Maria Antónia Palla: “Sócrates não tem sido bem tratado pelo partido”

(Entrevista a Maria Antónia Palla, in Expresso, 08/04/2017)

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A explicação dos factos políticos está muito para além da biografia dos personagens que os encenam mas, do meu ponto de vista, não pode ignorá-la nem passar-lhe ao lado. Esta entrevista à mãe de António Costa, deve ser lida nesse contexto. Maria Antónia Palla, uma grande jornalista, uma grande senhora.

Estátua de Sal, 09/04/2017


A mesma voz e o mesmo olhar com que há dez anos falava na campanha de despenalização do aborto. Maria Antónia Palla, feminista, jornalista, sindicalista, presidente da Caixa de Previdência dos Jornalistas, mulher da liberdade, mãe de António Costa. Casou-se três vezes, primeiro com o poeta e escritor Orlando da Costa, depois com o arquiteto, fotógrafo e pintor, Victor Palla, com cujo sobrenome acabou por ficar, e desde o 25 de Abril partilha a vida com o coronel Manuel Pedroso Marques, que esteve envolvido na tentativa de golpe militar de Beja. De nenhuma das vezes fez festa ou usou vestido branco. Foi das primeiras mulheres a sentar-se numa redação, em posição de igualdade perante os homens. Nunca teve medo de defender as suas ideias, seja a despenalização do aborto ou a sua relação com a UNITA quando, durante a guerra civil angolana, a maioria das opiniões se alinhava pelo MPLA. Continua a dedicar-se aos direitos das mulheres, está a guardar a memória de toda uma luta na biblioteca feminista Ana de Castro Osório, em Lisboa. E mantém-se sem medo de ir contracorrente. Visitou José Sócrates em Évora, aponta o dedo à “ditadura” em Angola. Está, como sempre, ao lado do filho — o António — com quem não tem medo de discordar, em privado. Falam de tudo, menos de política e da filha mais velha, que morreu em pequena. A voz de Maria Antónia Palla promete nunca se calar. Mas está mais pausada, fruto da idade.

Foi pioneira no jornalismo, lançou a campanha pela despenalização do aborto, mas agora identificam-na como a mãe do primeiro-ministro. É injusto?

Um bocadinho. Sobretudo, porque as nossas vidas foram sempre muito independentes. Como já não estou no ativo, as pessoas tendem a esquecer. Mas não me importo, tenho muito orgulho em ser mãe dele.

Teve sempre uma ânsia de liberdade?

Nasceu comigo. Nunca me dei bem com o meu pai porque queria impor-me muitas regras. Os filhos estavam sujeitos aos pais e os pais, hoje, talvez exagerem ao estarem sujeitos aos filhos.

A relação com o seu filho foi um misto destas duas tendências?

Tentei algo que é difícil, mas possível, conjugar liberdade com responsabilidade. Ele tem muito essa noção.

Como define a liberdade?

Poder exprimir-me, ter as opiniões que quisesse. Sempre tive. Hoje, os jornalistas — talvez até pela precariedade — fazem muitas vezes aquilo que pensam que o patrão gostaria que eles fizessem.

Teria sido diferente se tivesse nascido noutro ambiente?

Não vale a pena imaginar o que uma pessoa podia ter sido se a sua família ou as pessoas com quem contactasse fossem outras. O essencial dos valores que norteiam a minha vida foram colhidos em casa dos meus avós paternos, que eram republicanos, laicos e não posso dizer bem socialistas, porque também eram meio anarquistas.

É aí que descobre o feminismo?

Vem da minha avó. Era uma mulher muito independente. Como casal, os meus avós eram muito unidos, mas a minha avó ensinou-me uma coisa básica, se queres ser livre tens de ter o teu próprio dinheiro. Isto marcou a minha vida. A palavra feminismo não existia em Portugal.

E a Igreja Católica, incomoda-a?

