Carta aberta ao Diretor de Informação da SIC-Notícias

(Por Carlos Paz, in Facebook, 02/03/2017)

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Meu caro Ricardo,

No programa “Negócios da Semana” de ontem, 1 de Março de 2017, o jornalista José Gomes Ferreira, que é teu Diretor Adjunto, teve como convidados, entre outros, os ilustres Professor João Duque, académico, e Dr. Tiago Caiado Guerreiro, advogado fiscalista.
As grandes notícias do dia foram:
– A audição na AR dos secretários de estado, atual e antecessor, sobre uma colossal fuga de capitais do País, ao longo de anos, que não foi escrutinada pelas finanças;
– A emissão, pela SIC, canal do mesmo grupo, da primeira parte de um programa sobre o Banco de Portugal e a sua imensa responsabilidade em tudo o que a economia portuguesa e os portugueses, em geral, sofrem, têm sofrido e irão continuar a sofrer por muitos anos.
Apesar da relevância de qualquer destes temas, e até da sua potencial inter-relação, o programa “Negócios da Semana” escolheu como seu tema do dia a Caixa Geral de Depósitos, os SMS’s do Ministro das finanças, as opções (que são só do conhecimento de José Gomes Ferreira) da Administração Domingues que, de facto, praticamente nem esteve em funções e, prato forte, o programa de recapitalização da CGD.
Não há aqui nenhum problema deontológico. O canal SIC-Notícias, e o seu Diretor Adjunto José Gomes Ferreira, tem o direito de fazer as suas escolhas editoriais.
Seguramente que esta opção sistemática por fugir aos temas mais relevantes quando eles vão contra a orientação ideológica dos responsáveis nada tem a ver com a destruição do património de imagem que o canal tem vindo a sofrer, perdendo para a CMTV o lugar de canal informativo de referência no “cabo” em Portugal.
Mas, se as opções ideológicas na escolha dos temas é algo que só a vocês, internamente, diz respeito, o mesmo não se passa com o conteúdo dos programas em si.
E, neste caso, o programa de ontem constituiu um dos mais graves ataques que alguma vez foi feito em televisão em Portugal, ao regime democrático, à estabilidade do sector financeiro e à sustentabilidade da economia portuguesa.
Poderás, Ricardo, argumentar que as opiniões do João ou do Tiago são isso mesmo: opiniões. Que têm o valor que lhe quiser dar quem os estiver a ouvir. É verdade!
Mais, Ricardo, podes argumentar que o canal não é responsável, nem deve interferir, nas opiniões dos seus convidados. É verdade! Eu próprio já fui, mais que uma vez, convidado como comentador no teu canal e NUNCA fui condicionado nas minhas opiniões. E isso está correto.
Mas, se isto é verdade Ricardo, o mesmo já não se aplica a José Gomes Ferreira. Ele, além de responsável e pivot do programa em questão, é TAMBÉM, e acima de tudo, teu Diretor Adjunto.
Ao contrário do que acontece com a opinião dos convidados, João Duque e Tiago Caiado Guerreiro, a opinião de José Gomes Ferreira, quando veiculada pelos meios da SIC-Notícias, amarra e responsabiliza o canal (SIC-Notícias), a marca (SIC) e a empresa (IMPRESA).
O argumento de que José Gomes Ferreira atua, nestes casos, como Jornalista e não como teu Diretor Adjunto não pode ser usado à exaustão. Até porque, para quem está a ver e ouvir não é possível fazer a distinção, porque o próprio também não a faz.


Assim, o ataque cerrado que foi ontem feito à CGD e ao seu processo de capitalização, é uma opção editorial do canal de que és Diretor e, como tal, responsabiliza-te também a ti. Aliás o teu passado profissional e a forma exemplar como desempenhaste as tuas funções, até à atual, não permite, a ninguém, pensar o contrário: vais, também neste caso, assumir as tuas responsabilidades.

