Domingues andou a gozar com o pagode

(Por Estátua de Sal, 28/11/2016)

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Afinal o Domingues da CGD bateu com a porta mas, ainda assim, vai entregar as declarações de rendimento e património ao Tribunal Constitucional (Ver notícia aqui). Se era para entregar não se percebe tanta hesitação e o “faz que vai mas não vai”, durante semanas a fio.

Esta novela, cujo enredo acho que ainda está longe de ter terminado, leva-me a questionar se será possível existir um banco público que se queira gerir de acordo com a lógica da banca privada. A lógica da banca privada é a opacidade: o segredo é a alma do negócio. A informação sobre os gestores, sobre o seu património, interesses e idiossincrasias é um ativo importante para a concorrência já que, de certa forma, poderá permitir antever os critérios de decisão que os irão nortear num determinado dossier. Ora, Domingues, sabedor de tudo isso e sendo essa a prática a que estava habituado no BPI, independentemente de ter ou não algo a esconder, chegou à CGD e estranhou tanto ruído à sua volta. Foi o mesmo que passar da equipa B para estrela reputada da equipa principal. No BPI, ninguém o conhecia. O BPI é Fernando Ulrich mais as suas boutades, como aquela que ficou para os anais do “ai, aguenta, aguenta”. Domingues sentiu-se um peixe fora da água e continuou a achar que os negócios da banca privada se devem fazer no recato dos gabinetes e que a prestação de contas aos acionistas se deve fazer apenas no fim do ano, no Relatório e Contas, consubstanciando-se no montante dos dividendos a distribuir.

Ora, não é essa a lógica de uma banca que se queira pública. A lógica é a da transparência, porque os acionistas são todos os cidadãos, e estes não querem receber dividendos no fim do ano. Apenas não querem ser chamados a pagar as consequências de desvarios, más decisões de gestão e de concessão de crédito a projetos fantasmas e irrealistas.

 E já nem falo da polémica sobre os ordenados e prémios que se pretenderam alinhar com a média do setor e que, à luz de qualquer critério de equidade e de comparabilidade com outros cargos, são no mínimo obscenos. Os banqueiros, como trabalham com dinheiro dos depositantes, sempre nos quiseram fazer crer que a sua atividade é ciência esotérica da mais fina filigrana, apenas ao alcance de poucos eleitos e iniciados, devendo por isso ser remunerados principescamente. Nada mais falso. Eles apenas têm uma vantagem da qual tiram partido. Enquanto os restantes gestores tem que se esforçar por transformar bens e serviços em dinheiro – o que nem sempre é fácil -, a mercadoria dos bancos não é sujeita a esse processo de escrutínio e de capacidade, porque a mercadoria dos bancos é o próprio dinheiro. Logo, é só estender a mão e assinar o recibo de vencimento e do bónus, com o maior número de zeros à direita que for possível. Com a vantagem da falência das instituições que gerem, em resultado da sua especificidade, poder colocar em risco o funcionamento de toda a atividade económica, pelo que a derrocada é sempre evitada pelos Estados e nunca há penalidades para banqueiros, mesmo que sejam os mais inaptos do mundo. Ou seja, recebem prémios chorudos quando tudo corre bem mas, quando tudo corre mal, partem para outra como se nada tivesse acontecido.

Eu compreendo as limitações do Governo em todo este caso. Tinha que convencer Bruxelas a permitir que Portugal, um pequeno país, mantivesse um banco do Estado, o que contraria frontalmente a lógica neoliberal das instituições europeias, dando luz verde à recapitalização. Para convencer Bruxelas, tinha que dar sinais claros de que a CGD iria ter uma gestão que seria determinada pelos critérios da banca privada, fosse ao nível dos vencimentos, fosse ao nível das práticas de opacidade do setor. Domingues era uma espécie de carta de apresentação dessas intenções. Pelo currículo e pelo perfil. Só que o Governo se esqueceu de informar Domingues que ele, apesar de tudo, não era senão isso mesmo: uma boa carta de apresentação e que, a CGD não era o BPI. E que após a recapitalização a política de crédito da CGD não seria orientada para aumentar os dividendos dos acionistas mas sim fomentar a economia do país, apoiar as empresas, manter o emprego, fomentar exportações, mesmo que tal implicasse ter uma rentabilidade mais baixa que aquela que haveria se a CGD fosse privada.

Acho que foi isso que Domingues percebeu, só agora, e quando o percebeu bateu com a porta, talvez por não se sentir confortável, ou mesmo capaz, de estar à altura do desiderato.

Mas ainda bem que o fez. Ele não era o homem certo para a CGD, e antes sair agora, pouco ou nada tendo feito, do que colocar a CGD no rumo errado, seguindo políticas gestão idênticas às de qualquer outro banco privado. Porque, a fazê-lo, poder-se-ia de imediato perguntar: para quê manter a CGD na esfera pública?

Depois do país ter perdido empresas emblemáticas como a PT, a EDP, a REN, a CIMPOR, a ANA, as seguradoras, a única empresa de jeito que nos resta é a CGD. Existem apetites enormes, internos e externos, para lhe pôr a mão. Estes episódios só incentivam a voracidade desses predadores. Como se viu ao longo de toda esta novela, temos a direita em peso a trabalhar para entregar a Caixa nas mãos dos estrangeiros já que não há capital nacional suficiente para a controlar, devido à sua dimensão.

Passos, Montenegro, Maria Luís, Cristas e companhia, são os homens de mão dos predadores, são apátridas que querem acabar a obra de venda de Portugal ao estrangeiro que começaram e levaram a cabo na sua governação de saque. Daí tanto alarido e tanta histeria.

Os predadores, expoentes dos grandes interesses financeiros, infiltrados que estão nas instituições europeias, devem estar a esfregar as mãos de contentes, e a murmurar em voz baixa uns para os outros: – Que excelente trabalho está a ser feito pelos nossos aliados do PSD e do CDS.

Domingues andou, de facto, a gozar com o pagode e serviu de bandeja à direita um opíparo folhetim de episódios rocambolescos que só fragilizaram aquilo que já frágil: o sistema financeiro e a independência, pouca, que ainda nos resta como País.

Mas a novela é também uma lição para o Governo e para o PS: quando se navega em águas turvas, quando se governa a meia haste e se fazem pactos com o diabo, há sempre o perigo de se sair queimado.

3 pensamentos sobre “Domingues andou a gozar com o pagode

  1. Um génio Domingues teria de ser : Gerir a Caixa de maneira a não dar nem lucros nem prejuízo. Ou, vá lá, um pequeno lucro ou um pequeno prejuízo. Seria a teoria do ponto médio de Aristóteles em versão bancária. Um génio esse Domingues teria de ser.

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