Balanço Nacional 2017: a política não é a vida das pessoas? 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 31/12/2017) 

Daniel

Daniel Oliveira

 

O balanço geral deste ano de governo tem sido o de que foi excelente na economia e péssimo na política. Na economia não entra apenas o crescimento económico ou o aumento das exportações. Não entram sequer apenas as contas públicas. Entra o emprego, que cresceu. Entra o rendimento dos trabalhadores, que aumentou. Entra o rendimento dos desempregados e dos reformados, que é maior. Na economia, ao que parece, entra a vida concreta das pessoas. Para a política fica o resto.

O que correu mal? Os casos. Com exceção dos incêndios, que correspondem a um problema real e profundo do país e que teve um enorme impacto na vida de muitas pessoas – e em que a responsabilidade do atual governo é parcelar, mas relevante –, estamos a falar de episódios com um enorme impacto mediático mas muito pouca repercussão real. Se nuns casos a responsabilidade do governo é total (as viagens pagas pela Galp e a transferência do Infarmed), noutros, como o da Raríssima ou de Tancos, ela é nula ou residual. Muitos destes casos são, acima de tudo, um retrato do estado do país e do Estado com responsabilidades que vêm de longe mas que uma comunicação social decidiu concentrar nos protagonistas atuais. Nunca o conceito de responsabilidade política dos ministros tinha sido tão abrangente como nos dois últimos anos.

O balanço geral deste ano de governo tem sido o de que foi excelente na economia e péssimo na política. Em muitos anos, é a primeira vez que o emprego sobe, o rendimento sobre, as prestações sociais sobem, as exportações sobem, os impostos descem. Parece que isto não é política. Talvez seja por isso que há tanta gente a desinteressar-se dela.

A separação entre economia e política, sendo enganadora, é bastante interessante. Estando de um lado as condições materiais de vida das pessoas, incluindo o emprego e o rendimento, e do outro os fenómenos mediáticos, de que tratam os jornalistas, é a própria comunicação social que assume o divórcio entre a realidade com que lida e a vida concreta dos portugueses. Um divórcio que é relativamente fácil de medir. A péssima imprensa deste governo (talvez apenas ultrapassada pelo curto mandato de Santana Lopes) é mensalmente contrariada por sondagens consistentemente positivas para o PS e para toda a “geringonça”. Nunca a opinião publicada esteve tão insistentemente distante da opinião pública. E isso, mais do que falar do estado do país e do governo, diz imenso sobre o estado da imprensa.

Objetivamente, o governo teve nos incêndios um momento realmente difícil, com uma má gestão política que tornou mais fácil concentrar apenas em si responsabilidades. Este foi o momento negativo. Isto e o facto de ser incapaz de travar o processo de decadência dos serviços públicos iniciado há mais de uma década. Do outro lado temos o resto: em muitos anos, é a primeira vez que o emprego sobe, o rendimento sobe, as prestações sociais sobem, as exportações sobem, os impostos descem. Parece que isto não é, para muitos analistas, política. Talvez seja por isso que há tanta gente a desinteressar-se dela.

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3 pensamentos sobre “Balanço Nacional 2017: a política não é a vida das pessoas? 

  1. Os “casos” políticos são normais quando a oposição faz o seu trabalho. O problema é que em Portugal não estamos habituados a isso. Tivemos recentemente durante quatro anos um governo extremamente impopular que governou quase sem oposição. Parecia que os partidos de esquerda estavam empenhados em não criar problemas ao governo. A oposição agora está a ensinar como é que se faz.

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