O Moralista Sousa Tavares

(José Alberto Lourenço, in Blog Foicebook, 11/01/2017)

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Ele há compadres e enteados?

Na sua página de opinião do Expresso semanal do dia 7 de Janeiro o jornalista Miguel Sousa Tavares dois anos e meio depois da queda do Grupo Espírito Santo (GES) e do seu Banco, vem procurar vender a ideia de que “ o Banco Espírito Santo (BES) era um bom Banco, o melhor a trabalhar com as empresas e o mais conceituado lá fora, que foi contaminado pela sua promíscua e ruinosa relação com o Grupo BES”.  

O tal bom Banco, vá lá saber-se porquê digo eu, de acordo com Miguel Sousa Tavares “ precisava na altura de dois mil milhões de euros de recapitalização e pediu que a Caixa subscrevesse 700 mil para que isso funcionasse como factor de confiança, para o mercado subscrever o restante”. Uns trocos apenas, aplicados numa boa causa e que fariam com que certamente o jornalista deixa-se de destilar tanto ódio em relação ao banco público.

Tirando o enorme lapso, que para Miguel Sousa Tavares é certamente uma coisa menor, de se confundir 700 mil euros com 700 milhões de euros, que foi efectivamente o pedido de subscrição do empréstimo obrigacionista feito à Caixa Geral de Depósitos, uma coisa de somenos importância para um escriba desta qualidade (de 700 mil para 700 milhões basta multiplicar por mil), o que é ainda espantoso neste pequeno naco de prosa, é a ideia que se pretende cimentar de que o BES era um bom Banco, o melhor a trabalhar com as empresas e o mais conceituado lá fora.

É espantoso como depois de todas as falcatruas que já foram conhecidas realizadas por Ricardo Salgado e pelos diversos elementos da sua equipa no Grupo e no Banco, alguém como Miguel Sousa Tavares procure ainda proceder à lavagem da sua imagem. Um Banco que revelou práticas ilegais de utilização de paraísos fiscais para fugas aos impostos e pagamentos não declarados, financiamentos indevidos intragrupo e de familiares, concessão de crédito sem avaliação de risco, circularização de dívida e capital, falsificação de activos e passivos, manipulação de produtos financeiros, imparidades injustificadas. Um Banco que literalmente enganou milhares de depositantes vendendo-lhes gato por lebre e fazendo com milhares de portugueses vissem espumar-se num ápice as poupanças de uma vida e procurem agora na justiça reaver parte delas.

Com todas estas evidências, procurei afincadamente encontrar as justificações para esta visão tão cor-de-rosa do Banco Espírito Santo e do seu leader incontestado, eis senão quando me lembrei que da mesma forma que o aforismo popular diz que “não pode haver filhos e enteados”, também neste caso com Miguel Sousa Tavares e Ricardo Salgado se pode dizer que “compadres não podem ser enteados”.

CAE, 11 de Janeiro de 2017

José Alberto Lourenço (CAE)

Fonte: FOICEBOOK: O Moralista Sousa Tavares

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3 pensamentos sobre “O Moralista Sousa Tavares

  1. Não é bonito levantar processos de intenção a alguém de quem se discorda. A minha cara Estátua deveria ter mais cuidado a quem dá voz (já sei que não subscreve tudo o que publica, mas por vezes não chega dizer isso). Não me parece que Tavares defenda em sítio algum que a gestão de Salgado devesse ter sido mantida após uma entrada do Estado no capital do BES. Deixava-se o GES falir e salvava-se o BES. Isso obrigaria o Estado a ter assumido a dívida que ficou no BES mau, mas não esquecer que o risco de litigância ainda persiste nessa matéria, e em jurisdições estrangeiras, o que é pior. Teria sido uma nacionalização parcial, não muito diferente do que se discute agora, que teria preservado minimamente a reputação do banco (e da banca). E para quem se preocupa que isso seria beneficiar o infrator (leia-se Salgado e todos os acionistas da família), convém lembrar que o Estado poderia perfeitamente ter confiscado as ações de quem ficou sob investigação…

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    • Só lhe respondo uma coisa. Não seria melhor o plumitivo abster-se de escrever sobre o tema, por manifesto conflito de interesses? Seria mais salutar, creio. Afinal há milhares de temas a merecer reflexão. E não basta a mulher de César ser séria…
      Sobre a solução para o BES a história, a verdadeira, talvez nunca seja feita. Mas há um facto: Salgado, para os crimes financeiros que cometeu, tem sido tratado com a “máxima” deferência. Parece que a Justiça, o Estado, todos os poderes, o tratam de forma reverencial, do tipo: “Dá-me V. Exa. o privilégio de vir depor ao meu tribunal?”, dir-lhe-ão os juízes. Ou seja, a partir de determinado nível, o crime transmuta-se, assume novas qualidades. Não é de estranhar, é uma das leis do materialismo dialéctico, à Hegel. A quantidade transforma-se em qualidade… 🙂

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    • Outra via de resposta. Diz bem beneficiar o infractor era a hipótese que menos iria sobrecarregar os contribuintes! Limitavam os poderes de Salgado, emprestavam-lhe a massa que ele precisava, separavam o GES do banco, mas DE FACTO, e a coisa sairia mais barata. Salgado sabia mais de banca a dormir que estes patarecos todos que por aí andam. Como vê, não sou moralista. No fundo, esta solução, ninguém teve coragem (vontade) de a implementar. Era mais que óbvio que separar o BOM do MAU nunca resulta, em termos bancários, porque o que é BOM hoje pode ser MAU amanhã. Contrariamente ao que se pensa, os bancos não vendem dinheiro. Vendem “presente” em troca de “futuro”, vendem tempo. Se o futuro for pior que presente, claro que perdem. E não perdem por ter havido vigarice. Perdem porque o progresso nunca foi, e se calhar é cada vez menos, uma recta com inclinação positiva. É cada vez mais uma linha quebrada, cada vez mais quebrada. A longo prazo haverá uma tendência, provavelmente crescente e positiva. Mas, a longo prazo estaremos todos mortos, keynes dixit… 🙂

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