Tenho muitas amigas católicas e não me faz diferença alguma. Gosto de estar e trabalhar com pessoas diferentes. Há pouco tempo, a minha neta batizou-se e tive pena porque quebrou uma tradição laica que vem dos meus avós.

E foram eles as pessoas que mais a marcaram?

Gostei extraordinariamente dos meus avós. Acho que devemos continuar o que eles começaram. Nesse sentido, sou uma pessoa de família. Corrigi algumas coisas, no ano em que me casei fiz uma árvore de Natal, algo que não existia na minha família. Uma vez na escola, o meu filho António respondeu a um inquérito sobre o que era a árvore de Natal e disse isto: “A minha mãe gosta muito de flores e a árvore de Natal é a flor que ela faz.” Havia uma tradição no que diz respeito aos doces, essa tradição mantenho-a. As festas para nós metem sempre muita comida, como se fazia em casa da minha avó. Há algumas coisas em que não tenho dificuldade em dizer que sou conservadora.

Como casar-se e ficar com os nomes dos maridos?

Sim. Era uma coisa normal nessa época. Sou adepta do casamento.

Apesar da educação liberal, casou-se cedo, antes de ser independente.

Tinha 20 anos, estava no segundo ano da faculdade, a tirar Histórico-Filosóficas. Nunca tinha falado de namorados, cheguei a casa e disse que me ia casar. O meu pai era contra, porque ainda não tinha acabado o curso. Para ele era muito importante que eu e o meu irmão acabássemos os cursos.

Foi Orlando da Costa que a pediu em casamento?

Não! Decidimos os dois, mas devo ter sido eu a ter a ideia primeiro. Mas queríamos os dois. Ele tinha estado preso seis meses e, como não éramos casados, só o pude ver no dia de Natal. Pensámos que ele poderia ser preso outra vez, seria uma situação muito penosa.

Mas o seu pai não conhecia o Orlando?

Marcou-lhe uma entrevista no escritório dele.

Existiam poucos casamentos mistos. Sentiu racismo?

Não. Ele era encantador e estava muito bem entrosado no meio intelectual.

Mas na escola chegaram a chamar preto ao seu filho?

Acho que ele não ficou nada ralado. Eu é que me ralei. Disse-me: “Oh mamã, mas eu sou mesmo escuro.” Sempre teve aquele feitio descontraído. Uma coisa pode chateá-lo muito, mas não por muito tempo, porque ele dá a volta. É como eu. O pai racionalizava as coisas, era menos espontâneo.

Foi assim nas legislativas?

Tive a sensação, naquela noite, que as coisas não iam ficar por ali. Não sabia, nós não falamos de política. Eu gosto de certas coisas que ele faz, e há outras de que não gosto. Foi uma das razões pelas quais eu deixei de escrever, não quero fazer nada que o aborreça, porque isso já ele tem muito. Foi um constrangimento que me impus, não me custa, tenho muitas coisas para fazer. Continuo muito interessada em tudo o que diga respeito às mulheres.

Tem prazer em ir contra as regras?

Sim. Não é uma coisa pensada, mas dá-me gozo. Quando estou segura de uma coisa, vou até ao fim e não vale a pena zangarem-se comigo. Enfrentei muitas coisas, mas não me desvio daquilo que é claro no meu pensamento. Pode não o ser para mais ninguém, mas se for claro para mim é para ali que vou. Isso aconteceu-me com a luta pela despenalização do aborto. E com Angola.

São dois assuntos que marcam a sua vida e a sua carreira. A reportagem que fez para a RTP, em 1976, chamada “Aborto não é crime” lançou o movimento pela despenalização. Foi o seu trabalho mais importante?

Não. Teve efeitos importantes. Não desejo a ninguém o que passei. Fui acusada e julgada do crime de ofensa ao pudor e incitamento ao crime e exercício ilegal da medicina, depois de a Maternidade Alfredo da Costa ter apresentado queixa contra mim, alegando exercício ilegal da medicina. Pediam uma pena entre três a oito anos de prisão. Pensei, bom vou fazer uma grande reportagem sobre a vida na prisão, mas custava-me muito ficar longe do meu filho. Isso angustiava-me muito.

