Um monhé, uma preta, um cigano e uma cega

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 04/12/2015)

Pacheco Pereira

            Pacheco Pereira

Devem ou não as pessoas ser descritas pela sua cor, religião, limitações físicas ou etnia? Esta é uma discussão clássica na comunicação social com dois campos quase sempre definidos, entre aqueles que acham que é racismo designá-los por essas qualidades, e aqueles que acham que é relevante descrevê -los nestes termos. Neste último grupo há duas variantes, aqueles que acham que essa informação é importante, como é o meu caso, e aqueles que acham que assim os diminuem na sua condição. A informação é relevante porque a diferença contém informação e há muita hipocrisia em não dá-la quando ela está diante dos olhos de toda a gente. Parece que estamos incomodados por eles serem o que são.

Depois há uma componente que não é só informativa é cívica e ética. Claro que ser monhé, preto, cigano ou cego é relevante num mundo de caucasianos brancos (ou mais ou menos brancos) mais ou menos perfeitos dos sentidos e supostamente católicos, apostólicos, romanos e sedentários. Sucede que eu fico muito feliz por o Governo ter um monhé, uma preta, um cigano e uma cega, pressupondo que são competentes e dedicados à sua função, a mesma condição que se coloca aos caucasianos brancos, e não sei se algum ariano louro, que possam fazer parte do Governo. Aqui são todos iguais. Mas o Governo fica melhor porque cada uma destas condições corresponde a uma experiência específica e essa experiência enriquece cada um dos que a tem e, nalguns casos, essa riqueza tem directa relevância para os cargos que exercem, noutros não. Torna-os é pessoas diferentes de nós, porque viram outras coisas, sentiram outras coisas, seja de bom, seja de mau, e a última coisa que quero é pessoas de plástico a governar. Já chega e há demais.

“Monhé” é de todas as designações aquela que tem um claro conteúdo pejorativo, mas estou convencido de que é para o lado com que António Costa vive melhor. Filho de goês, e não de um goês qualquer (como se ser goês fosse na nossa história ser “qualquer”), escritor, militante comunista dos dias do risco, transporta consigo suficiente história e memória de outro mundo para isso o tornar diferente. Ele pode não o dizer, ou sequer o ter consciente, mas não há volta a dar, traz.

Quanto à ministra da Justiça, negra e angolana, teve suficiente e, mais que suficiente, contacto, pessoal e familiar, com o que foi o drama da descolonização e o subsequente duríssimo conflito político, para se ter “feito” com essas dificuldades e ter singrado num meio hostil para uma negra como é o português. Sim, porque os portugueses também são racistas, não todos, mas muitos.

No caso da secretária de Estado que é cega, essa é uma experiência que tem directa relevância para o exercício do seu cargo, e talvez por isso a classificação é mais comummente aceite como sendo informativa. Mas já se discutiria o ser cega se o cargo fosse diferente, como se os cegos não pudessem ser bons ministros das Finanças ou da Defesa. O máximo que se pode dizer é que muito poucos cegos chegariam a um cargo desses devido às maiores dificuldades que teriam que vencer quotidianamente.

Homens e mulheres com vida, turbulenta e pouco convencional, vista quase sempre de lado pelo olhar dos imbecis e dos carreiristas, são tudo menos os betinhos yuppies que no conforto das seus berços dourados, ou na ascensão social pelas carreiras das “jotas”, povoam uma parte da nossa vida política. Isto não tem a ver com a esquerda e a direita, mas com o desprezo e a minimização das dificuldades da vida que é natural em quem nunca as teve.

O Prémio Nobel da Economia deste ano, Angus Deaton, dizia isso mesmo quando afirmava que a experiência da pobreza dava olhos diferentes para se ver, compreender e dar importância à pobreza. Não é que todos devam ser pobres, mas quem teve dificuldades olha de um modo geral de forma diferente para as dificuldades dos outros, e isso faz muita falta na vida política demasiado liofilizada dos dias de hoje. Estes homens e mulheres conheceram essas dificuldades por terem cor na pele, serem de uma etnia diferente, ou terem uma limitação nos seus sentidos, e por isso a vida lhes foi mais difícil, e trazem consigo uma coragem especial que está antes da sua vida pública. Não precisam de a nomear, ela existe.

