Meu caro Pan

(José Pacheco Pereira, in Revista Sábado, 15/05/2015)

Pacheco Pereira

              Pacheco Pereira

Tu é que estás ao contrário do mundo, nessa penitenciária Austrália, mas eu é que estou a ver tudo ao contrário.

Nada se passa por cá que não seja campanha eleitoral, graças ao senhor Presidente da República que entendeu que o Governo deveria ter até ao último segundo de vida, a ver se conseguia o milagre da multiplicação dos votos e da secagem dos poços da oposição. Resolveu também criar um gigantesco sarilho para si próprio, pré-anunciando decisões para a altura em que não tem poderes para as executar. Deixou também que as eleições se fizessem num tempo altamente perturbador para o Orçamento, ele que tão racional pretende ser em matérias económicas. Ele que entende que o sistema de prazos eleitorais português é altamente burocrático e certamente olha com inveja para os ingleses e os gregos, que decidem eleições hoje, fazem-nas em 15 dias e dois dias depois têm novo governo. O que é que se passou? Está o mundo ao contrário. E não é na Austrália.

Tivemos uma greve na TAP, aquela que tu conhecias como take another plane, uma greve, para dizer o mínimo, estranhíssima. Não se percebe nada do que se passa com os pilotos que fizeram greve, ainda assim um número mais considerável do que o Governo tem pretendido porque se fica numa estatística dos voos “previstos”. “Previstos” quando, antes ou depois de começar a greve? Os que estavam no horário? E descontaram os serviços mínimos na estatística dos “previstos”? Essa manipulação da estatística é o habitual, aqui o mundo está solidamente no sítio. Mas porque é que isto tudo se passou? Como se chegou aqui? O que é que realmente está em causa na privatização? Por que razão o Governo não falou com o PS? Já tinha (e tem) compromissos não se sabe com quem? São as contas da TAP aquelas que foram divulgadas ou estão maquilhadas, como dizem os pilotos? Tudo muito esquisito.

Claro que há coisas muito normais. Uma é que como a greve foi universalmente condenada, incluindo CGTP, PCP e BE, serviu, às mil maravilhas, para estabelecer um discurso que, mais do que contra a greve dos pilotos, é contra as greves em geral. Só se podem fazer greves “sem prejuízos”? Sem transtorno? O que é uma greve “irresponsável” e como se distingue de uma “responsável”? A julgar pelo que foi dito, toda a gente faz lip service ao direito constitucional à greve, mas depois só pode haver greves inócuas ou simbólicas, um dispêndio de esforços e dinheiro para os grevistas.

Presumo que os teus aborígenes não façam greve, embora sejam tudo menos pacíficos, mas vai lá explicar a esses duros sindicalistas dessa tua terra de passagem, que greves só amáveis e fofas. Como bons aussies devem-te responder com palavras irreproduzíveis numa correspondência civilizada. Diz-lhes, pois, que, no outro lado do mundo, há um país virado do avesso que se chama Portugal. Mas que se quiserem cá vir verifiquem se a Qantas está a voar, visto que em 2011 um conflito laboral incluindo um lockout patronal pôs todos os aviões no chão. Parece que a companhia perdeu à volta de 180 milhões de euros. No século XIX? Não, em 2011.

Também por cá temos a única coligação no mundo que é fã de As Cinquenta Sombras de Grey. Um gosta de bater, o outro de ser humilhado em público, numa interessante manifestação de sadomasoquismo político. Mas amam-se muito, só que desta forma peculiar.

Um diz “fizeste isso assim” (não se faz!), o outro diz “mentira, foi feito de outra maneira”.
“Fizeste por SMS.”

“Não. Fiz por carta. Não podias ter contado a tua não-vida daqui a 10 anos e deixar-me em sossego?”

“Mas o que fizeste foi mesmo isso que eu digo que fizeste e isso não se faz.”

“Perdoa-me. Fiz, mas já não faço outra vez, prometo.”

“Mas essa é uma decisão irrevogável?”

“É.”

“Então vais fazer outra vez.”

O velho secretário anotou: “Silva o látego no ar miasmático.”

A jovem assessora gritou: “Ai minha Nossa Senhora, ele bateu-lhe!”

Se calhar é um elo mais forte do que se pensa.

O que é que se há-de fazer com esta dissolução dos costumes? Eles explicam: “A coligação é instrumental.” Está bem. Instrumental. Meu bom Pan, nem nas tuas leituras mais perversas encontraste disto.

Desejo tudo de bom e no sentido da lei da gravidade. Não escapes para o espaço, nem saltes com muita força. Nós por cá todos bem. Ao contrário.

Do teu amigo português.

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Um pensamento sobre “Meu caro Pan

  1. Anda pacheco, busca pacheco!
    O pacheco cheiracus de cavaco e durão apoiou ferozmente a invasão do Iraque e disparou as suas balas escritas contra críticos de durão como Mário Soares de quem fez chacota por este ter desfilado na Av. da Liberdade contra a guerra.
    Há cerca de ano e meio estava ao lado do mesmo ‘velhote’ Mário Soares na Aula Magna contra este governo apoiado por cavaco e durão.

    O pacheco velho apoiante, companheiro e amigo de duarte lima e toda crapulagem que deu o “golpe do BPN” e grande lambecu do cavaco durante décadas anda agora, revoltado e furioso, a atirar balas assassinas contra esses seus antigos amigos, companheiros e correligionários do poder para mamar impunemente nas tetas do pote.
    Ah!! ganda pacheco, anda pacheco, força pacheco, busca pacheco!

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