportos diz-nos que, neste domínio, são muito frágeis as conquistas e poderosos os retrocessos.

O último enciclopedista

(Por Estátua de Sal, 18/08/2018)

Homem enciplodédia

Imagem in Blog 77 Colinas

Dizem os Evangelhos que a inveja é um pecado mortal, muito feio, sendo por isso apanágio das consciências mal formadas. Mas que seja. Eu, Estátua, pecador me confesso e, como também rezam os Evangelhos, a confissão é meio caminho andado para alcançar o perdão.

Mas, afinal de quem é que eu tenho tanta inveja, tanta que me farto de pecar quase diariamente? Pois bem, aqui fica a minha confissão. Tenho uma inveja danada do Dr. Balsemão. E qual a razão? Podem avançar com palpites, digo eu. E perguntarão os meus leitores:

— Será por ele ser rico e dono de um empório de comunicação? Nada disso. Até dizem que a Impresa está meia afogada em dívidas e já viu melhores dias.

— Será por ele aparecer – ainda que cada vez menos -, nas revistas sociais, sempre no meio de gente fina, e morar nesse recanto selecto que é a Quinta da Marinha? Nada disso, cada vez mais frio, estou-me nas tintas para essas manifestações de vacuidade social.

— Será por a SIC e o Expresso continuarem a ser, ainda hoje, potentes instrumentos  de formatação da opinião pública, o que torna o Dr. Balsemão um homem poderoso, respeitado e, ao mesmo tempo, temido por tudo quanto é político no activo, à esquerda e à direita? Também não, nada disso, nunca quis ser missionário de qualquer ideologia ou crença, pelo que nunca me quereria colocar no papel de grande educador do povo.

Pronto. Como não acertaram eu deslindo o caso: invejo a vocação inata do Dr. Balsemão enquanto gestor de recursos humanos. Só um grande patrão, de fina e arguta sensibilidade na escolha do pessoal, poderia alguma vez ter contratado esse notável comentador que é o José Gomes Ferreira! Eu explico, então, a razão da minha inveja, mesclada de admiração, ainda assim.

Contratar alguém que nem sequer é licenciado em economia ou finanças para comentar assuntos de economia e finanças numa televisão, não é para qualquer gestor de recursos humanos. Mas, o Dr. Balsemão, conseguiu ver para lá dessas mesquinhas evidências curriculares. E que viu ele? Que o Gomes Ferreira era uma espécie de canivete suíço do comentário.

Ele perora sobre economia, sim, mas também sobre incêndios, pontes, electricidade, Direito, Justiça, política nacional e internacional, animais de estimação e, se preciso for, sobre os anéis de Saturno ou sobre a vida sexual das baratas. Consta até que lê mais rápido que o Professor Marcelo, conseguindo decorar diariamente 100 páginas da Wikipédia.

Já viram a poupança que o Dr. Balsemão já fez estes anos todos? Em vez de contratar dez comentadores, só tem que pagar ao Gomes Ferreira! Ele dá conta do recado, na hora e ao vivo, cobre todos os directos sem pestanejar, e explica aos espectadores tudo o que se está a passar com uma surpreendente e prolixa erudição.

É daí que vem a minha inveja. O Dr. Balsemão é um predestinado para a gestão. É que essas coisas não se aprendem. Nascem com as pessoas. Herdam-se das linhagens. Vem lá dos Palmelas, dos Fronteira, dos Alfarrobeira, que sei eu.

Ora, como eu nunca contrataria o Gomes Ferreira – reconheço que por falta da visão empresarial e de gestão do Dr. Balsemão -, não posso almejar a ter um império de comunicação social, e limito-me a ter um blog.

Costa quer descalçar a geringonça e não consegue

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/08/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

(Queres tu dizer, ó Daniel, que o Costa calçou umas botas que lhe apertam o joanete do pé direito, e que anda a guinchar pelas esquinas porque as não consegue descalçar? Deves ter razão, o homem acha que já não precisa de botas tão justas e que dão uma trabalheira danada a engraxar, estando sempre a precisar de levar meias-solas… 🙂

Comentário da Estátua, 18/08/2018)


