RESSUSCITAR AO SÉTIMO MÊS

José Sócrates

      José Sócrates

António Costa, quando questionado sobre o que pensava sobre a hipótese de Sócrates ir para casa com pulseira electrónica, respondeu que não se pronunciava acerca de questões judiciais, já que, segundo ele, deve dar-se “à Justiça o que é da Justiça, à política o que é da política”.

Eu compreendo que o PS se queira demarcar de eventuais ilícitos que José Sócrates tenha cometido na qualidade de Primeiro-Ministro, tendo sido eleito para tal cargo na qualidade de secretário-geral do Partido Socialista.

Mas eu, que nunca fui, nem sou do PS, nem de qualquer outro partido do espectro político, não tenho nenhum incómodo em comentar o tema. Vamos, pois, por partes.

  1. Sócrates encontra-se em prisão preventiva desde Novembro de 2014, já lá vão, portanto sete meses, sem que se vislumbre qualquer acusação.
  2. O inquérito, ao que parece, iniciado já há três anos, continua a marinar.
  3. Os periódicos “amigos” da investigação vão continuando a avançar com indícios cada vez mais esquisitos e estranhos, pontas soltas que acabam por não ter nenhuma conclusão mas que apenas poluem o ar espalhando um véu de culpabilidade no ex-primeiro ministro.
  4. Apesar de, nos meses iniciais após a detenção de Sócrates em Évora, o assunto não ter saído da agenda mediática, alimentado por um acampamento de jornalistas e televisões à porta da prisão, de perseguições de microfone em riste aos advogados de defesa, mais as entrevistas que o próprio Sócrates foi dando por escrito, o que se estava a passar, nos últimos tempos, era que o tema “Sócrates”, estava em nítido declínio na atenção da opinião pública.
  5. Ora, esta proposta do Ministério Público, por muito benigna e misericordiosa que possa parecer para o arguido, e ainda que possa levar a opinião pública, errada mas compreensivelmente, a julgar que a culpabilidade de Sócrates não é assim tão elevada como se queria fazer crer, não altera substantivamente o facto de propor que Sócrates continue em prisão, ainda que em condições, à partida, menos gravosas.
  6. O mesmo já não acontece quanto à atenção mediática que está, de novo, a dar-se à problemática da detenção de Sócrates. As televisões não falam de outra coisa. Sócrates vai recusar ir para casa? Sócrates não gosta de pulseiras electrónicas? Sócrates tem o direito a querer continuar em Évora em vez de ir para casa? E por aí fora.
  7. Mas não é só sobre essas questões que surgem juristas, para-juristas, comentadores de primeira e de segunda a dar opinião. As televisões aproveitam para passar e repassar imagens da detenção, dos supostos indícios que durante meses os pasquins foram usando como manchete: ele é o Lena, ele é o motorista, ele é o Santos Silva, ele são árabes, ele são suíços, ele são brasileiros, ele é o Lula, ele é a mulher, ele é o Vale do Lobo, e agora é já um tal Bataglia que a Justiça investigou no caso dos submarinos ligado ao ministro Portas, mas que foi arquivado por obra e graça do Espírito Santo. Ainda vão sugerir que o caso dos submarinos e os milhões que foram distribuídos pelo Ricardo Salgado foram parar às mãos de Sócrates.
  8. Como só acredito no aleatório quando jogo no Euromilhões, e é por isso que nunca me sai nada, não acredito em coincidências.
  9. Recolocar o caso Sócrates nas parangonas do espaço mediático é a manobra que a Direita está a levar a cabo para tentar colar, na opinião pública, a suposta culpabilidade do ex-primeiro ministro, com a governação socialista, de forma a reduzir as possibilidades do PS nas próximas legislativas. E só pode estar a fazê-lo com a conivência da Justiça, de certa Justiça, e de certa comunicação social. Porque o ânimo de certa Justiça contra o ex-primeiro ministro, se dúvidas houvesse, ficou claro e transparente após ter sido conhecido o tipo de comentários que certos magistrados se deram ao luxo de trocar entre si nos seus diálogos, que julgavam ao abrigo de olhos indiscretos, no Facebook.
  10. António Costa não o pode dizer abertamente porque tal seria um suicídio político, mas eu posso dizê-lo sem qualquer rebuço.
  11. A Direita nada tem para oferecer ao País, nada a não ser uma agenda de medo, uma agenda de austeridade, uma agenda de pobreza. Passos Coelho diz que é previsível e que dá garantias. Acredito que dê. A garantia é que vai continuar a seguir a mesma política que tem seguido. Cortes e mais cortes. Mas sempre com tesoura voltada para o mesmo sítio: para os rendimentos do trabalho, e para as prestações sociais.
  12. Por isso, como não pode assumir tal agenda com a frontalidade necessária, precisa de desviar a atenção dos eleitores dos seus verdadeiros desígnios e intenções. Para que não se fale dos sem-abrigo, da fome, das penhoras de casas e salários, do desemprego e dos inactivos, dos jovens que emigram porque ele, e as suas políticas, lhes roubaram o futuro e a esperança.
  13. Falar de Sócrates, até ao vómito, é este o programa da Direita para tentar esconder as consequências da agenda criminosa que este Governo levou avante durante estes últimos quatro anos. E mais: é tentar justificar as suas acções e as suas políticas, com a suposta existência de uma má e corrupta governação socialista na anterior legislatura, que Coelho e os seus sequazes, quais anjos impolutos, teriam sido chamados a corrigir.
  14. Mas impolutos não são. As privatizações da REN, EDP, TAP, água estão a ser investigadas. O percurso de impressionante enriquecimento do inefável Marco António Costa, denunciado por alguém de dentro do PSD que deu a cara e pediu mesmo para ser ouvido pelo Ministério Público, não conhece desenlace digno de registo nem ocupa os microfones dos jornalistas. Os vistos Gold devem ter sido postos no frigorífico do Juiz Alexandre e, aposto, não terão qualquer desenvolvimento até às eleições. Já não falo na estranha situação de liberdade de Ricardo Salgado (sem pulseira?!), de Oliveira e Costa, e de Dias Loureiro, cujo processo, depois de ter sido constituído arguido há anos, continua em banho-maria, indo, provavelmente prescrever e submergir, tal como se de um submarino se tratasse.
  15. Mas duvida-se que se chegue a qualquer conclusão sobre tais casos enquanto este Governo não for afastado, o que dá bem conta da forma como a Justiça vai funcionando neste País. Por similitude com o que aconteceu com Vale e Azevedo: só depois de este largar a Presidência do Benfica é que a Justiça se dignou produzir consequências e a punir a sua gestão danosa.
  16. Neste contexto, talvez assim se perceba a razão por que, tão tenazmente, o PSD e o CDS teimam em não querer ser afastados da governação, com a conivência de Cavaco que, pasme-se, ameaça já manter o Governo em funções, caso não surja uma maioria absoluta a apoiar um futuro governo.
  17. É pois este cenário que urge denunciar, não permitindo que a opinião pública seja manipulada de forma tão primária, e que os portugueses se esqueçam, do que sofreram nestes quatro anos sob o látego da troika e desta comandita de gente impreparada e pouco séria.
  18. Sócrates pode ser culpado, mas deverá ser considerado inocente até ser julgado e condenado, tendo direito a defender-se de acordo com as regras do Estado de Direito. Mas dizer que a prisão de Sócrates não é um caso político e que se deve deixar a Justiça funcionar como se Sócrates fosse um preso de delito comum é pura filigrana e não passa de uma declaração “politicamente correcta” sem qualquer aderência à realidade.
  19. Julgar um ex-primeiro ministro não é a mesma coisa que julgar um vulgar e desconhecido carteirista, ainda mais quando os supostos crimes que terá cometido o foram no exercício das mais altas funções do Estado. A Direita sabe isso, a Justiça sabe isso, nós próprios todos sabemos isso e António Costa também sabe isso.
  20. E chegará, provavelmente, o dia em que António Costa não vai poder continuar a ignorar tal facto. Só espero que, quando tal suceder, não seja tarde demais. Até lá a Direita vai continuar a intoxicar os portugueses com a sua narrativa salvífica, e a desculpar a catástrofe social que provocou no País com a necessidade de corrigir a herança da governação socialista, correlacionando-a com os crimes que supostamente Sócrates terá cometido.
  21. É caso para dizer que, Sócrates, tem as costas largas. Mesmo muito largas.

