Um homem inteligente foi a Havana

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/013/2016)

Autor

                               Daniel Oliveira

Durante décadas os EUA arrastaram um bloqueio politicamente indefensável. Indefensável porque os Estados Unidos apoiaram e continuam a apoiar ditaduras bem mais brutais do que a castrista. A guerra fria e a sua própria segurança poderiam justificá-lo. Mas muito maior risco foram os EUA para a segurança de Cuba do que o oposto. As tentativas de assassinato do antigo chefe de Estado cubano e a falhada invasão de 1961 faz com que a paranoia cubana com o seu vizinho gigante não seja disparatada. E não, a preocupação dos EUA nunca foi – nem com Batista, nem com Fidel, nem com Raul, nem com qualquer governo de qualquer país da América Latina – a democracia. Quem use esta retórica ou é tolo ou faz de nós tolos.

O prolongamento do bloqueio a Cuba só trouxe problemas aos Estados Unidos. Tornou evidente que os EUA não aceitam a soberania dos Estados vizinhos. Na realidade, essa foi uma das funções do bloqueio: deixar bem claro a todos os latino-americanos que um caminho que os afastasse do lado de cá da guerra fria seria pago com pobreza e isolamento. Passado esse período, e quando se multiplicaram os governos de esquerda eleitos (Venezuela, Brasil, Bolívia, Argentina, Equador, Uruguai e por aí adiante), o bloqueio apenas teve dois efeitos simbólicos: manter a solidariedade da esquerda democrática latino-americana com um regime que, ao contrário dos seus, não contava com a legitimidade do voto, e reduzir a influência dos EUA juntos dos povos vizinhos, que compreendem bem a ameaça que paira sobre as suas cabeças.

Não cumprindo nenhuma função compreensível, porque se manteve e mantém o bloqueio? Por razões internas. A política americana, sobretudo no Estado da Florida e no Partido Republicano, é refém dos cubanos no exílio e estes são reféns da antiga elite corrupta da ilha que, é bom recordá-lo, nunca teve qualquer simpatia pela democracia. Com uma pequena elite intelectual e democrática cubana espalhada pelos EUA, Europa e Cuba, que nunca conseguiu construir uma verdadeira liderança popular, faltou nos EUA uma pressão de cubanos sensatos para uma política diplomática inteligente nas relações com Havana. Sobrou, como alternativa a Fidel e Raul, uma extrema-direita cubana sem qualquer apoio ou credibilidade dentro do país.

Há muito que os políticos norte-americanos mais sensatos perceberam que, tirando alguns corajosos intelectuais, não há uma oposição organizada e democrática capaz de conquistar o poder em Cuba e que uma mudança abrupta de regime, para alem de improvável, poderia levar de Miami para Havana gente ainda menos fiável do que Raul Castro. Não levariam na bagagem a democracia e, em vez de um inimigo, os EUA passariam a ter como vizinho uma perigosa incógnita.

Infelizmente, foi preciso um Presidente que não tem de vencer eleições na Florida e sem qualquer possibilidade de conquistar simpatias nos sectores que impõem este estúpido bloqueio para que as coisas começassem a mudar mais depressa. Nas circunstâncias internas da ilha e tendo em conta as características da elite política e económica dos exilados, a democracia e a segurança só poderão ser conseguidas por via de uma transição interna. E talvez só possa ser feita com alguém que tenha a legitimidade histórica, revolucionária e até familiar de Raul Castro. Com pequenos passos.

É assim, pelas mão do ditador irmão do ditador, a conta-gotas e sem ouvir o povo, que as democracias devem nascer? Não. Mas como nos ensinaram a Líbia e a Síria, entre o que devia e o que pode ser há por vezes uma distância considerável. A inteligência da política é tentar chegar ao mesmo lugar de outra forma.

Ao visitar Havana Barack Obama fez muito muito mais pela democracia em Cuba do que 54 anos de bloqueio.

De um passo histórico semelhante ao que já dera para uma maior abertura do Irão, com resultados já visíveis. Pela credibilidade que este gesto deu aos EUA junto dos outros Estados latino-americanos, tão importantes para a sua estratégia política e económica, os norte-americanos irão agradecer um dia . E os cubanos ainda mais.