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Independente. A jornalista teve uma relação complicada com o pai que lhe impunha muitas regras

Como é que o aborto se torna uma causa?

Era tabu, mas estava na ordem do dia na Europa e nos EUA. Alguns temas ficaram do Maio de 68. Tudo foi posto em causa. E nós lamentávamos não estarmos nisso. A Antónia de Sousa [colega com quem fez a reportagem] e eu estávamos muito interessadas nos direitos das mulheres. Depois do 25 de Abril, alguns grupos de mulheres — que eu não conhecia, creio que estavam no PSR e na UDP — propuseram-se a manifestar ao lado dos trabalhadores. A partir daí surgiram vários grupos, informais, uns de partidos e outros de veteranas dos direitos das mulheres, e fizemos uma comissão para lançar o assunto. Os partidos não queriam, diziam que não era um tema consensual, não era uma prioridade.

E como surge a ideia da reportagem na clínica de abortos?

Tínhamos um programa, de 50 minutos, em que abordávamos temas de mulheres e resolvemos fazer um programa, logo em 1975. Mas uma coisa é discutir, outra é ver. Entretanto, formou-se, na Cova da Piedade, uma clínica destinada ao aborto e à contraceção, que punha em prática um método não-evasivo, era com uma bomba de bicicleta.

E vocês filmaram tudo, inclusive os ‘restos’ num fraquinho.

Em modo cinema verité, plantámos a câmara e filmámos tudo. Há uma mulher que decide abortar e filmámos o aborto. Filmámos os restos dentro de um frasquinho, foi importante para mostrar às pessoas que com poucas semanas o feto não tinha nada a ver com o bebé de seis meses, a imagem que os que são contra o aborto mostram. Destruiu-se o mito. Choveram os protestos. Foi uma coisa que escandalizou os conservadores, sobretudo a Igreja e o CDS. O presidente da RTP, o meu atual marido, suspendeu o programa.

Ficou chateada com ele?

Não. Eram tantos os protestos.

Teve medo de ser condenada?

As pessoas que nos atacavam eram muito poderosas. Percebi isso durante os três anos de investigação, em que não investigaram nada. Quando a política andava mais para a direita, chamavam-me lá. Se a política andava mais para a esquerda, parava. Sabia que me levavam a julgamento.

Só em 1984 sai a primeira lei, que permitia o aborto em algumas situações. E só em 2007, depois de dois referendos, se tornou possível o aborto por opção da mulher. Pensou que levasse tanto tempo?

Não.

Muitas feministas culpam António Guterres pelo fracasso do primeiro referendo.

Totalmente. Deixei de falar com António Guterres. Não sou capaz de falar àquele senhor. Toda a gente sabia que era católico, só que a religião deve ser um assunto privado. Na véspera da votação da lei no Parlamento, ele vai fazer um referendo… Isto não é admissível. Demitia-se primeiro. Deem-se as voltas que se der, o socialismo é liberdade, igualdade e fraternidade. Toda a gente sabia que as mulheres faziam abortos clandestinos, de todas as classes.

Disse várias vezes que todas as mulheres abortavam. Também abortou?

Fiz. Naqueles raros períodos de pseudoliberdade para as eleições, as pessoas entravam em euforia e quase todas as mulheres ficaram grávidas.

Teve medo?

Imenso. Oh lá se tive! Ainda me lembro de não haver pílula. Muita gente engravidava sem ter vontade. Eu e uma amiga minha chegámos a acompanhar as mulheres que vinham da margem sul abortar às parteiras de Lisboa. Havia um médico que dava cobertura, se houvesse um problema ele prontificava-se a intervir e a pessoa não ia parar ao hospital. Era uma coisa horrorosa. Havia dois preços: com e sem anestesia. Fiz o mais barato. É horrível, é pior do que ter uma criança.

