E acabou o passeio da Miss Portugal

(Daniel Oliveira, in Expresso, 09/01/2016)

Autor

                         Daniel Oliveira

Há anos que ouvimos um monólogo de Marcelo Rebelo de Sousa. A sua simpatia e sagacidade ocultam um ziguezaguear constante e uma habilidade retórica que muitas vezes tem a função de não o comprometer. Foi no conforto da companhia solitária de um jornalista, e não em debate, que Marcelo foi construindo a sua imagem política recente e fez a caminhada para Belém. Preparava-se agora para um passeio, recolhendo os louros da sua merecida notoriedade. Sem custos de campanha, aliás, como recorda num inesperado piscar de olho a um conveniente populismo.

Nesta campanha, Marcelo contava não ter de tomar posição sobre nada. Como convém, para pescar votos longe das suas águas, tentava passar uma ideia: um Presidente não tem posições políticas. Isso faz dele um representante de fação. Marcelo está acima disso, como deve estar o Presidente. Está até acima das posições políticas que teve e que eventualmente ainda tenha. Não é para falar de política que se faz esta campanha. Na realidade, nem se percebe para que se faz campanha. As eleições não são mais do que um concurso de simpatia.

Até que o passeio de Marcelo foi atrapalhado. E quem o atrapalhou, devo confessar que não esperava, foi o “inexperiente” Sampaio da Nóvoa. Foi ele que lembrou a Marcelo que ele não é candidato a Miss Portugal. É candidato a um cargo político, o que implica não tentar passar a ideia de que é uma folha em branco. Para pôr fim à tentativa de despolitizar estas eleições, fazendo delas um mero concurso de notoriedade, Sampaio da Nóvoa despiu Marcelo do travestismo político que anda a experimentar há dois meses. E entrou a matar, fazendo que a simpatia agradável de Rebelo de Sousa se desfizesse. Isto sim, é campanha eleitoral.

Marcelo foi confrontado com as suas posições sobre o Serviço Nacional de Saúde, sobre políticas de educação, sobre propostas de revisão constitucional, sobre a austeridade, sobre o trabalho do governador do Banco de Portugal. E assim Sampaio da Nóvoa, com uma firmeza que o revelou como um verdadeiro político, travou a reescrita que Marcelo anda a fazer de si mesmo. Nuns casos, Marcelo defendeu-se com outras posições que teve. Como explicou o seu oponente, a vantagem de Marcelo é que por cada vinte afirmações encontramos outras vinte opostas. E quando nem assim se conseguiu defender, Marcelo respondeu com um truque retórico: pelo menos tive posição, não sabemos qual era a sua. Curiosamente, quando confrontado com a posição que teve sobre o trabalho de Carlos Costa em relação ao Banif, tudo mudou: “eu era analista, não falei como político.” Assim como o seu apoio à revisão constitucional proposta pelo PSD, em 2010, deixou de ser um apoio para ser apenas uma demonstração de admiração pelo interesse e habilidade da solução.

O grande argumento de Marcelo Rebelo de Sousa – que tem experiência, que os portugueses o conhecem e sabem as suas posições é desvalorizado pelo próprio Marcelo, ao afirmar que as posições que tomou não devem ser tidas em conta no atual debate político. Eram só análises. Quer o currículo sem querer o conteúdo. Quer os louros de ser comentador sem que lhe recordem o conteúdo do comentário. O mesmíssimo acontece quando valoriza a sua experiência política, logo a desvalorizando quando é confrontado com o conteúdo das decisões desse governo: “eu era secretário de Estado”. Exibe os galões para depois os esconder. O político que tomava posições enquanto Sampaio da Nóvoa se calava, afinal falava como “analista” e por isso não deve ser recordado. O homem com experiência de governo era apenas secretário de Estado e não deve ser responsabilizado.