Estátua de Sal, 08-06-2015

6 pensamentos sobre “RESSUSCITAR AO SÉTIMO MÊS

  1. Tenho dificuldade em acreditar em teorias da conspiração. Não quero acreditar que o poder judicial use conscientemente o caso Sócrates para assim prejudicar o PS eleitoralmente. O pensamento é livre, pode-se teorizar sobre isso. As cenas dos próximos capítulos poderão esclarecer alguma coisa a este respeito.

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  2. A mistura entre o que os media fazem e o que os juizes decidem presume uma Central de Mentes a decidirem tudo . Não será rebuscado demais mesmo para mentes brilhantes?
    Caso haja influencia na decisão judicial da proximidade das eleiçoes não me parece demais: afinal não estamos a julgar um simples carteirista, não acha?

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    • Eu faço como o Sherlock Holmes ou como o Frade Guilherme do Nome da Rosa. Raciocínio abdutivo. A quem beneficia certa medida ou decisão, tomada num certo momento do tempo? A não ser que seja um terramoto ou um tsunami provocado pela Natureza, nas coisas de decisão humana, não acredito em coincidências. É um vício que tenho.

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  3. Existem montes de processos judiciais em que elementos deste governo (ministros e gente de segunda linha, menos conhecida mas fiel) estão envolvidos. No entanto, as fugas de segredo de justiça que vemos escarrapachadas nos jornais todos os dias são sempre do mesmo processo e acerca do mesmo cidadão : Socrates. São também cada vez mais mirabolantes. Eu também não acreditava em teorias da conspiração, mas ao fim de 3 anos de investigação mais 7 meses de prisão e ainda não há acusação formada, mas todos os dias há fugas cirurgicamente colocadas para dar a impressão de culpabilidade, e toda a gente acha isto normal?!
    Estaremos assim tão anestesiados e embrutecidos que não nos interroguemos pelo menos uma vez se tudo isto não será circo montado por causa das eleições , com a ajuda de uma justiça podre e desonesta ? Porque é que pensamos que todos que os juizes e procuradores são umas virgens impolutas que não guardam rancores, não decidem mal e de forma incompetente e não tem ódios e preconceitos como qualquer outro cidadão pode ter, quando temos frequentes exemplos disso mesmo nos jornais?
    Meus caros, Socrates pode até ser culpado de alguma coisa ( ainda ninguém conseguiu perceber exactamente do que) mas o que todos já percebemos é que o ministério publico não têm provas nenhumas daquilo que o quer acusar. E como dá jeito associar o caso ao PS, vai protelando a prisão e vai alimentando a chama com as fugas constantes. A imprensa amiga faz o resto. Não querer perceber isto, não querer ver o que está á frente dos nossos narizes é não perceber de todo como esta direita entranhada na nossa sociedade tem funcionado desde 1930. Até hoje. Eles nunca nos deixaram. Essa é que é essa.

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