Para os meninos e para as meninas

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 17/09/2017)
JPP

Pacheco Pereira

Não contem comigo para ter de fazer as prevenções do costume, destinadas a comprovar que não sou machista. Quero a plena emancipação das mulheres e tenho uma ideia do que o impede e dos obstáculos enormes que existem.

A recente polémica, muito ainda da silly season, sobre livros de exercícios escolares “para os meninos e para as meninas” revela um dos problemas de uma parte da esquerda que se dedicou ao policiamento do “politicamente correcto” e àquilo a que chama “causas fracturantes”. Essa parte da esquerda une o Bloco a uma minoria significativa do PS, que envolveu o Governo num processo absurdo de excitação política acerca de nada, ou quase nada.
E não contem comigo para ter de fazer as prevenções do costume, destinadas a comprovar que não sou machista. Quero a plena emancipação das mulheres e tenho uma ideia do que o impede e dos obstáculos enormes que existem. É aliás exactamente por isso que escrevo este artigo.

Fazia-lhes bem lerem Marx

Ao desprezarem objectivamente, pela pouca importância que lhes dão, mesmo que a retórica diga o contrário, os problemas socio-económicos da condição feminina em detrimento de problemas que são de natureza cultural e de mentalidade, muito mais difíceis de desaparecerem, não servem nem a causa das mulheres, nem a causa da sua emancipação numa sociedade que lhes é particularmente injusta. Fazia-lhes bem serem um pouco mais marxistas, e perceberem que é a malvada da “infra-estrutura” que molda a superestrutura, e que o grau de autonomia da dimensão cultural está muito para além do que Marx pensava, mas… continua a ser em matérias com esta densidade, dependentes da emancipação económica e social das mulheres.

Isto é se queremos falar para a “metade do céu” e não para um pequeno grupo urbano e mais consciente que, presumo com bastante certeza, continua a dar bonecas às filhas e não aos filhos e a escolher o cor-de-rosa em vez do masculino (não muito) azul.

Passar de operária a doméstica é muito pior do que haver estereótipos sobre os meninos e as meninas

Sempre que tive de falar, nestes anos de “ajustamento”, do desastre social que ele implicava, o melhor exemplo que encontrei foi sempre o retrocesso social da condição feminina quando as mulheres operárias eram despedidas primeiro e regressavam à condição de “donas de casa”. E, quando perante dificuldades económicas familiares, o que primeiro sacrificavam eram coisas simples como… ir mais vezes ao cabeleireiro e cuidarem mais de si. Os que gozam estas circunstâncias, são os mesmos que produziram uma crítica nefelibata aos electrodomésticos, um aspecto da crítica ao consumismo que uma parte da esquerda fazia, ignorando até que ponto eles libertavam a mulher ( e não o homem) de muitos trabalhos domésticos mais penosos.

Aliás, com estas críticas, a esquerda mais radical abriu caminho à ideologia do “viver acima das possibilidades”, que assentava não numa crítica ao esbanjamento e ao luxo, mas nas frágeis conquistas da classe média a que chamamos “baixa”, para quem poder usufruir de férias era um adquirido recente, ou poderem ter, pais e filhos, novos consumos culturais como ir a um concerto de rock.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Cá como lá

Aliás, como hoje acontece com quase tudo, é nos EUA, à luz da vitória inesperada de Trump, que alguma desta discussão se está a fazer. O modo como a esquerda americana que apoiou Clinton se mobilizou para causas de identidade de grupos, olhando para os latinos, as mulheres, os negros, a comunidade LGBT, como grupos identitários, com questões de género e de raça, ignorando a condição socio-económica que os unia para além das “identidades”, deu a Trump muito votos entre todos aqueles grupos que ele tratou como “desempregados” e ela como “deploráveis”, insultando assim uma América pobre que as elites desprezavam.

Quando Hillary lhes chamou “deploráveis”, ou seja, desprezíveis, selou o seu destino. Bernie Sanders que tinha um discurso mais acentuadamente social e que foi o único do lado democrático a dirigir-se aos mesmos eleitores que Trump mobilizava e a muitos outros que estavam radicalizados contra Trump, entre os jovens por exemplo, teve uma campanha dinâmica e pôde ganhar vários estados a Clinton, que tinha, com ela, todos os recursos e a cumplicidade, mesmo mafiosa, da direcção democrata.

Um enorme presente para a direita

As “causas fracturantes” são um enorme presente dado à direita, porque moldam num discurso policiado e escolástico uma visão dos problemas sociais apenas vistos como sendo de mentalidade ou culturais, muitas vezes assentes quase numa crítica discursiva e simbólica. As diferenças entre homens e mulheres são uma das frentes mais importantes daquilo a que podemos chamar progresso “civilizacional”.
Envolvem muitos factores complexos, de natureza religiosa, cultural e de mentalidade, muito difíceis de resolver. Uma parte importante do mundo, como é o caso do Islão, institucionaliza um papel secundário para as mulheres como propriedade dos homens, mas parece que isso mobiliza menos os nossos “fracturantes” do que os cadernos de exercícios da Porto Editora. No mundo cristão, a desigualdade entre homens e mulheres começa no próprio acesso aos sacramentos, e continua, por muitas formas, embrenhado na sociedade. Os estereótipos que se encontram um pouco por todo o lado são um factor nessa desigualdade. Porém, eu trocava mil livros e cadernos sexistas, ou como estes: vagamente sexistas, pela igualdade salarial entre homens e mulheres, muito mais grave e muito mais discriminatória e, caso deixe de existir, muito mais emancipatória.


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2 pensamentos sobre “Para os meninos e para as meninas

  1. De facto faziam bem em ler Marx. Em particular o último parágrafo de uma carta dirigida a Kugellmann (Dezembro de 1868) a propósito do progresso registado num congresso de sindicatos norte-americanos em que se tinha estabelecido a completa igualdade entre homens e mulheres: «O progresso social pode ser exactamente medido pela posição social do belo sexo (incluindo as feias)».

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  2. ” e perceberem que é a malvada da “infra-estrutura” que molda a superestrutura,”
    “e que o grau de autonomia da dimensão cultural está muito para além do que Marx pensava”
    E que as mulheres se libertam mais com o trabalho na fábrica do que nos trabalhos domésticos do lar.
    OK, Pacheco.
    A questão é como é que um homem tão sábio que sabe tanto de marxismo e acerca da libertação das mulheres e, neste momento (ver artigo acima sobre a questão catalâ) acerca da libertação de povos integrados noutros países, tenha sido um apoiante fanático e ideólogo de Cavaco e do cavaquismo que nunca vimos bater-se pela emancipação das mulheres e muito menos pela sua libertação ou tenha dado qualquer contributo legislativo ou tomado medida governamental a favor da mulher mas, pelo contrário, tinha todos os tiques do pensamento salazarista-cerejeirista acerca do que devia ser o papel da mulher portuguesa como “dona de casa” e “educadora dos filhos” para a manutenção dos bons valores morais cristão e de obediência.
    Ainda uma nota para, mais uma vez, assinalar o pedantismo pachecal de, sem estar por dentro do assunto e nada saber além do que leu nalgum papel editado, afirmar que a Clinton ttinha “todos os recursos e a cumplicidade, mesmo mafiosa, da direcção democrata.” enquanto vai guinando sua simpatia para Trump omitindo a máfia de negócios de que Trump é a cúpula conluiada com Putin o qual levantava as lebres contra o partido democrata e Clinton que Pacheco engoliu e ainda não cuspiu.

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