Da burka ao colete de explosivos

(José Pacheco Pereira, in Público, 26/03/2016)

Autor

                       Pacheco Pereira

Acabar com o Daesh é possível por meios militares, mas nos últimos vinte anos emergiu uma realidade política e religiosa de natureza muito violenta que existe muito para além do terreno sírio e iraquiano, e está nas nossas cidades.


Recentemente estive num país europeu onde um dos aspectos em que as ruas mais visivelmente mudaram foi o número cada vez maior de mulheres com niqab e algumas com burka. Um niqab, que mostra apenas os olhos da mulher, ou a burka que nem isso mostra, não é nada que passe desapercebido, deixando a milhas o vulgar lenço na cabeça muitas vezes usado com uma roupa em nada diferente da que traria uma rapariga não muçulmana qualquer, ou um mais envolvente hijab, ou um chador, que pela sua preocupação de tapar todo o corpo da mulher, com excepção da face, já proclama mais claramente a prisão a que, em todos estes casos, o corpo da mulher está sujeito. Hijab, chador, niqab e burka reflectem uma hierarquia com distintas origens e tradições, mas em todos os casos significam uma menorização do corpo da mulher e são um símbolo do poder masculino.

Num elevador com duas ou três mulheres, velhas e novas, de niqab, ou num restaurante perguntando-me como é que comem quando todas as atenções estão viradas para elas, como é inevitável, a sua presença gera uma grande sensação de desconforto. Preferia não ter de partilhar um espaço pequeno, mesmo que por minutos, com mulheres que se vestem assim. Incomoda e muito.

Pergunto-me se este tipo de desconforto seria o mesmo que teria um branco no Mississippi se tivesse de se sentar num autocarro ao lado de uma negra nos tempos da segregação. Ou será que o mesmo tipo de desconforto terá um devoto muçulmano se numa aldeia nigeriana, ou numa vila do interior da Anatólia, ou no Magrebe, se tivesse ao seu lado uma mulher “pouco vestida” segundo os seus cânones de correcta maneira de vestir? Aliás, para este último exemplo, não preciso sequer de ir para o mundo do islão: já vi a comoção gerada por uma rapariga que amamentava o filho num café e para isso mostrava um seio. Ou, se se quiser, o incómodo causado por um transexual num meio pequeno e fora dos sítios trendy das cidades. Em quase todos estes casos, mesmo no caso do transexual, é o corpo feminino, a sua ocultação ou exibição, ou a sua assunção pelo sexo “errado”, que está em causa. Não sei que mal fizeram as mulheres, com excepção dessa serva da serpente, Eva, para gerarem este tipo de reacção. Saber sei, há muitos estudos de antropologia e psicologia que o explicam, mas sabendo, não sei.

Ora, um dos aspectos mais complexos de uma alteridade cultural, que representa uma fronteira “civilizacional”, é o modo como no mundo do islão todas as tentativas de modernização têm encalhado na dificuldade de conceber um papel diferente para a mulher, que não a considere propriedade dos homens, do marido aos irmãos e aos pais, e que não a marque com um vestuário humilhante que se destina a mostrar a sua subjugação. É por isso que o niqab é ofensivo, tanto mais quando ao lado da mulher assim escondida está um marido jovem, desempoeirado, de jeans e telemóvel em punho, que, como é óbvio, não segue qualquer código de vestuário e a transporta como se fosse uma peanha.

No debate sobre o terrorismo que se está a travar, antes com a Al-Qaeda, agora com o Daesh, o facto de alguns dos terroristas que combatem na Síria ou no Iraque serem europeus, e os actos de terrorismo apocalíptico em que o objectivo é matar o maior número de “infiéis” no menor tempo possível serem de responsabilidade de jovens muçulmanos nascidos na França ou na Bélgica, obriga a olhar para Marselha, Paris, Bruxelas e Londres e saber o que é que aí está a acontecer. Obriga-nos também a perceber com ainda maior clareza que o relativismo “multicultural” pode ser muito bem avontadado, mas representa uma cedência de valores civilizacionais inaceitável por quem acredita que um mundo com direitos humanos é melhor do que a aceitação de qualquer selvajaria em nome dos “costumes” ou da religião.

