O concertado e o desconsertado

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso, 23/12/2016)

Autor

                           Pedro Santos Guerreiro

Se o poder unifica, perdê-lo desagrega. Passos Coelho ainda não vê o que se antevê: que a contestação à liderança que aí anda passe de andante a molto agitato e, nos próximos meses, surja quem o queira desapear mais cedo do que tarde. O PSD está como o PS estava há dois anos, Passos Coelho é o seu António José Seguro e há quem queira que Rui Rio seja o seu António Costa.

Na política, o exército é sempre leal a quem ganha porque não é fiel a quem perde. E assim bascula do rei ainda não morto para o rei que cheira a posto. Como a sonda encaminha Passos na rota da derrota, ele perde as bases para os barões que querem ser assinalados. Rio, claro. Montenegro, o que é menos claro.

Os telefones de Morais Sarmento e de Paulo Rangel não devem parar de tocar no processo de arregimentação em curso. Marcelo Rebelo de Sousa, que será sempre o acrobata invisível na arena, pode preferir Montenegro por preterir Rio e, paradoxalmente, querer por isso proteger Passos de um congresso extraordinário que favoreça o ex-autarca do Porto: e, assim, o Presidente do país dará a mão ao presidente do partido até às autárquicas. Já Miguel Relvas age contra Rui Rio, Mauro Xavier age por ele, Marco António ainda não age por ninguém e pessoas como Carlos Encarnação fazem de acendedores de archotes.

Para quando?

Os descrentes tornam-se detratores e para estes os cenários pendulam entre esperar que Passos perca as eleições autárquicas do próximo ano e avançar sobre ele no congresso do inverno de 2018, ou querer antecipar um descalabro e avançar contra ele num congresso extraordinário na primavera de 2017. A resposta é tática: para quem desafia, o que varia nos cenários é saber em qual deles Passos perde e quem tem melhores hipóteses de ganhar se o embate for antes ou se for depois das autárquicas. Mas o que é comum nos cenários é que em ambos Passos perde as eleições.

Eis porquê: as sondagens são um escorrega aquático para o PSD; e a sua estratégia para as autárquicas é tardia ou é nenhuma, o que para os candidatos às autarquias vai dar ao mesmo. Essa falta de estratégia é mais visível na graça em Lisboa de poder apoiar Cristas porque não há ninguém para bater o mestre de obras Medina, ou na desgraça no Porto de não haver candidato contra o mestre sem obras Moreira. A estratégia autárquica do PSD é tão má que parece propositada: é como se o coordenador Carlos Carreiras quisesse que o partido perdesse em todas as grandes cidades para a sua Cascais ficar como a “maior” do PSD.

Enquanto isso, o Governo apaga a crise da CGD celebrando objetivos no défice e promessas nos lesados do GES (promessa paga com a garantia dos contribuintes) ou no acordo de concertação social (apresentado como grande vitória política). O PS canta para fora, o PSD desencanta para dentro. E como para o ano há eleições, o Diabo já chegou — chegou para Passos.

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