Porque é que abortou?

Já tinha sido mãe. Sou contra as famílias numerosas. Não queria ter mais do que um filho. Era uma coisa que estava na minha cabeça. Tive o António porque nos aconteceu aquela desgraça [a filha mais velha morreu com três anos], senão não teria tido.

Fala com o seu filho da irmã?

Não. Nem ele pergunta. Sabe, mas nunca falamos.

É uma dor que não desaparece.

Penso nela todos os dias. Quando se gosta tanto de uma pessoa, ninguém, nem nada a substitui. Podia ser muito pesado para uma criança, saber que já houve outra que ocupou o seu lugar.

E foi essa tragédia que levou ao seu primeiro divórcio?

Gostei do meu primeiro marido até ele morrer. O último Natal em que viveu, passou cá em casa, com a mulher e o filho [o jornalista Ricardo Costa]. Fiquei doente com a separação. Tenho pelo Ricardo um sentimento muito maternal (emociona-se). A separação foi terrível. Nunca deixo de gostar das pessoas de quem gostei. Não suporto a ideia da separação. A maior parte dos pais a quem morre um filho não consegue permanecer juntos. São duas dores somadas. O Orlando, nesse ano, conseguiu terminar um livro que é muito bonito. Eu achei que tinha de ficar agarrada ao meu filho, até aos três anos eu cuidei dele. Fiquei mais apegada pelo que aconteceu. Não foi sacrifício nenhum, era uma necessidade minha. Também o quis compensar da separação do pai.

Quando o seu filho era bebé, apaixonou-se pelo padrinho dele, Victor Palla.

Foi muito repentino, éramos amigos há 11 anos e, um dia, descobrimos que estávamos apaixonados.

Gostou de duas pessoas ao mesmo tempo?

Sim. Gosta-se é de maneira diferente. Talvez o Victor me namorasse mais. O Orlando era diferente, tínhamos sido colegas na faculdade, cúmplices de muitas coisas. Tínhamos tido filhos. Ele era muito racional, eu menos que ele, e o Victor ainda menos racional. As pessoas nem imaginam quanto custou. Mas tinha vontade de mudar de vida.

Como conheceu o Orlando?

Nos claustros da Faculdade de Letras. As associações de estudantes estavam proibidas, só tínhamos o claustro para nos encontrar. O que nos aproximou foi a discussão sobre um filme, o “Milagre em Milão”, de Vittorio De Sica.

E lembra-se da primeira paixão?

A primeira, primeira? Acho que foi por um colega do Liceu Francês. Não sabia bem o que era uma paixão. Quando ficava doente escondia dos meus pais para não faltar ao colégio, porque seria um dia em que não o via. Ficámos sempre amigos até ele morrer.

Em que medida o Liceu Francês muda a sua vida?

Abriu-me horizontes. Só quando cheguei à Faculdade de Letras percebi o país onde vivia. Os liceus portugueses eram todos dominados pela mocidade portuguesa e pelo regime. Não tinha nada que ver comigo. Eu vinha de um sítio onde a grande orientação era a liberdade. Interrompíamos uma aula para discutir um assunto.

A sua primeira separação foi dolorosa, mas foi isso que a levou ao jornalismo.

Tinha de arranjar trabalho. Precisava de me manter a mim e ao meu filho. Mas o jornalismo começou com uma memória. Quando tinha oito anos, o meu avô, que era amigo do diretor do jornal “A República”, levou-me à redação para me mostrar como era. Ainda hoje sinto o cheiro da tipografia. Na altura, pensei como devia ser bom ser jornalista. Mas era impossível, não havia mulheres nos jornais. Quando me separei, fui trabalhar para o sindicato dos arquitetos como secretária de direção. E comecei a colaborar na página literária do “Diário Popular” [detido por Francisco Pinto Balsemão].

Como entra para a redação?

