Portugal e o mundo perigoso

(José Vítor Malheiros, in Público, 14/12/2016)
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José Vítor Malheiros

Portugal, habituado a olhar para fora em busca de referências, é hoje no mundo uma ilha de racionalidade política e de empenhamento democrático.

Ninguém sabe ao certo se existem leis que determinam o destino histórico dos povos ou da humanidade no seu conjunto e o debate entre os que acreditavam nesse destino e os que o contestavam ocupou uma parte importante dos últimos dois séculos.
Porém, seja qual for a nossa posição nesse debate, a verdade é que, devido à invenção da ciência moderna e ao desenvolvimento das tecnologias que ela permitiu, a maioria dos habitantes do planeta habituou-se a acreditar no progresso e a pensar que os seus filhos iriam viver melhor do que eles próprios. Fomos todos educados na esperança de que o conhecimento da Natureza e o seu crescente domínio pelo homem nos garantiriam cada vez melhores dias.
A primeira metade do século XX, com a sua explosão de violência e totalitarismos, que a ciência e a tecnologia não só não evitou como potenciou, pareceu contrariar a tese do progresso, mas o bem-estar económico que sucedeu à segunda Guerra Mundial numa grande parte do mundo permitiu pensar que a barbárie das primeiras décadas do século poderia ter afinal constituído uma vacina que iria garantir o nascimento de uma sociedade mais sustentável e mais justa no futuro.

O fim do colonialismo e a difusão da ideia de democracia liberal pareciam sinais evidentes dessa força de progresso que iria melhorar a qualidade das nossas vidas e da nossa democracia, acabar com a fome, garantir os direitos humanos, proteger o ambiente e, um dia, substituir a guerra pela negociação e pela arbitragem internacional.

A educação permitia-nos até sonhar com um progresso moral, com a generalização de uma cidadania empenhada e de uma governação honesta, com a igualdade de direitos, o fim da tortura e do racismo, uma sociedade decente. Podia estar longe, mas era nesse sentido que caminhávamos. A ciência ia acumulando conhecimentos e corrigindo erros, a sociedade faria a mesma coisa.
Mas algo mudou ao longo destes anos de aparente progresso. No espaço de poucas décadas, enquanto se ia impondo, em nome do progresso económico, uma ideologia que erigia como único valor a eficiência da produção e como única medida desse progresso o dinheiro, os pobres foram-se tornando excedentários. De factores de produção, problemáticos mas necessários, os trabalhadores começaram a tornar-se despesa, peso morto. E essa ideologia, o neoliberalismo, conseguiu ir injectando esse pensamento iníquo e anti-humanista por excelência no discurso político.
No mundo em que vivemos hoje, que descobrimos com surpresa e horror, a guerra aparece de novo como a solução possível para todos os conflitos, a tortura e o racismo readquirem direito de cidade, o discurso político abandona a racionalidade, os compromissos para com o planeta que deixamos aos nossos filhos parecem ser abandonados. Nos EUA há quem pense que é aceitável queimar petróleo até rebentar com o planeta porque alguns privilegiados poderão fugir para Marte. Não é apenas o mundo da pós-verdade na política, é o mundo da pós-moral e da pós-racionalidade. António Guterres diz que o caos pode ser a nova ordem internacional. Temos hoje de voltar a empunhar bandeiras que pensávamos arrumadas para sempre.
Acontece que Portugal, habituado a olhar para fora em busca de referências, é hoje no mundo uma ilha de racionalidade política e de empenhamento democrático. Alimentemos cuidadosamente este precioso fogo. Os tempos estão difíceis e alguém pode precisar dele em breve.
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