Hoje é um dia reservado ao veneno 

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 24/11/2017)  

 

nicolau

Desculpem mas hoje é um dia reservado ao veneno. Os despedimentos podem ser necessários numa indústria em crise global mas constituem sempre uma tremenda violência. Nós, jornalistas, que escrevemos muitas vezes mecanicamente sobre os despedimentos nas mais diversas empresas, só sabemos verdadeiramente o que eles significam quando nos batem à porta, quando vemos as cadeiras que vão ficando vazias nas redações, vozes conhecidas que deixamos de ouvir, conversas de corredor que não voltarão a acontecer.

Desconhecemos em toda a sua dimensão o terramoto que os despedimentos provocam nos que estão sozinhos ou nos que têm filhos pequenos ou nos que têm de ajudar os pais e dependem dos seus salários para isso. Desconhecemos em toda a sua dimensão o choque brutal que são os despedimentos para quem deixou a pele, o suor, o sono para correr atrás do sonho de fazer a grande reportagem, de concluir uma investigação, de conseguir a noticia em primeira mão. Desconhecemos em toda a sua dimensão o impacto avassalador para quem é afastado violentamente de colegas, de amigos, da sua segunda casa onde passaram dez, doze ou mais horas por dia, semana atrás de semana, ano atrás de ano dos últimos dez, vinte ou trinta anos. Desconhecemos em toda a sua dimensão o nojo, a revolta, o vómito que sente quem é alvo de um despedimento. Não há palavras que exprimam as metástases que um despedimento provoca. Por isso, socorro-me de António José Forte e do poema que escreveu em 1958, com o título “Reservado ao veneno”.

Hoje é um dia reservado ao veneno 

e às pequeninas coisas 

teias de aranha filigranas de cólera 

restos de pulmão onde corre o marfim 

é um dia perfeitamente para cães 

alguém deu à manivela para nascer o sol 

circular o mau hálito esta cinza nos olhos 

alguém que não percebia nada de comércio 

lançou no mercado esta ferrugem 

hoje não é a mesma coisa 

que um búzio para ouvir o coração 

não é um dia no seu eixo 

não é para pessoas 

é um dia ao nível do verniz e dos punhais 

e esta noite 

uma cratera para boémios 

não é uma pátria 

não é esta noite que é uma pátria 

é um dia a mais ou a menos na alma 

como chumbo derretido na garganta 

um peixe nos ouvidos 

uma zona de lava 

hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo 

com sirenes ao crepúsculo 

a trezentos anos do amor a trezentos da morte 

a outro dia como este do asfalto e do sangue 

hoje não é um dia para fazer a barba 

não é um dia para homens 

não é para palavras 

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2 pensamentos sobre “Hoje é um dia reservado ao veneno 

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