Deveu-se ao Balsemão, a um concurso que ele fez. Foi uma ideia muito boa. Ele teve a ideia de refrescar a redação e de contratar jornalistas mais novos e convidou três mulheres para o concurso. Antes disso, quis provar que conseguia fazer uma reportagem, coisa que os homens diziam que as mulheres tinham de provar saber fazer para entrar para uma redação. Mas as reportagens só eram dadas a quem já estava na redação. Então, fui à minha custa e nas minhas férias para o Brasil fazer uma coisa que intervala conversas com vários intelectuais brasileiros, desconhecidos em Portugal, com coisas que ia observando na sociedade brasileira. Foi chamada de primeira página durante sete dias. Chamava-se “Brasil, olha que coisa mais linda”. Ajudou a que fosse chamada ao concurso.

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Amizade. Maria Antónia Palla sente muitas saudades de Maria José Nogueira Pinto, alguém que acreditava numa ideologia oposta à sua, mas com quem manteve uma relação muito próxima e especial.

Porque é que os homens não queriam mulheres nas redações?

Diziam que não eram livres de dizer palavrões. Depois foi natural, perceberam que podíamos trabalhar com eles. Até aí, as mulheres eram colaboradoras, não estavam na redação.

Sofreu com a censura?

Aprendi como se podia escrever para a censura. Também nunca quis fazer jornalismo político, não me dá prazer nenhum entrevistar políticos. Nunca nenhum patrão me obrigou a fazer alguma coisa que fosse contra a minha consciência e as minhas ideias. Nunca tive de resistir a nada. Escrevi sempre sobre o que queria, temas sociais e culturais.

Curiosamente, teve mais problemas no pós-25 de Abril.

As minhas complicações com as empresas foram nessa altura. Antes, os diretores eram também donos dos jornais, e o que queriam era vender. Como as coisas que escrevia faziam vender o jornal sempre me deixaram à vontade. Depois, houve um período em que os principais jornais e revistas foram nacionalizados. Nessa altura quem começou a gerir as empresas eram pessoas que não tinham preparação nenhuma. Tivemos problemas muito graves na empresa de “O Século”. Não concordávamos com a orientação do jornal, com a tentativa de controlo.

Onde é que gostou mais de trabalhar?

No “Século Ilustrado” [revista do grupo “O Século”], porque eram grandes reportagens com muito bons fotógrafos. Gosto muito de fotografia, de fazer equipa com os fotógrafos. Não gosto de jornais diários, não me dou bem com aquela disciplina.

Fala do jornalismo com um brilho nos olhos. Tem saudades de escrever?

Sim. É muito estranho porque acho que a liberdade foi mal aproveitada. Nós sonhámos sempre com a liberdade. Naqueles períodos pseudoeleitorais, eu trabalhei sempre, em comissões pré-eleitorais, desde o tempo do Humberto Delgado. No jornalismo, escolhia sempre temas sobre mulheres, velhos e crianças. São as vítimas privilegiadas da nossa sociedade. Há 40 anos, era impensável que, depois do 25 de Abril, se estivesse neste clima de violência.

Tem alguma ideia sobre uma reportagem?

Sobre as crianças maltratadas. O papel do jornalista é dar voz a quem não a tem.

Porque é diz que o criou o seu filho sozinha?

Vivemos sempre bem com o pai dele. Mas uma coisa é vir de visita, outra é o dia a dia. A escola, levantar de manhã cedo, ir ao médico, dar a comida.

Como é que ele reagia aos seus namorados?

Despachava-os rapidamente. E de uma maneira engraçada, apanhava os pontos ridículos, por exemplo, dizia assim: “A mamã já viu que ele põe meias cinzentas com calças castanhas.” (risos) Estava habituado a estar comigo e achava que a nossa casa era a nossa casa, e a nossa vida era a nossa vida. Vivemos nove anos sozinhos. O meu marido é muito bom padrasto, porque nunca se meteu em nada e adora-o.