29 pensamentos sobre “Um monhé, uma preta, um cigano e uma cega

  1. Sou licenciado em História e lecciono há 30 anos e sempre que reflecte fá-lo com muita ponderação e sabe do que fala. Por isso, admiro e respeito muito o que diz e escreve. Sobretudo, quando foge ao pensamento convencional e acomodado. Só mesmo quem conhece “um pouco” da História da Humanidade poderá aquilatar as suas palavras. “Os convencionais”, esses!, estranham e ficam incomodados, coitados!
    As minhas mais sinceras saudações.

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  2. Senhor Pacheco Pereira, faço minhas as suas palavras, mas desculpe-me a ousadia em fazer uma rectificação. Penso que não estou em erro, mas não existe raça preta, mas sim raça negra, pois fui ensinado que tratar uma pessoa de raça negra por preto é um insulto, como chamar monhé a um indiano.

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    • O termo correcto é canarim! Por afecto os europeus tratavam os goeses por “caneco”. Do mesmo modo e tambem por afecto, os goeses tratavam os portugueses por “matrecos”!

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  3. Eu também concordo com Pacheco Pereira e acho excelente a sua crónica, quer na sua descrição da maior profundidade dessas pessoas, quer da importância de ter pessoas com riqueza intelectual, moral e de experiência de dificuldades no governo, por oposição a betinhos de plástico vomitando ideias vazias e imbecis com toda a arrogância. Aliás sou cada vez mais admiradora do Pacheco Pereira, pelo seu pensamento livre, as suas inteligente e pertinentes observações sobre o que nos cerca e a sua coragem. Só não concordo numa coisa: Sendo útil a informação de certas características das pessoas e não se devendo escondê-las, também não é preciso apontá-las descaradamente, usando termos pejorativos e coloquiais, no fundo para destacar o que já está à vista, sem ser preciso vir nas letras gordas dos jornais. Também há uma elegância que se deve manter nas coisas, que deve levar a escolher termos e palavras mais nobres. Não acho isso estúpido nem “politicamente correto”, no sentido pejorativo. Não concordo com a moda de “ser muito direto”, como se só por o ser houvesse valor no que se diz. Como diria o meu querido e saudoso pai, que faleceu faz hoje 49 anos: “Sinceridade a mais é má educação”. Assim, advogo o regresso a uma elegância doutros tempos e um pouco recuperada me novos termos que denotam mais respeito pelos outros e suas condições: Invisual em vez de cego, deficiente motor em vez de coxo, negro em vez de “preto”, de origem cigana em vez de “cigano”, idoso em vez de velho, deficiente mental em vez de doido, etc. E não é preciso agarrar-se aos termos “cega”, “preta”, etc., como se isso resumisse e contivesse o que a pessoa é. A verdade da pessoa está muito para além dessa condição ou característica. Para quem não percebe (e há muitos) a riqueza que pode estar nessas pessoas dadas as dificuldades das suas vidas, é limitativo e desrespeitador invocar a pessoa por essas simples palavras (com vi nos jornais). Como diria também o meu pai “A rainha de Inglaterra também vai à casa de banho como toda a gente, mas não é preciso falar nisso…”.

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  4. Pacheco Pereira com a idade parece estar cada vez mais refinado no comentário político . Fez bem em se ter afastado do arco do poder .Deu-lhe discernimento e clareza de ideias que se tornaram esclarecedoras e pedagógicas para os seus seguidores…Continue assim ,é de comentadores descomprometidos que precisamos.

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  5. Brilhante o artigo, no entanto, acho que é areia a mais para a camioneta, de pelo menos 75% dos Portugueses, isto sendo um pouco benevolente Preconceito há, sem dúvida, assim como intelecto para perceber o essencial, quanto a racismos, é um fenómeno que não pode ser analisado, sem ir ao fundo da questão, uma vez que as variantes são muito complexas.

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  6. O retrato do Senhor Pacheco,tem muito pouco a ver,com as espêctativas de milhões de portugueses.que foram enganados com a jugatãna do Senhor António Costa.Ele fez tudo para chegar à primeiro ministro.
    Estamos todos na espéctativa do que ele vai fazer ao país.Agora é só aguardar????

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  7. “Não precisam de a nomear, ela existe.”
    Perfeitamente dito. Sempre que alguém vê a necessidade de puxar pelos seus galões, imeditamente o vejo numa pior perspectiva. Quem não o faz jamais é que são as pessoas de maior valia para mim.

