COMO ÓSCAR E CABÍRIA

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 04/03/2017)

Autor

                                      Clara Ferreira Alves

Ninguém é culpado e nem uma cela ficou habitada muito tempo por um criminoso do sector público ou privado com amigos e poderes no sector público.


Existe no eleitor, seguro do valor do voto, uma fé na humanidade que a democracia encoraja. Ao cabo de mil peripécias e escândalos, de mil crimes impuníveis e cometidos por inimputáveis políticos, ao cabo de incontáveis mistérios por resolver, queremos acreditar que as coisas são feitas por amor de nós e do bem comum e de que o ladrão da causa pública é um bom ladrão. O bem comum guia a mão transviada. Falemos apenas de dois exemplos, a Operação Marquês e o mais minúsculo caso dos dez mil milhões de 20 entidades esquecidos na gaveta. Podíamos acrescentar os mistérios dos devedores do malparado resgatado, de que ninguém quer saber apesar de existirem pessoas encarceradas por muito menos dinheiro. I soliti ignoti.

Nunca chegaremos a saber o que realmente se passou. A realidade, para não dizer a verdade, será sempre camuflada pelas camadas de ilusionismo político, e desculpada pela obstinação dos eleitores em não querer concluir que as coisas foram feitas, e mal feitas, nas suas costas e contra eles, pagadores da conta. Deste modo, o mundo está cheio de inocentes, ninguém é culpado de coisa nenhuma e nem uma cela ficou habitada muito tempo por um criminoso do sector público ou do sector privado com amigos e poderes no sector público. Seria interessante contabilizar, desde a crise financeira começada em 2007 nos Estados Unidos e em 2009 na Europa, e que tantos desgostos e impostos nos tem dado, quantas negociatas foram feitas sem o nosso conhecimento e das quais fomos, na qualidade de contribuintes, devedores solidários. Quantos milionários e negociantes, amparados nos seus públicos amigos, escaparam e escaparão à malha da lei.

Sendo a política a grande arte de utilizar outras pessoas para fins próprios, o eleitor acredita e continua a acreditar em tudo o que lhe contam. Continua a não querer ver a manipulação da vontade, da atenção e da crença num mundo melhor em troca do espetáculo seguido do depósito regular na urna. Pelo contrário, a crença fortifica-se. Os eleitores do ‘Brexit’ continuam a acreditar que a vida vai melhorar. Os de Trump também.

Existe um filme de Federico Fellini, que ganhou um Óscar para melhor filme estrangeiro no tempo em que se ligava mais ao cinema do que aos vestidos na passadeira vermelha, chamado “As Noites de Cabíria” (1957). É um dos filmes da minha vida e, a par de “Bellissima”, de Luchino Visconti, um dos filmes mais tristes do mundo. Cabíria, que tem o corpo magistral da atriz Giulietta Masina, a mulher de Fellini, é uma prostituta que alberga sonhos acima da sua hierarquia social e romântica. Cabíria sonha com o amor e a felicidade, apesar da insignificância física, da ausência de poder, qualquer poder, da pobreza e da incapacidade, decretada pela destituição, para controlar a sua vida. Cabíria é uma pedra rolante a que a tragédia dá pontapés. O primeiro namorado rouba-lhe a carteira com todo o dinheiro e empurra-a para o rio, para a afogar. Sem saber nadar, ela quase morre e é salva por um grupo de desconhecidos dotados do altruísmo natural na espécie humana. Cabíria trata-os com desdém e continua à procura e à espera do namorado que a quis matar e que levou sumiço. Outras personagens fellinianas se vão cruzando com Cabíria, personagens que cristalizam a confiança doirada da mulher. Ela quer ser feliz. Ignorada, por vezes ridicularizada, Cabíria continua uma prostituta imune ao cinismo. Outro homem aproxima-se dela, no final de um espetáculo de ilusionismo, e convence-a de um interesse amoroso e de uma cumplicidade. Chama-se Óscar. Cabíria apaixona-se, vive o grande amor, casa-se. Quer uma família. E mostra-lhe o dinheiro das economias, da venda da casa. Ele recusa cheio de nobreza. Passeiam os dois num bosque, junto a um lago noturno e enluarado. À beira do abismo, Cabíria, finalmente, percebe. Ele vai empurrá-la e matá-la para ficar com o dinheiro na carteira, como o primeiro homem. Quando a crença se desvanece, ela cai no chão numa convulsão de desgosto e entrega ao assassino a mala de mão, atirando-lha aos pés. Ele diz que não lhe quer fazer mal e ela pede que ele a mate. Tudo é melhor do que a desilusão. Óscar foge. Cabíria entende pela primeira vez a sua situação, a sua vulnerabilidade, a sua insignificância. Ela não conta para nada, nunca contou para nada. Foi usada, como prostituta, como mulher, como ser humano. A candura foi usada. Foi o dinheiro, foi sempre o dinheiro, diz ela ao Óscar. Fellini sendo Fellini, o filme acaba com um sorriso. Ao caminhar por uma estrada para chegar a algum lado, um grupo de pessoas felizes e em festa rodeiam-na e fazem-na sorrir por entre as lágrimas. Il Maestro tinha o toque de magia. Tudo o que era impossível se tornava possível na sua fantasia habitada por uma humanidade deploravelmente e felizmente demasiado humana. Por vezes, somos um bocado como Cabíria. Não há rapazes maus. E perdoamos tudo. Ouçamos ao longe a música de Nino Rota.

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