Como é que os apresentou?

Ele começou a ver que aquela pessoa era mais habitué, e eu disse-lhe que estávamos a pensar viver juntos. Ele disse para o deixar ir passar um fim de semana e depois logo se via. Levei-o, correu tudo bem. Na semana seguinte, mandaram-me para Angola e Moçambique. Ficaram os dois e deram-se muito bem. O meu marido está sempre a falar nas massas que o António fazia, na altura, que eram muito boas.

E ele nunca quis ter filhos consigo?

Não. Era a Revolução, foi um momento mágico.

E acha que criou um filho feminista?

Não sei. Creio que criei um filho sensível aos problemas das mulheres e para quem ser feminista não é pecado. Quando era pequeno, comprei-lhe umas bonecas, uma preta e uma branca, e umas caminhas, e tentava que ele antes de ir para a cama tratasse das suas meninas. Mas ele não ligou nenhuma.

É por causa do seu filho que se separa do segundo marido, Victor Palla?

Achei que as coisas estavam a encaminhar-se para um ambiente em que não queria criar o meu filho. Ele queria deixar de ser arquiteto para ser pintor e eu não via — é o meu lado de pés assentes na terra — como é que nos iríamos sustentar. E nunca quis ser musa de ninguém.

Viajou muito com o seu filho.

Tinha uma grande preocupação em que ele viajasse. Queria que ele conhecesse o mundo e não queria admitir que ele fosse para a guerra colonial. Quando mataram o Allende, estávamos em Milão e apercebemo-nos de que estavam a montar um palanque contra o que se tinha passado no Chile. Fomos. Impressionou-o que a polícia protegesse os manifestantes. “Oh mamã, aqui protegem os manifestantes e em Portugal andam a correr atrás de nós.” Às minhas escondidas, já tinha ido a manifestações.

Quando percebeu que tinha um líder em casa?

Ele teve parte numa luta, lindíssima, no Conservatório que meteu ocupação. Havia um professor muito ‘prà frentex’, o Calvet de Magalhães, que fez uma escola do ensino público dentro do conservatório, destinada aos alunos de dança e música mas também aberta às crianças do bairro. O que significava que era uma escola que servia aos meninos ricos de Santa Catarina, aos filhos das prostitutas e aos filhos da burguesia. A escola era dirigida por uma pintora, Isabel Laginha, que era extraordinária. Abriu horizontes fantásticos àquelas crianças, levava-os à ópera, a exposições. Houve o 25 de Abril, e uma corrente dominante no Ministério da Educação, que era do PCP, decidiu que aquela era uma escola de elite. Sem saberem nada da escola, quiseram sanear a Isabel Laginha. Os miúdos uniram-se e lutaram por ela. Ocuparam o conservatório, ela foi embora mas eles também não aceitaram o conselho diretivo que o Ministério queria.

Esteve no Sindicato e na antiga Caixa dos Jornalistas, cujo subsistema de saúde acabou durante um Governo de José Sócrates, com Correia de Campos como ministro da pasta. Já fez as pazes com eles?

Com o Correia de Campos fiz, numa situação muito ridícula. O Hélder Costa [ator e dramaturgo] faz uns diálogos improváveis, em que pessoas de épocas diferentes contracenam umas com as outras. E um dia convidou-me a mim e ao meu marido. Eu era a viúva do Carlos da Maia, o meu marido era o Bismarck e ele o Erasmo. Estávamos todos mascarados, achei ridículo continuar zangada.

E com José Sócrates?

Quando se começou a prolongar o prazo do processo, eu e uma amiga, Ana Sara Brito, ex-vereadora da CML, fomos visitá-lo a Évora. Encontrei um lutador, tinha vindo do exercício e falámos imenso.

Ele o seu filho eram rivais.

