Península coreana: está-se a armar um belo sarilho

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 11/08/2017)

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O confronto verbal entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos subiu tanto de tom que se está muito perto de subir um degrau, ou seja, passar à agressão militar. Esperemos que haja bom senso para o evitar, embora o líder norte-coreano seja completamente imprevisível e o presidente norte-americano não tenha nenhuma experiência neste tipo de crises.

Para que não haja dúvidas, todos sabemos de que lado estaremos em caso de conflito entre os dois países. É que, para todos os efeitos, a Coreia do Norte é uma ditadura familiar; e os Estados Unidos, com quem partilhamos os mesmos valores, são um farol da democracia, mesmo que um homem de negócios tão impreparado como Donald Trump tenha sido eleito para liderar a nação.

Dito isto, Kim Jong-un tem andado a testar de forma completamente provocatória a paciência de Washington, com a realização de exercícios militares utilizando milhares de homens e o sucessivo lançamento de mísseis, ao mesmo tempo que a agência noticiosa oficial afirma que Pyongyang tem capacidade para alvejar o solo norte-americano a partir do seu território.

Trump respondeu às sucessivas provocações, prometendo responder com “fúria e fogo nunca vistos” em caso de tentativa de agressão. Na resposta, o regime norte-americano não se ficou, afirmando estar a preparar estar a preparar planos para um ataque com quatro mísseis de médio alcance, que sobrevoariam o Japão e teriam como alvo as águas em torno da ilha de Guam, no Pacífico, sob administração norte-americana.

O presidente norte-americano respondeu através do twitter, garantindo que os EUA estão prontos para o caso de Pyongyang agir de forma “imprudente”. “As soluções militares estão agora totalmente instaladas, carregadas e preparadas, caso a Coreia do Norte aja de forma imprudente. Esperemos que Kim Jong-un escolha outro caminho,” lê-se na publicação colocada cerca das 12:30, hora em Portugal Continental.

Pouco depois, Trump voltava a recorrer ao Twitter para republicar um tweet do comando militar norte-americano para a região do Pacífico, em que é sinalizada a prontidão dos bombardeiros B1-B, estacionados em Guam. Ou seja, em caso de iminência de ataque norte-coreano àquela ilha, os bombardeiros americanos estão preparados para agir.

Mas os Estados Unidos não ficaram só pela resposta às provocações e pela preparação contra um eventual ataque. Também vão fazer uma demonstração de força – e uma provocação. Com efeito, o Pentágono norte-americano confirmou que a força militar conjunta dos Estados Unidos e da Coreia do Sul irá iniciar testes militares conjuntos no dia 21 de Agosto, exercícios que durarão cerca de uma semana e meia.

Estamos pois muito próximo da agressão. Até agora, os dois contendores tem lançado provocações e encostaram a cabeça um ao outro. Veremos os passos seguintes. Mas o certo é que a preocupação aumenta em todo o mundo.

A China, o principal aliado de Pyongyang mas que no sábado passado aprovou mais uma ronda – a sétima – de sanções contra a Coreia do Norte, pede moderação: “Apelamos a todas as partes para mostrarem prudência nas suas palavras e ações e a fazerem mais para atenuar as tensões”, declarou Geng Shuang, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês.A chanceler Angela Merkel afirmou que não é agravando a retórica de conflito que se vai resolver a situação com a Coreia do Norte mas que também não acredita na via militar.

Por seu turno, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, reiterou que o país não aceitará uma Coreia do Norte com armamento nuclear e disse esperar que o “bom senso” prevaleça, embora tenha reconhecido que os riscos de um conflito são muito elevados.

Como é óbvio, um conflito militar na Península da Coreia terá um impacto devastador sobre a economia mundial. E então se se chegar à utilização de armas nucleares, é completamente imprevisível o grau de destruição que pode acontecer.

Mas para já, basta esta escalada na retórica entre Pyongyang e Washington para os mercados terem entrado em pânico. Segundo a Reuters, na sexta-feira as perdas nos mercados accionistas já superavam um bilião de dólares (850 mil milhões de euros à cotação actual), levando os investidores a refugiar-se em activos como o ouro ou o franco suíço.

E um eventual conflito, mesmo na versão não nuclear, pode contribuir para retrair o crescimento naquela zona do globo, em particular na China, que tem sido um dos motores da economia mundial. Se a economia chinesa abrandar, também a economia alemã sofrera, em particular a Alemanha, grande exportadora para o Império do Meio. E abrandando o crescimento na Alemanha, abranda o crescimento na Europa – e nós, como não poderá deixar de ser, apanharemos por tabela.

Não, nenhuma guerra é benfazeja e esta muito menos. Ao contrário do que se passa com outros países noutros pontos do globo, a Coreia do Norte não tem qualquer interesse económico que justifique a importância que os Estados Unidos lhe estão a dar. Esperemos que o bom senso prevaleça. O mundo tem muito mais a perder do que a ganhar com uma guerra na Península coreana.


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