A solidão das lutas

(José Pacheco Pereira, in Revista Sábado, 22/05/2015)

Pacheco Pereira

              Pacheco Pereira

Hoje quem luta e quem reivindica está sempre sozinho. Pode contar consigo ou com os seus e nada mais. Os mecanismos clássicos que geravam solidariedade foram erodidos na sociedade durante várias décadas e praticamente destruídos pela crise do “ajustamento”. Há excepções, mas esta é a regra.

Isto significa que todas as lutas parecem ser corporativas, mesmo quando não o são. Esta “corporativização” dos conflitos sociais enfraquece o seu impacto, dá-lhes uma dimensão que parece, vista de fora, egoísta, e dificulta, quando não impossibilita, qualquer solidariedade activa. Cada um, a seu tempo, quando precisa de lutar, protestar, pura e simplesmente levantar-se e dizer que “não”, vai pagar na sua solidão a indiferença que teve pelos outros.

A dança de Guimarães e o vota no castelo
Não se vai de Lisboa a Guimarães fazer política impunemente. É uma viagem cheia de responsabilidades e acima de tudo cheia de ambiguidades. Há muitos anos ainda havia PREC, existia um partido de extrema-esquerda, a Aliança Operário -Camponesa (AOC), que tinha como símbolo o castelo de Guimarães e o slogan “vota no castelo”. Estávamos na época dos dois imperialismos, o americano e o soviético, e Cunhal e Brejnev personificavam este último, na altura o que era tido como mais perigoso. Era uma interpretação caseira de um maoísmo nacionalista anti-social-imperialista. Logo, os verdadeiros patriotas tinham de “votar no castelo” para defenestrar Cunhal e os seus lacaios. A AOC desapareceu com o fim do PREC, mas o “castelo” continuava lá.

Nos anos seguintes até aos dias de hoje, foi a extrema-direita que foi lá a Guimarães para junto do castelo fazer uns números de nostalgia do braço ao alto, agora em nome do “nacionalismo revolucionário”. Uns 20 ou 30 militantes do PNR já lá foram mais do que uma vez também atraídos pelo “castelo”, que não tem culpa nenhuma. Nem o castelo, nem Guimarães, nem D. Afonso Henriques, nem muito menos a Pátria.

Mas custa ver a nova coligação PSD-CDS voltar também ao “castelo” para “celebrar” um ano de saída da troika de Portugal e fazer mais um acto de propaganda eleitoral à sombra do esquecimento e da falta de vergonha. Na verdade, pouca gente em Portugal se comportou mais do que Passos e Portas como representantes fiéis e dedicados de um internacionalismo europeu que está a erodir a nossa democracia e que, já de há muito, colocou em causa a nossa independência nacional. Já estamos muito esquecidos, mas se Sócrates “chamou” a troika, foi não só com a assinatura conjunta do PSD e do CDS, como com a colaboração entusiástica de Passos e menos entusiástica de Portas, mas mesmo assim colaboração.

É um prémio à desresponsabilização e ao vale-tudo esquecer que em particular Passos-Catroga-Moedas manifestaram várias vezes uma concordância plena com as políticas da troika, que não entendiam como uma política imposta de emergência e de passagem, mas como o modelo benéfico e exemplar de transformação de um País perdulário e gastador num disciplinado e puritano aluno da senhora Merkel. E não, os perdulários e gastadores não eram Sócrates e os socialistas em geral, mas os portugueses. Sim, os portugueses.

Portas, por seu lado, tornou-se o arauto do “protectorado”, primeiro dito de forma genérica, depois corrigido para a fórmula de “protectorado financeiro”, que lhe permitiu aquele teatro ridículo do relógio na sede do CDS. Mas se antes éramos um “protectorado” porque é que agora deixámos de o ser? A saída da troika significa acaso alguma “independência” orçamental num País cujo parlamento perdeu o papel essencial de fazer o seu orçamento e sobre o qual existe um direito de veto alheio? O CDS bem pode andar de bandeira nacional na mão, que nele deixou de ser bandeira para ser apenas uma bandeirinha de lapela, e bem pequena por sinal.

O que é que estão estes homens a fazer em Guimarães? Dançam a ver se chovem votos. Se for preciso vestirem-se de mineiros e irem de braço dado, cravo ao peito, entoar um cante alentejano em terras de Catarina também vão. Na verdade vão a todas. E o problema é mais nosso do que deles.

O Vasco Graça Moura morreu há pouco mais de um ano…
…e não concebo melhor homenagem que se lhe possa fazer do que continuar lutando contra esse ataque à língua portuguesa que é o Acordo Ortográfico. Devia haver um referendo sobre o Acordo, mas os homens do “vota no castelo”, os apátridas da língua, têm medo de o perder. Mas há muito que se pode fazer. Muita gente já o está a fazer, sob a forma de uma desobediência cívica exemplar: recusar-se a escrever segundo as suas normas e assim proclamar que “o meu amor à língua portuguesa não pára”. Com acento.

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4 pensamentos sobre “A solidão das lutas

  1. Muito bom, excelente, de oiro as palavras deste homem. Já era altura do referendo ser tido em conta. Provavelmente temos um Ministério da Educação demasiado comprometido com a real politic e a falta que nos faz um Ministério da Cultura. Mas não se pode pressionar uma comissão parlamentar?

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  2. José Pacheco Pereira tem tido na sociedade um papel único, aquele que uma velha ideia de educação liberal permitia conciliar o conhecimento com a formação de carácter. Esses tempos perderam-se em grande parte, pela desistência de muitos intelectuais, que na verdade não o são. O papel de cidadania de Pacheco Pereira é de grande valor, por ser quase único e por nos demonstrar os elementos, as sombras com que o poder e as oligarquias partidárias se alimentam. Muitos julgam-no apenas como opositor ao governo, quando ele “apenas” pretende desmontar a realidade para uma ideia de sociedade mais decente. A oposição, se vier a subir ao palanque perceberá nessa altura que ele fala da essência real de uma respiração que se perdeu e que importa compreender, para que se possa ver o dia com mais nitidez. Os seus textos e a sua intervenção são uma referência de análise e de lucidez. Obrigado!

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    • A 100% de acordo consigo. Dá um certo deleite constatar que ainda há quem “saiba pensar”. É pena é que sejam cada vez mais raros. Não está a ocorrer renovação destes intelectuais “dinossauros”. Os que vão surgindo não passam de “bem comportados debitadores de frases feitas”. Sem laivo de crítica, criatividade, ou pensamento próprio. Indigentes mentais, sem grelha capaz de descodificar o mundo e os seus fenómenos 20 centímetros além dos seus pequenos narizes de narcisos. É ver a “intelectualidade” anã que pulula pelo Observador.

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