O sorriso de Sá Carneiro

(José Miguel Júdice, in Expresso, 17/10/2015)

José Miguel Júdice

              José Miguel Júdice

(Nota: Consta que o filósofo grego Diógenes, discípulo de Aristóteles, se tornou mendigo e habitava as ruas de Atenas fazendo da pobreza extrema uma virtude. Nessas andanças, deambulava pela cidade durante o dia com uma lamparina acesa, alegando que se limitava a andar à procura de um homem honesto.
Nestes de dias de aceso debate sobre a situação política do país e as soluções governativas que se prefiguram, eu tenho lido as mais estapafúrdias opiniões de gente credenciada e bem falante, sobretudo de gente da área da Direita. Como só encontrava “tesourinhos” mais que deprimentes, muni-me da candeia de Diógenes. Estava farto de andar e não encontrava nem inteligência, quanto mais honestidade, e muito menos opinião que fosse além do panfleto alinhavado com o objetivo de, no imediato, entregar o Poder à PAF. Estava quase a desistir quando encontrei este texto de alguém que vem da área da direita mas que consegue somar dois mais dois e apresentar um raciocínio com princípio meio e fim: José Miguel Júdice. É, pelo menos, uma reflexão não subordinada a um objetivo tático de curto prazo sobre as condições de governabilidade do país. E por acaso, ou talvez não, vem de alguém que privou diretamente com Sá Carneiro, o tal político cujo pensamento este PSD esqueceu durante quatro anos, tendo-o enterrado definitivamente, rendido ao liberalismo radical dos seus parceiros da direita mais ultramontana. Aqui fica, pois. Estátua de Sal, 17/10/2015)


1 Há quase 40 anos — mesmo antes de Sá Carneiro e Freitas do Amaral terem criado a AD — que defendo que o equilíbrio homeostático do sistema político é mais bem servido pela bipolarização ao centro, a qual pressupõe acordos do PS com a sua esquerda. Defendi-o também no tempo do Bloco Central.

2 Defendi, também e designadamente desde a vitória de António Costa nas primárias do PS, que ele não deveria optar por se aliar a partidos à sua direita, por razões político-sociológicas que neste espaço limitado não consigo pormenorizar. Tendo ele perdido as eleições, ainda menos razões existem para o fazer.

3 É certo que Costa cometeu quase todos os erros do catálogo e transformou uma vitória anunciada numa derrota que o fragilizou; mas se daí (lhe) resultam grandes dificuldades, não se altera o essencial do que há tanto tempo defendo.

4 A integração do PCP e do BE no espaço da “cultura política” (ou “arco da governação”) é menos perigosa em tempo de protetorado, como o que vivemos, do que em tempos propícios ao “fartar vilanagem”. E é essencial ao funcionamento equilibrado do sistema.

5 Se Costa não tentasse esse acordo à esquerda, seguindo o seu instinto, estaria perdido (e o DNA da política é a arte e a pulsão de sobrevivência); e passaria a mensagem errada para a própria sobrevivência do PS, num caminho daquilo a que se vem chamando a “pasokização”. Mas se não conseguir chegar a acordos (depois de compreensivelmente a coligação ter cortado as negociações) também provavelmente não se aguentará no PS. Está a negociar sem alternativas o que reforça infelizmente o poder da extrema-esquerda.

6 Em todo o caso ainda bem que acabou a tentativa de cedência quase total do PSD/CDS ao programa PS para dessa forma conseguir governar. O que parece ter sido a matriz do esforço da coligação para evitar a abertura à esquerda, seria em termos sistémicos bem mais grave para os equilíbrios que a Europa nos exige do que o governo de esquerda: a coligação comprometer-se-ia com soluções inviáveis e o sistema ficaria num plano inclinado incontrolável, com a esquerda (incluindo parte substancial do PS) a exigir sempre mais, sem necessidade de ponderar o choque da realidade.

7 Como sempre quando se quebram tabus existe um momento de descontrolo mais ou menos pueril. Os “amanhãs que cantam”, o romantismo lacrimejante, o próprio erotismo da epifania, podem conjurar-se para um caminho para a decadência e a irrelevância da esquerda, após a festa e as fantasias… se quem manda em nós deixasse. Esse o problema e a solução: o Bloco e o PCP devem copiar o Tsipras de setembro e não o de janeiro.

