A direita absorveu o discurso extremista, o centro-esquerda pasokizou-se e a Europa suspira de alívio

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/03/2017)

Autor

                                    Daniel Oliveira

A Europa suspirou de alívio. O PVV, partido de extrema-direita de Geert Wilders (desculpem se não uso a palavra “populismo”, que hoje serve para meter tudo e o seu contrário no mesmo saco), passou a ser a segunda força nacional e ganhou cinco deputados (passou de 15 para 20), mas não ficou em primeiro. De uma ou de outra forma, todos pensam que não participaria no governo. Mas uma vitória de Wilders teria um efeito simbólico muito relevante, sobretudo quando sabemos que a extrema-direita espreita em França e na Alemanha. Ainda assim, exigir de Wilders uma assunção de derrota é talvez um pouco excessivo. Muito menos quando vem de forças que, ao contrário dele, perderam força política.

Se ouvirmos com atenção o discurso de campanha, a derrota da extrema-direita é parcial. Acontece na Holanda o que está a acontecer em muitos países europeus: os partidos do centro-direita incorporam parte do discurso dos extremistas. Mark Rutte (VVD), que perdeu 8 lugares mas manteve a liderança, importou grande parte do discurso de Wilders, sendo, em alguns temas fundamentais que marcam a fronteira entre a direita civilizada e a extrema-direita, difícil distingui-los. Mas se for europeísta – a saída na UE não é, de facto, uma questão para os holandeses – tudo parece deixar de ser um problema para os observadores europeus.

O alívio com o resultado de Wilders parece ter obscurecido um dos dados mais impressionantes: o resultado do Partido do Trabalho (PvDA), de Jeroen Dijsselbloem. Ele é especialmente relevante porque confirma um padrão europeu: a pasokização de vários partidos socialistas e trabalhistas europeus. Tão mais violenta quanto maior tenha sido a sua cedência a uma agenda que lhe devia ser estranha.

O PvdA passa de 38 para 9 deputados, de segunda para sétima força, ficando abaixo dos partidos à sua esquerda. É por isso estranho que Augusto Santos Silva se venha congratular com os resultados na Holanda, falando do ano da derrota do populismo, quando, apesar do alívio por Wilders não ter chegado ao topo, temos a direita tradicional a absorver parte do seu discurso e o centro-esquerda a eclipsar-se da vida política holandesa.

Apesar da boa notícia do crescimento menos acentuado do que o esperado do PVV, estes resultados confirmam o que tenho vindo a dizer: que a xenofobia e a islamofobia são capas para um descontentamento mais profundo, que resulta muito mais das políticas sociais do que da imigração. Segundo os estudos de opinião, as maiores preocupações dos eleitores dos principais partidos holandeses (incluindo os de direita) são a manutenção do sistema de saúde e a segurança social. A terceira é a luta contra o terrorismo e a quarta é dinheiro para a educação. A integração dos imigrantes e os refugiados é apenas a nona.

Apesar do alívio por Wilders não ter chegado ao topo, temos a direita tradicional a absorver parte do seu discurso e o centro-esquerda a eclipsar-se da vida política holandesa

Para animar (pelo menos anima-me a mim), só mesmo a subida da esquerda verde, que passa de 4 para 14 deputados, e a resistência do Partido Socialista (uma espécie de Bloco de Esquerda), que, apesar de cair um pouco, passa dos 15 para os 14 deputados. O padrão repete-se: os partidos do centro caem, o centro-esquerda cai muito mais do que o centro-direita, e, para além da extrema-direita, crescem partidos da esquerda progressista e ecologista. É uma boa notícia mas não chega para fazer uma festa. E é bem diferente da imagem de normalidade e continuidade que se está a tentar passar.

Nota: Como reação ao meu artigo de segunda feira, “O dia em que fui enganado por Jaime Nogueira Pinto”, o principal visado contactou-me para me informar que, ao contrário da versão do diretor da FCSH, nunca concordou com o adiamento ou cancelamento da sessão. Como é impossível confirmar qualquer uma das versões, por resultarem de uma conversa a dois, cabe-me apenas transmitir esta e deixar a cada leitor o direito a tirar as suas conclusões.

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