Limpar a mata num país sem gente 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/03/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Como já se previa, o prazo para a limpeza das matas foi alargado. Esperou-se pelo último dia para o anunciar, tentando que o esfoço não abrandasse. Mas era preciso atender a um facto simples: o de se estar a fazer em poucos meses o que não era feito, em alguns casos, há muitos anos. Não devemos dramatizar. Há queixas e lamentos. Muitos. Há sempre que se tem de fazer um corte com o passado. A tendência normal do humano é, mesmo perante a tragédia, resistir a mudar de hábitos. Depois, quando os resultados chegam, novos hábitos se instalam.

Acho bem que o governo tenha marcado o dia de hoje para a limpeza, com alguma folga para a época dos incêndios e acho que era inevitável que alargasse os prazos. Dito isto, não nos devemos iludir com o saudável empenho conjunto de primeiro-ministro e do Presidente da República em mostrar ao País que a limpeza da mata é um desígnio nacional. Não chega muita vontade.

Ouviram-se muitas queixas nas últimas semanas. Algumas justíssimas, sobretudo relativas à informação pouco rigorosa que foi chegando aos proprietários, que não sabiam o que cortar exatamente, levando a alguns crimes ambientais, até com sobreiros abatidos. Uma carta das Finanças terá contribuído especialmente para a confusão. É um dos graves problemas do nosso Estado: a falta de profissionalismo na forma como comunica com os cidadãos, sempre entre a total opacidade (é preciso um contabilista para decifrar uma simples carta da Autoridade Tributária) e absurda vacuidade das formulações que escolhe.

Mas as principais queixas são as que nos alertam que não chegam pacotes legislativos, multas e discursos motivacionais para mudar o Portugal profundo em poucos meses. O esforço hercúleo na limpeza das matas, vivido em muitas aldeias deste País nas últimas semanas, revela quase todos os problemas do nosso território. Não é por decreto que grandes partes do nosso interior deixa de ser quase exclusivamente habitado por velhos e que aparece gente jovem para fazer o trabalho de limpeza. Não é por uma decisão política instantânea que os pequenos proprietários passam a ter o dinheiro que não tinham para fazer o abate das árvores. Não há nenhum discurso que, de um dia para o outro, transforme o minifúndio, grande parte dele abandonado por quem nem vive no local, em unidades de exploração com dimensão suficiente para garantirem os recursos financeiros necessários para a sua preservação.

O clamor nacional do verão, que nos dizia que nada podia ficar como antes, chocou, nestas semanas, com a realidade. Com problemas estruturais do território que não se resolvem com medidas expeditas, pacotes legislativos e exigências de editorialistas. Os incêndios revelaram todas as fragilidades do nosso desenvolvimento e do nosso território. Sendo tudo uma questão de vontade, a vontade não resolve em meses problemas de décadas.

Neste momento apenas se tenta fazer o básico para impedir que haja, este ano, uma tragédia igual à do ano passado. E mobilizam-se proprietários, autarquias e Estado central para a prevenção, parente pobre no combate aos incêndios. Mas não vale a pena ter ilusões: é impossível defender a floresta num interior despovoado, envelhecido e em que a propriedade se baseia no minifúndio.

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