8 A jogada de António Costa tem algo de prestidigitação, o que confirma o seu sentido tático e político; mas não mascara que ele foi o principal derrotado nas eleições legislativas. Se o PS tivesse mais 20 deputados, a abertura à esquerda seria feita muito mais nos seus próprios termos. Mas, como disse alguém, as coisas são o que são. E em todo o caso, mesmo sendo mais pequeno, o PS continua a ser um urso a abraçar os pequenitos.

9 O primeiro efeito deste acordo parece ser que agora Marcelo Rebelo de Sousa tem uma autoestrada sem trânsito para Belém. O mais dotado político da minha geração e o mais dotado na geração seguinte vão ter de reinventar o sistema político novo que nascerá de um governo de bipolarização à esquerda.

10 Depois da teoria do “partido natural do Governo”, tentando ocupar todo(s) o(s) centro(s), e que Soares, Guterres e Sócrates cada um ao seu modo tentaram concretizar, com António Costa chega a bipolarização perfeita, que há quase 40 anos venho defendendo. Sá Carneiro, lá onde estiver, deve estar a sorrir.

5 pensamentos sobre “O sorriso de Sá Carneiro

  1. Suspeito que o acordo à Esquerda vai falhar, porque a matriz dos dois Partidos BE e PCP é divergente da do PS. Eu até gostaria de ver um PS mais euro-cético, mas não é esse o seu ADN político. Provavelmente, Costa não sobreviverá a mais um falhanço, mas terá aberto caminhos novos e terá estancado, pelo menos por agora, a sangria à Esquerda, que deriva da recomposição (e radicalização) eleitoral em Portugal, em que mesmo o PSD perde para o BE. Ao PS não interessa qualquer acordo com a Direita, como a esta não interessa governar com um programa que não é o seu, e teria sido clarificador se Costa tivesse tornado isto claro desde o início deste processo. Ou chegava a acordo com a Esquerda, ou deixava passar o Programa de Governo da Direita e o seu primeiro Orçamento (na generalidade), de modo a salvaguardar a estabilidade política (mas a tolerância com o Governo seria mínima). Foi isto que disse na noite das eleições. E haverá até vantagens em deixar a Direita beber o seu Veneno até ao fim, em vez de ir para o Governo em posição de fraqueza e dependendo do Voto Favorável do BE e PCP em tudo, sobretudo se a situação económica for de facto muito pior do que pensamos. Neste cenário em que as negociações com o BE e PCP falham, o que acontece a seguir depende claro, de quem suceder a Costa. Um regresso de Seguro (ou dos seguristas, com um líder como Francisco Assis) alterará esta trajetória, provavelmente transformando o PS numa mera muleta da Direita, e levando à sua Pasokização. A este respeito, a posição de Zorrinho, do PS como suposto ‘Partido Progressista’ (conceito ambíguo) não faz sentido. A fratura entre Costa e Seguro era mais do que um simples conflito entre personalidades e equipas. Costa a seguir tergiversou, virando à Direita com o seu programa de Governo, talvez fruto do susto que apanhou com o Syriza, voltando a virar à Esquerda na Campanha. O PS tem que decidir. Ou recupera a sua Matriz Social-Democrata (com Costa ou mais provavelmente com um seu/sua Heideiro/a Político) ou se converte definitivamente ao Ordoliberalismo Alemão (como Hollande e Valls querem converter o PSF), o que o fará provavelmente definhar (mas quem sou eu para prever o futuro e o poder da analogia é limitado). Agora, se ficar no meio da Ponte, aí desaparece mesmo…

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  2. Um contributo inteligente de José Miguel Júdice. Não lhe peço nada nem ele me conhece. A inteligência…. não abunda por aí, deu lugar ao chico-espertismo que o Povo paga com língua-de-palmo !
    Não tenho quaisquer complexos de concordar com quem não me identifico, politicamente falando. Ele sabe , de longe, muito mais do que eu sei, pois estou resguardado desses meandros do polvo e do cherne.

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