Marcelo fez questão, aliás, de começar o debate pela sua experiência política. E esse é o seu principal ataque a Sampaio da Nóvoa: quer passar de soldado raso para general. Não sei como funciona o paralelismo marcelista entre a política e a hierarquia militar. Mas se falarmos de experiência executiva, não me parece que Marcelo deva encomendar as medalhas. A experiência executiva de Marcelo resume-se a um ano como secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e outro ano como ministro dos Assuntos Parlamentares. De resto, foi deputado e presidente de assembleias municipais. Sampaio da Nóvoa foi, durante sete anos, reitor da Universidade de Lisboa, sendo responsável pela maior fusão de universidades em Portugal. Se compararmos as duas experiências, digamos que mais pessoas dependeram do talento do soldado raso do que da habilidade do general.

Também nas suas relações com o PSD e o CDS, Marcelo tenta a arte da ocultação. Quando se trata de esconder o apoio que o PSD e o CDS lhe dão é fácil. Todos sabem que o dão sem entusiasmo. Mas a oposta é mais difícil. A frase de Francisco Louçã, que Marcelo tentou usar para seu socorro, não vale mais do que o apoio que deu, durante 4 anos, ao governo anterior. Sempre com críticas sobre a forma como o governo comunicava, os exageros, os erros. Mas em total sintonia com as grandes escolhas. E foi na troca de galhardetes sobre os apoios que cada um recebeu que se deu o momento mais estranho da noite: Marcelo criticou de Sampaio da Nóvoa, “candidato de facção”, por ter o apoio de uma grande comissão de honra e de três ex-presidentes. Ter apoios políticos que não se querem esconder, em vez de ser um iluminado que não precisa de ninguém, deve ser motivo de vergonha.

Num debate em que Marcelo não só foi obrigado a ir à luta como perdeu, acabou por se socorrer do pior dos populismos. Tendo feito campanha, sozinho e sem confronto, nos estúdios da TVI, ataca Sampaio da Nóvoa por este gastar dinheiro, sabendo que estas Presidenciais são das mais baratas de que há memória. Diz Marcelo que não aceitou contribuições de outros e pagou do seu bolso. Ou seja, se te queres candidatar tens de ser rico. Ou tens de ter um programa de televisão que te permita não fazer campanha. Passam a ser os diretores dos canais a escolher os candidatos. Do ponto de vista do confronto retórico, este é capaz de ter sido o único momento em que Marcelo ganhou pontos no debate. Sendo o momento menos sério da sua argumentação, diz muito de como lhe correu o primeiro momento de campanha a sério.

7 pensamentos sobre “E acabou o passeio da Miss Portugal

  1. O Daniel esqueceu-se que o Sampaio até tem um passado político, só que pelas piores razões. Pertence(u) ao LUAR, grupo extremista e terrorista acusado de vários assassínio em Portugal!

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  2. A sagacidade queria que o Sr Sampaio da Nóvoa fosse à segunda volta… porque assim teria grande chances de ganhar. E para impedir Marcelo de levar tudo à primeira, é necessário que muita gente de esquerda inclusive BE e PCP votassem todos no Sampaio da Nóvoa…é a única possibilidade. Receio que o espírito de capela estraga tudo.

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    • Porquê? Para ganhar a primeira volta não é necessário ter mais de 50% dos votos? Não interesse se os do BE/PCP não votarem no Sampaio da Nóvoa, vão estar sempre a contribuir para menos votos para o MRS.

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  3. Este Daniel Oliveira é um perfeito imbecil!!! É um grande parvalhão, se estivesse caladinho estaria muito melhor!! A Clara Fereira Alves pô-lo a ele e ao Pedro Marques Lopes nos eixos!!! Força Marcelo

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  4. E mais esse mattelo caetano viu de ser um soldado raso sem devisas mas com aspiraçoes a soldado.
    Ao mencionar o seu mesquinho pensamento de dizer que sampaio recebe o apoio dos marxistas do PCTP/MRPP oficialmente.
    Se este martelo portador do odio e do racismo pensava que isso seria caso para desmotivo, pois senhor PAF, ter e aceitar votos das forças progressistas , patrioticas e revolucionarias, sera motivo de regozijo que voçê soldado raso nao se preza de receber

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