É uma das coisas em que discordamos. Sinceramente, não sei o que é que o António devia fazer. Acho que Sócrates não tem sido bem tratado pelo partido. Esta coisa de que as pessoas são o máximo — nunca acho isso, talvez o Soares fosse o máximo — e depois não são… Fiquei muito contente quando o meu filho convidou Sócrates para a inauguração do túnel do Marão. Acho que as pessoas, independentemente do que fizerem na vida, se alguma vez mereceram a nossa amizade, merecem-na também numa situação difícil. Não sei, nem quero discutir ou saber se é inocente ou culpado, mas acho que tem sido tratado de uma maneira ignóbil. E isto é muito grave para o país, porque qualquer pessoa passa a ver a sua vida dependente de um juiz que gosta ou não gosta do nariz da pessoa. É que nem a PIDE fazia estas coisas. Revolto-me imenso com isto, é das tais coisas sobre as quais não escrevo para não prejudicar o meu filho.

Angola também é um tema em que tem uma posição polémica. Esteve sempre com a UNITA.

Fiz a minha primeira viagem a Angola em 1979, de Sá da Bandeira (Lubango) até ao sudoeste africano (Namíbia), com uns engenheiros que estavam a abrir uma estrada. Ouvi falar na UNITA e em Jonas Savimbi. Era uma pessoa que dirigia a luta junto das suas tropas. Enquanto que os líderes do MPLA, alguns colegas meus de Faculdade, estavam nos cafés em Paris. Havia nisto uma diferença muito grande e isso tocou-me bastante. Conheci-o 18, 20 anos depois.

Como vê a situação de Angola?

É miserável. Basta ler o Rafael Marques. Portugal devia cortar relações com Angola, não se admite que um país que teve 50 anos de ditadura, tenha relações com outro que é uma ditadura.

É por causa de Angola que conhece uma grande amiga, Maria José Nogueira Pinto. Uma mulher de direita, católica e contra o aborto.

(Emociona-se) Ainda hoje, quando o Jaime [Nogueira Pinto] me convida para casa deles me custa. Era uma pessoa muito especial. De uma abertura fantástica, muito alegre. Conhecia-a quando fui a primeira vez à Jamba [quartel-general da UNITA durante a guerra civil angolana]. Portugal devia esquecer, completamente, Angola. Os negócios que se fizeram com Angola deram buraco. Os angolanos odeiam os portugueses. Odeiam. A relação do colonizador com o colonizado é difícil.

Diz isso ao seu filho?

Não tenho oportunidade. Já disse que de política não falamos.

Mas é uma mãe babada.

Sou uma mãe que criou um filho até aos 26 anos. Só então é que ele saiu de casa, para casar. Quando saí da conservatória, depois do casamento, quis descer sozinha o Chiado a chorar. Não é que não estivesse contente. É que entrar em casa e pensar que ele já não morava ali…

Mas está orgulhosa?

Uma coisa é a pessoa política, que admiro e com quem concordo a maior parte das vezes, mas não é por ser meu filho. E outra coisa é o meu filho, faça o que fizer é meu filho e eu gosto dele. Isso para mim é o mais importante. Tenho poucas oportunidades de estar sozinha com ele, de conviver, não vou desperdiçá-las. E ele não deixa. Vejo-o sobretudo na televisão. É um senhor que aparece na televisão.

Está a gostar da “geringonça”?

É difícil. Ele tem muito jeito para negociar, sempre foi assim desde criança. Mal ele anunciou este governo, achei que era uma boa ideia e uma experiência a fazer, não se pode estar dependente só de dois partidos.

Tratam-se por você?

Eu trato-o por tu. Ele trata-me por você, agora é a mãe, já não é mamã. Os meus netos tratam-me por tu.

Algum dia o imaginou primeiro-ministro?

Nunca.

Valem mais as amizades do que o amor?

Amores há muitos. Amizade há só uma. É horroroso ver partir os amigos. Da minha turma do Liceu Francês só restamos três. É a vida, e viver tem muita força, mesmo quando a vida já não é o que foi.

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