Ora, se o terrorismo em si não pode ter qualquer explicação que menorize o acto criminoso por qualquer determinação causal como o desemprego, a exclusão, ou qualquer outro factor socioeconómico, já importa saber por que razão é que nas comunidades onde se “criaram” estes terroristas eles são o seu produto, assim como nelas se movem à vontade, mesmo depois de se saber o que fizeram, como na velha metáfora guerrilheira, como “peixe na água”. Então há todo um conjunto de factores que se tornam explicativos, explicativos não são justificativos, e entre eles avultam todos os que tornaram estas comunidades muçulmanas europeias, em particular em França, Bélgica e Reino Unido, esse espaço em que os terroristas se movem como “peixe na água”. Porque apesar das sucessivas declarações apaziguadoras de que a maioria das pessoas que vivem em bairros como Molenbeek em Bruxelas são gente pacífica — e são — e que condena com toda a veemência os actos de terrorismo — aí já não é bem assim, há nuances —, a verdade é que essas comunidades, que deveriam estar na vanguarda da luta contra o terrorismo que lhe é tão próximo, estão longe de o estar. E aí contam as fronteiras que a alteridade cultural ajudou a erguer, dobrada da crescente adesão dos jovens a um islão fundamentalista, e que reforçam o gueto por dentro. Por fora, sabemos quais são os factores que reforçam esse mesmo gueto, a falta de mobilidade vertical que a estagnação económica da Europa dos últimos anos acentuou e a dificuldade que as sociedades europeias têm de criar o élan ascendente que o melting pot americano tem conseguido para a maioria dos seus emigrantes, muitos dos quais chegam sem nada. Na confluência das duas atitudes de gueto resulta que nos microcosmos, como os bairros pobres de Marselha, Londres, Paris e Bruxelas, se há islão moderado, não se ouve, nem parece existir, e o que acontece é uma crescente raiva, manifesta em particular nos jovens contra uma sociedade, que os leva a acentuar ainda mais o isolamento cultural e social. E as raparigas que usam ostensivamente pelo menos uma qualquer forma de “vestuário” islâmico recusam-se a cumprimentar os homens e a ser vistas nos hospitais por médicos e não podem esperar ter muitos dos empregos a que poderiam aceder.

Mas atenção, também aqui os homens se comportam de forma diferente. Quando se diz que os atentados de Paris são contra o “nosso modo de vida”, cafés, restaurantes, uma sala de diversão, só em parte é verdade, porque muitos desses jovens radicalizados por uma corrente do islão fundamentalista vivem muito bem nesse “modo de vida”: bebem, frequentam prostitutas, vestem-se à ocidental. Até um dia.

Depois há aquele factor que também o nosso “politicamente correcto” tem dificuldade em confrontar: o terrorismo da Al-Qaeda e do Daesh comporta uma componente religiosa, ou melhor, político-religiosa, que temos muita dificuldade em perceber em sociedades já com séculos de laicização. A resposta que se dá vai das alarvidades de Trump às proclamações sucessivas de que o islão “nada tem que ver” com o terrorismo, que é uma perversão do islão. Na verdade, tem. Não podemos separar o lado “bom” do “mau” de uma religião. Há uma corrente no islão, aliás já antiga, que justifica a exterminação dos “infiéis”, como no passado aconteceu também no cristianismo. Aliás, deveríamos voltar à nossa história cristã para perceber alguma coisa sobre este fundamentalismo, visto que já o tivemos com bastante força no cristianismo, e está longe de desaparecer de todo. Por isso, se ignoramos que estes jovens que se suicidam, e também matam, têm também motivações do foro religioso, não percebemos que a religião, entendida de uma forma que nós consideramos para nosso conforto como “pervertida”, está presente nos actos dos terroristas.