A Caixa Geral de Depósitos não é um nome (CGD) ou um Banco do Regime (seja qual for o regime vigente). A CGD é o Banco de confiança de uma miríade de Portugueses, de reformados, de funcionários públicos, de emigrantes, de pequenos empresários e empresas.
A CGD é o posto de trabalho de vários milhares de trabalhadores. Vários milhares de famílias, de progenitores a cargo, de crianças, dependem, direta e indiretamente, da CGD para a sua sobrevivência, para a sua dignidade enquanto seres Humanos.
Mais do que tudo isso a CGD é a instituição para a qual TODOS nós Portugueses vamos ter de contribuir com os nossos impostos e os nossos esforços e sacrifícios de vida para a salvar da terrível situação financeira em que foi deixada pela soberba de gestores, pela indecência de políticos e pela incompetência do Banco de Portugal.
Assim sendo, Ricardo, são do Canal as expressões ontem utilizadas pelo teu Diretor Adjunto José Gomes Ferreira, como por exemplo: “Vão roubar aos pobres”; ou “Vão enganar velhinhas”, relativamente ao processo de emissão de dívida da CGD.
Mas, principalmente, é TAMBÉM do Canal SIC-Notícias a posição oficial (e definitiva, de acordo com o programa de ontem) de que a CGD não vai sobreviver e todo o capital vai ser perdido (como aconteceu no BES).
Eu sei, Ricardo, que isso é o melhor que poderia acontecer a todos os que têm dívidas colossais para com a CGD e, principalmente, a todos os que defendem a sua privatização. Mas se é essa a posição oficial da SIC-Notícias então que o digam sem fingimentos.
Até lá, travestir de jornalismo as opiniões veiculadas (e com a terminologia com que o foram) tem como única consequência o enfraquecimento da democracia, da sociedade livre, da solidariedade e, principalmente, da dignidade de um povo em geral (e dos trabalhadores da CGD em particular).
Fiquei muito triste Ricardo. Vindo do José Gomes Ferreira, tudo bem. Tendo a tua cobertura, magoa qualquer cidadão de bem.
Um abraço,

Carlos Paz


Nota: esta carta será enviada como anexo a um conjunto de exposições sobre o tema à ERC (Comunicação Social), à CMVM (Mercados), ao BdP (Banca) e à Provedoria de Justiça.

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18 pensamentos sobre “Carta aberta ao Diretor de Informação da SIC-Notícias

  1. Não esquecer que JGF até tem um Programa de Governo. O homem sabe de tudo, é especialista em tudo e quanto a mim continua sentado à espera de um dia ser ministro pelo psd. Mas a culpa é toda do Ricardo, que tem permitido que a sic, dia após dia, se tenha vindo a constituir oposição ao Governo, de mãos dadas com psd e cds, de tal modo que não só emite notícias à sua maneira, como ainda as interpreta e comenta. Acredito mesmo que ninguém possa trabalhar na sic sem mostrar o cartão de militante. O Ricardito devia mesmo era preocupar-se com a qualidade dos jornalistas, nomeadamente nos conhecimentos de Português, em que competem com o canal do correio da manha.

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  2. Grande carta aberta muito bem escrita e pela pessoa que a escreveu o Sr. Carlos Paz pessoa que eu admiro pelos seus comentários, uma pessoa que sabe aquilo que diz e com a sua sinceridade.
    Agora uma coisa que me faz confusão e não é só de agora, é desde que este Governo está em funções, que é suportado pelos Partidos à Esquerda do PS.
    Francamente não sei o que é que o jornalista José Gomes Ferreira tem contra os Governos de Esquerda.
    As notícias de que o Governo chefiado por António Costa está a ir no bom caminho nos comentários de Gomes Ferreira nunca se fala, é sempre o Bota Abaixo, acho que já está na altura do jornalista José Gomes Ferreira e mais de retratarem.
    E começarem a dizer alguma coisa de útil a bem da Comunicação Social.
    Estou muito contente pela carta escrita pelo Sr. Carlos Paz é sinal que ainda à alguém compreensível.

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    • Pois, pois, diga o que o José Ferreira diga, concordo com a maioria das opiniões dele, principalmente quando diz que “quem paga somos todos nós”, BES, CGD (a conta há- de vir), etc. As verdades nem todos as aceitam principalmente quem tem “telhados de vidro” tapados. É são muitos os telhados neste estado!
      Já agora, o que é que anda a fazer o Banco de Portugal e quem o dirige, nestes assuntos? A tapar os ditos telhados?

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      • Lamentável que só por ZECA dizer é que se tenha apercebido que : QUEM PAGA SOMOS NÓS! E também lamentável o facto de não ter percebido patavina do contexto e texto da carta do Prof. Carlos Paz. assim parece!