Há um pormenor revelador na última entrevista de António Costa ao “Expresso”: o momento em que, com um ar trocista, o primeiro-ministro fala de Ricardo Robles para dizer que se espantava por alguém tão vocalmente moralista ter pecadilhos. Não interessa aqui o caso em concreto, que já tratei várias vezes e a que só voltarei quando um caso similar não merecer o mesmo tratamento. Está em causa a resposta. Se há coisa em que Costa é especialista é em relativizar “pecadilhos”, sejam os de Rocha Andrade, de Mário Centeno, de Siza Vieira ou dos seus. Mas o que Costa criticou em Robles não foi o “pecadilho”, mas o seu vocal moralismo. Acontece que esse é anterior ao nosso conhecimento do negócio em Alfama. O que quer dizer que já era essa a avaliação que Costa fazia do vereador. O que é estranho, já que Robles foi o primeiro dirigente do Bloco a aceitar participar num Executivo do Partido Socialista. Logo na Câmara que Costa dirigiu e através de um acordo com o seu delfim. É estranho que se mantenha em silêncio sobre quase todos os pecadilhos do mundo e decida falar para atacar o pecadilho de um aliado. Ainda por cima, não para criticar um erro (coisa que seria normal se o costumasse fazer com os seus), mas para lhe atribuir um padrão de comportamento político estruturalmente desagradável.

Teria sido fácil para o BE ou para o PCP cavalgarem o escândalo em torno dos bilhetes de Rocha Andrade e Mário Centeno, só para pegar nos “pecadilhos” mais mediáticos. Não o fizeram. Por uma razão simples: entre os aliados da “geringonça” tem havido muitas acusações políticas, porque elas correspondem a divergências programáticas, mas não tem havido aproveitamento de casos, porque isso está no domínio da guerrilha partidária. E muito menos esses casos têm sido utilizados para caracterizar os outros partidos. A única exceção de que me lembro, e ainda assim de forma suave, foi a reação do Bloco às incompatibilidades de Pedro Siza Vieira.

Critiquei aqui o PCP quando, para defender uma posição correta, usou uma música do “Padrinho” exibindo a cara de António Costa. Porque há uma diferença entre a crítica a uma determinada escolha política, admissível a quem suporta um Governo, e uma caracterização moral insultuosa, que torna incompreensível esse apoio. Caracterizaria da mesma forma esta declaração de Costa se ela não correspondesse a um comportamento cada vez mais recorrente, sobretudo dirigido ao BE (mas não só).

Quase todas as semanas fontes do Governo, que já todos perceberam estarem muito próximas de Costa, têm colocado na imprensa muitas provocações aos parceiros de maioria parlamentar. No que toca ao Bloco, são acusações de falta de credibilidade e confiança; no que toca ao PCP, são exibições de condescendência. Em qualquer um dos casos, mas sobretudo no que toca ao partido que mais eleitorado partilha com o PS, estamos perante tentativas de provocar uma reação que permita a Costa responsabilizar os partidos à sua esquerda pela insustentabilidade futura da geringonça para ter um ambiente mais propício para ressuscitar o voto útil e pedir a maioria absoluta. Como o BE não tem caído na esparrela, é o próprio António Costa que vai levando cada vez mais longe a provocação.

A falta de empenho de António Costa na geringonça é natural. Mais vale governar sozinho do que acompanhado. Ou acompanhado por um PSD em estado letárgico do que por partidos com programas políticos e ideológicos que exigem mais capacidade negocial.

Só que Costa terá de se confrontar com uma evidência: a grande diferença entre este Governo e Governos anteriores do PS foi que dependia de partidos à sua esquerda. E isso sentiu-se bastante nos dois primeiros anos de geringonça, enquanto houve acordos para cumprir.

Aos eleitores de esquerda, bastará responder a uma pergunta: acham que haverá mais investimento do Estado, maior proteção dos serviços púbicos, mais ponderação entre as necessidades sociais e as contas públicas e melhores leis laborais com o PS sozinho (ou dependente do PSD) ou com o PS a ter de negociar com BE e PCP?

E quanto mais Costa se afastar da geringonça, quanto mais provocar os seus parceiros, quanto mais desesperado se mostrar por ver a maioria absoluta fugir-lhe, mais evidente será que a continuação desta solução depende da votação no BE e no PCP. Todos conhecem a arrogância do PS e do PSD quando se apanham sozinhos no poder. Quanto mais Costa exibir essa arrogância para provocar uma reação dos parceiros mais força lhes dará. Funciona como um lembrete.