Acabar com o Daesh é possível por meios militares, mas nos últimos vinte anos emergiu uma realidade política e religiosa de natureza muito violenta que existe muito para além do terreno sírio e iraquiano, e está nas nossas cidades. A experiência militar e operacional que estes jovens ganharam na Síria combatendo com o Daesh é importante, mas não é preciso ter uma grande experiência militar, saber muito de explosivos, e obter Kalashnikovs, o que não é difícil, para criar o caos criminoso num campo de futebol ou numa rua apinhada ao fim da tarde. Contrariamente ao que às vezes se sugere, não há grande sofisticação nestes atentados, com regras de clandestinidade rudimentares que só funcionam porque é difícil infiltrar estes meios, ou porque os serviços de informação como os belgas não viram nada na rua ao lado. Melhor humint melhora muito o combate ao terrorismo, mas mesmo assim não o impede de todo.

Dito isto, estamos metidos num grande sarilho.

Passos Coelho já não se ri

(Bernardo Ferrão, in Expresso Diário, 24/03/2016)

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                                 Bernardo Ferrão

No dia em que Mário Centeno se estreou no Parlamento, já lá vão três meses, foram notícia as gargalhadas de Passos Coelho. Sentando no seu novo lugar, na primeira fila da oposição, enquanto ouvia o ministro, o ex-PM ria-se muito. E com gosto. Na semana passada, quando o Orçamento do Estado foi aprovado, Passos já não se riu, bem pelo contrário, esteve sisudo, esfíngico mesmo – pudera! António Costa tinha superado mais uma etapa.

Toda a gente reconhece, incluindo o próprio primeiro-ministro, que, apesar dos obstáculos que têm sido ultrapassados, a tarefa para o Governo não é fácil. O equilíbrio entre Bruxelas e as esquerdas exige engenho político diário e grandes doses de jogo de cintura – mas Costa já mostrou ser exímio nessas artes. Mas se para o PM o caminho é de pedras, Passos sabe que, também no seu caso, o contador está em marcha. Por cada dia a mais de “geringonça”, é um dia a menos para Passos Coelho.

O PSD não costuma ser muito paciente com as lideranças, sobretudo com as que perdem o poder e ainda para mais se se mostram pouco empolgantes. Não quero com isto dizer que a liderança está em causa. Não, não está, até porque o partido não se soube renovar e não existe (ainda) um sucessor à altura – Moreira da Silva não empolga, Luís Montenegro ainda tem muito para andar e Maria Luís está queimada. No congresso de abril vão notar-se sinais e discursos menos alinhados, mas nada de transcendente. Nada que o perturbe. Para já.

O problema está no caminho que o líder social-democrata tem vindo a trilhar. Ao contrário do CDS, que percebeu que tinha de virar a página – e aposta em fazer diferente do PSD -, Passos quis permanecer. E fez bem. Mas fê-lo com uma agenda do contra. Não aprova nada. Parece amuado. E permite que Costa o remeta todos os dias para o casulo político. Ao apelar aos consensos, com a ajuda de Cristas e do aliado Marcelo, o chefe de Governo sabe que vai isolando o adversário.

Ao pôr as fichas todas na desgraça da “geringonça”, Passos Coelho não só contribui para unir as esquerdas, como sabe que está a apostar alto, e pela negativa. E caminha para um beco político de difícil saída. Se a imagem do político que só sabe governar com austeridade já lhe assenta que nem uma luva, com esta estratégia Passos autolimita-se, e está a permitir que o vejam apenas e só como o político dos resgates.

Estar na oposição não é fácil, ainda para mais depois de ter ganho as eleições. Mas a forma como o PSD de Passos tem assumido esse papel está a ser percecionada como demasiado desfasada. Não só no tempo, como na atitude – sobretudo neste novo ciclo político dos “afetos”. Passos, que ganhou eleições com a agenda da austeridade, acredita que realidade virá ao seu encontro, e está no seu direito. Não é ele que tem de mudar, é o país que acabará por lhe dar razão. O problema é que entanto isso não acontece, não só se desgasta a ele como arrasta o PSD.

Não se prevendo uma crise política nos tempos mais próximos, e com as autárquicas ainda distantes, quanto tempo resistirá Passos nesta amarga liderança? Agora quem se ri é Costa. E Marcelo também.