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  3. Bem escrito, e preciso desmascarar estes jornalistas, que recebem ordenado da estação, e suplementos, pelos comentários que fazem. Por isso continuo a gostar da quadratura do. Círculo, onde o coordenador não intervém com as suas opiniões pessoais, e convidados têm conversas que todos percebemos.

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  4. Antes do programa a que se refere a Carta magistralmente saída do bisturi de Carlos Paz, tinha estado a ver, no Canal Parlamento a (im)postura de Paulo Núncio. Ao ver e ouvir o energúmeno JGF, que não é inocente, nemk néscio (tanto mais grave) senti náuseas. E não me consegui aguentar, por muito tampo, diante de tanta maldade, venenosa, intencional. Antes do assalto aos milhões de Euros, confiados à guarda e gestão do BES, ouvi essa espécie de jornalista quje dá pelo nome de JGF, garantir que o Banco, e o respectivo DDT, estavam de boa saúde.
    Agora, neste programa, vem a terreiro insinuar que o caso da “emigração” dos dez mil milhões, surge para abafar e fazer esquecer o assunto da CGD e os SMS do Ministro das Finanças. A voçlta que ele deu, mesmo em cima da inquirição ao mentiroso Paulo Núncio, para enterrar este pesado e grave roubo ao Povo, e ressuscitar questões, quase de “lana caprina”, tentando atirar poeira aos olhos dos ouvintes e amedrontá-los com hipotéticos enganos a “velhinhas”. Mas nunca veio à liça defender velhos, velhinhas e as suas poupanças, quando os mandantes do Bes forçaram seus funcionários a sacar-lhes economias de uma vida.
    Pelos frutos se conhecerão as qualidades das árvores: quem pode que nos liberte, quanto antes , deste semeador de cizâneas!

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  5. Gostava de ver também o vosso comentário aquando das patéticas intervenções de certas aventesma de esquerda que querem enterrar ainda mais o pais e depois vão falar que temos que sair do euro e que nos devem perdoar a divida, Isso já é bem visto? É honesto?

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  6. No espectro político nacional, nenhum dos partidos merece a minha confiança. Os partidos do “arco” estão todos muito relacionados com o pior que tem acontecido em Portugal – designadamente com a corrupção, que tanto mal geraram à Nação, a ponto de termos perdido a soberania e a capacidade para decidirmos sobre o que a nós diz respeito, supondo que alguma vez teríamos atingido uma vivência democrática. A CGD tem sido, por mão das diferentes administrações e dos partidos que as designam, desde os anos 80, interveniente activo nesse desígnio de criação de desequilibrios, e as coisas têm acontecido com a tranquilidade que os empréstimos estrangeiros têm permitido. O País está falido, consome muito mais do que produz, mas o “fetiche” do país das maravilhas prossegue com desfaçatez, enquanto a torneira dos empréstimos não fechar. Vou referir-me só às condições de negociação que os bancos aceitavam, e que impunha produtos manhosos como contrapartida de taxas suportáveis, e o processo reflectia-se aos balcões, afectando, naturalmente, as poupanças e a confiança dos portugueses no sistema bancário. A CGD também vendeu lixo e prejudicou clientes. A confiança no banco estatal tem-se degradado, bem como a função de banco com capacidade para intervir no mercado, como aconteceu no controle da inflação. Já não existe, o grande banco, tornou-se uma “banqueta”, o espelho da mediocridade e da corrupção.
    Nessa medida, o alerta de JGF e dos seus convidados foi coloquial e sensibilizador. Desencadeou da parte da esquerda, mas, principalmente de agentes do PS, um terramoto de clamores, como se a experiência de subscrições anteriores tivesse sido impoluta e escrúpulosa. E por antecedentes, será que JGF nunca criticou com alguma severidade algumas medidas dos governos PSD e CDS?
    Para terminar, acuso de hipocrisia, a especulação sobre os destino dos empregados da Caixa e das respectivas famílias, pois há muito que estão anunciadas medidas de emagrecimento de pessoal e encerramento de serviços. Não será por JGF que isso vai acontecer, mas por decisões já tomadas. Se quisermos com justiça chamar alguém à responsabilidade pelo que ali aconteceu, acontece, e vai acontecer, o melhor será começarmos pelos governantes envolvidos, ministros e reguladores, bem como os administradores solidários com as políticas escolhidas, e, alguns, pela desfaçatez de terem feito negócios particulares beneficiando das posições que ocupavam.

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