Soldados oportunistas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/12/2015)

Autor

                                Daniel Oliveira

Duarte Marques, aquele deputado do PSD que tem um conflito com a língua portuguesa e uma relação especialmente crispada com a pontuação, homem especialmente próximo de Miguel Relvas, convidou Pacheco Pereira a abandonar o PSD.

Parece que as ferozes críticas que este tem feito ao seu próprio partido motivam este pedido. No entanto – e Pacheco Pereira, porque não nasceu ontem, já o fez notar -, nada há no comportamento do historiador que permita a sua demissão de qualquer partido democrático. Nunca foi candidato, fez campanha ou anunciou o seu voto por outro partido. Discorda da direção do PSD e torna, como é seu direito, isso público.

Leio em muitos comentários que Pacheco Pereira devia sair do PSD porque o PSD nada tem a ver com ele. Cabe apenas ao próprio fazer essa avaliação. E confesso que sempre me revolveram as entranhas os inquisidores que em cada partido, em todos os partidos, se acham no direito de dizer quem tem as posições aceitáveis e inaceitáveis. Tendo militando no PCP e no Bloco, orgulho-me de ter sido contra todas as expulsões por delito de opinião. Apenas aceito expulsões por violação de regras éticas fundamentais, corrupção, uso de dinheiros públicos ou do partido e por aí adiante. As divergências de opinião resolvem-se nos confrontos internos e livres.

São quase sempre os mais medíocres a acharem-se no direito de decidir quem pode e quem não pode ser militante de cada partido. Os que dispensam a liberdade de pensamento, por lhes faltar o amor à liberdade e o hábito do pensamento, tendem a confundir militância com obediência. Várias vezes me disseram que me faltava “espírito de partido”. Quase sempre por exercer publicamente, com lealdade mas com toda a frontalidade, o direito à critica em relação a várias decisões tomadas pelas direções das forças políticas onde militei. Talvez seja verdade. Mas ainda acredito que é possível garantir a coesão de um partido e saber viver com a divergência pública. Falta é mudar o espírito militar da militância, que se julga demasiadas vezes parte de um exército ao serviço de generais.

SÃO QUASE SEMPRE OS MAIS MEDÍOCRES A ACHAREM-SE NO DIREITO DE DECIDIR QUEM PODE E QUEM NÃO PODE SER MILITANTE DE CADA PARTIDO. OS QUE DISPENSAM A LIBERDADE DE PENSAMENTO, POR LHES FALTAR O AMOR À LIBERDADE E O HÁBITO DO PENSAMENTO, TENDEM A CONFUNDIR MILITÂNCIA COM OBEDIÊNCIA

Infelizmente, não basta mudar os militantes. Mesmo entre os cidadãos a divergência nos partidos é vista como sinal de desorganização e fraqueza. “Aquilo é um saco de gatos”, é o que se diz dos partidos em que há naturais conflitos políticos. A coisa vai até mais longe: qualquer divergência menor, mesmo sobre assuntos que não são estruturantes para a linha política e programática de um partido, é tratada como um problema. Quando militava no Bloco e tinha já esta coluna diária, lembro-me de quantas vezes a fidelidade partidária me foi cobrada por leitores, havendo mesmo quem ameaçasse deixar de votar no meu partido por divergir de uma opinião minha, tentando assim transformar-me num porta-voz permanente de uma posição coletiva. Devo dizer, em abono da verdade, que mais vezes me foi cobrada a fidelidade à linha oficial do partido fora dele do que dentro.

O PCP é, graças ao “centralismo democrático”, o único que aceita sem estranheza a punição disciplinar da divergência política. Nos restantes partidos, por mais que rosnem os “duartes marques” desta vida, é muito difícil (mas não impossível) expulsar alguém por delito de opinião. É por isso que, no PSD, anda muita gente à espera para saber como arranja uma maneira de tramar Pacheco Pereira. Sabem que no dia em que expulsarem Pacheco do PSD o valor das suas opiniões sobre o PSD desce muito. E o estrago que causa será muito menor.

Um rapaz que quer ser Duarte Marques no lugar de Duarte Marques – chama-se Albano Cunha e tem uma carreira imaculada na jota do Porto e de Vila Real – resolveu mostrar serviço e encontrou, como jovem advogado, uma boa desculpa: a nomeação de Pacheco Pereira para a administração da Fundação de Serralves (cargo que não será remunerado). Na realidade, esta queixa ao conselho de jurisdição da distrital de Lisboa do PSD funciona como uma confissão. Se a nomeação de um militante do PSD para um cargo público – que sendo de confiança política, não é um cargo político – por um governo do PS é inaceitável, supõe-se que a oposta também será verdadeira. Ou seja, os cargos públicos são para ser ocupados pela malta do partido, nunca por militantes de outras organizações. A queixa é um favor a Pacheco Pereira: para além de uma punição por delito de opinião, a sua expulsão seria a institucionalização estatutária dos “boys” e das “girls”. Tão obedientes como soldados, na esperança de verem premiadas as suas carreiras, provam a traição de Pacheco ao exibir o prémio que terá recebido do exército inimigo.

NOTA: ESPERO PELO FIM DA ENTREVISTA DA JOSÉ SÓCRATES PARA ESCREVER SOBRE ELA. FICA PARA OUTRO TEXTO

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Um pensamento sobre “Soldados oportunistas

  1. Ó do, dó, dó, dó esquece qualquer comentário sobre Sócrates porque nada que valha a pena sai da pequena pequenez dita acerca da imensa grandeza.
    Deixa as irreverentes observações de bébé político para as teres à mão quando jogares às graçolas com os amigos do eixo e deixa-nos ficar o pensamento desfrutando da coragem funda e inteligente pensamento de Sócrates ao qual só podes acrescentar ruído para o mesmo efeito que o salazarismo, no tempo da guerra, sobrepunha nas emissões da BBC.

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