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  8. Que grande lucidez tem o José Pacheco Pereira! E como tão bem nos transmite o brilho da sua mensagem. Fico mais confortado quando leio as mesmas. OBRIGADO.

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  9. Pacheco Pereira é um estudioso muito inteligente, bem informado e esclarecido! não perco, desde há muito, a oportunidade de o ver na “quadratura do circulo” onde é o comentador k mais gosto de ouvir!as suas opiniões vão sempre mais fundo, e eu tenho aprendido muito com as suas intervenções, obr PP, bem haja.

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  10. Gosto deste Pacheco Pereira combativo e pedagógico e sabe a pouco. Precisavamos de livres pensadores no nosso terrenho. Não deixa de ser um estrangeirado, pois, de certo modo, os portugueses mais lúcidos são permeáveis às mulpiplas ideias que giram em tantos e varáveis areópagos. Mas Pacheco tem a experiência de um Eurodeputado e isso não é irrelevante. É um português, mas um letrado viajado, observador e pensador do ser humano e, sobretudo do homem político atual. Há uma evolução das suas ideias deste o engajamento que teve como filiado e deputado do PSD. Mas evoluiu e, hoje, é um homem livre. Sente a realidade política portuguesa e pensa-a com racionalidade e sentimento e isso faz a diferença de um mero comentador distraído ou vaidoso. Não, Pacheco Pereira interroga-se e interroga-nos no seu discurso, conduz-nos ao afloramente de uma ideia que nunca é apenas linear e, por isso, rica e onde tantos nos revemos. Alivia as nossas tenções e semeia em nós uma certa esperança mental e ética de que, apesar de tudo, ainda é possível pensar-se a nossa política sem as amarras da filiação. Diria que ele, hoje, é um senador e que colhe benefícios pessoais de ser um livre pensador diante da comunidade dos portugueses que se comprazem com as suas ideias. Só fora do sistema se pensa o sistema. Só estando de fora se pensa bem o dentro, porque já se esteve lá. Mas não é um qualquer que procede a essa psicanálise do fogo, não. São apenas os eleitos, aqueles que comunicam bem e o fazem na fluência de um discurso claro e sem recurso a metáforas ou alegorias rebuscadas, como outros procedem. Desejaria mais Pachecos Pereiras no nosso forum político e menos feira de vaidades de gente enfatuada e de retórica empolada que semeia o caos e a angústia de ser dirigido por gente tão pouco recomendável. Que a política seja um discurso limpo e que os políticos tenham a sedução da ética política. Este será um desiderato desde Platão, iluministas e dos novos pensadores. Que a política não seja apenas economia política. O político se rodeie de técnicos, mas que os compreenda o suficiente para não ser seu refém.

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  11. Gostaria de ver Pacheco Pereira a fazer uma analise deste tipo dos ex-governantes, quantos nasceram nas antigas colónias, quantos vieram de famiiias humildes, Quantos daqueles ao oriundos de familias de negros, cegos ou ciganos, ou de retornados.

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  12. “Brilhante, como sempre. Pacheco Pereira para Presidente !!!”
    Pois, caro Foucaut, ousa pô-lo a Presidente e verás como o seu brilhantismo lhe ofusca de imediato a razão e o pensamento exaltado e incensado sábio o tornará facilmente um forte candidato a déspota esclarecido.
    Empédocles, Pitágoras e Platão que eram mentes com provas dadas de verdadeiro brilhantismo tiveram de ser corridos dos povos a quem pretendiam ensinar a organização política e social.
    E quantas “mentes brilhantes” ao pé dos quais a pachecal figura nem sequer é uma nota de roda-pé, ao longo da História, não defenderam brilhantemente regimes odiondos?
    Uma coisa é raciocinar bem e alinhavar um texto com brilho literário outra é ser politicamente bom e honesto com com visão de futuro e, neste aspecto especialmente, pacheco tem sido uma perfeita nulidade e mesmo um atraso de vida para o país.
    Não precisamos nomear a sua bastarda total cumplicidade com cavaco e o piorio do cavaquismo, há registo de provas de que ela existiu mesmo.

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  13. Uma pequena ressalva! Nós os brâmanes é que somos arianos e que não há arianos loiros! Ler: Hitler e os segredos do nazismo – Vol. 1 – Sérgio Pereira Couto – Google Livros

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