Propaganda e “queda das oligarquias”

(José Pacheco Pereira, in Público, 11/04/2015)

Pacheco Pereira

              Pacheco Pereira

Os trabalhadores nunca são nomeados quando se fala de economia. A economia é os empresários, mais, aliás, do que as próprias empresas.

O avolumar da propaganda eleitoral do Governo tem sido enorme nestes últimos dias. Aliás, já não há verdadeiramente actividade governativa a não ser sessões de propaganda, umas a seguir às outras.

Na quinta-feira, por exemplo, foram horas sobre horas de transmissão televisiva das intervenções propagandísticas numa reunião feita em nome da necessidade de investimento estrangeiro. Eu digo em nome, porque se multiplicam reuniões-pretexto deste tipo, organizadas pelo próprio Governo, usando, por exemplo, o AICEP, uma das instituições públicas que mais têm sido palco da propaganda governamental com dinheiro público. Gostava, aliás, de saber quantos investidores estrangeiros estavam presentes e como suportaram os longuíssimos discursos (Passos Coelho) e as picardias luso-portuguesas para a oposição (Paulo Portas). Deviam aprender com Zeinal Bava, que fazia muito melhor, caso o objectivo fosse convencer mesmo investidores, mas não era… Na verdade, não era para “eles” que tudo isso se fez, era para nós.

Quando não é o AICEP, o Governo subsidia e apoia de muitas formas sessões semelhantes patrocinadas ou pela imprensa económica ou por associações empresariais, que funcionam como palco para Presidente da República, primeiro-ministro, vice-primeiro-ministro e ministros vários, da Economia e das Finanças em particular, irem lá falar de um Portugal fictício, amputado dos portugueses.

Os órgãos de comunicação têm sido muito pouco selectivos na cobertura destes eventos, o que já não é de agora, e, portanto, a propaganda tem eco. Sócrates tinha idêntico modus operandi. Mesmo que os governantes e porta-vozes partidários não digam nada de novo, têm uma grande cobertura televisiva, embora seja interessante ver como nos jornais generalistas, onde há maior triagem do interesse jornalístico, e menos espaço, a cobertura é menor, até porque toda a gente já percebeu que “nós por cá todos bem”. No meio disto tudo, o principal partido da oposição responde com os mais pífios cartazes que é possível ter, umas coisas delicodoces com velhinhos abraçados e uns jovens muito alegres, limpinhos e saudáveis a divertir-se com conta, peso e medida. Da próxima vez espero que coloquem gatinhos ou ursinhos de peluche.

O retrato que é feito de Portugal nestas reuniões de propaganda é espantoso e mereceria toda a história de O Rei Vai Nu. Porém, já há muito poucos miúdos irreverentes e os que, desesperados perante as falsificações governamentais, gritam por todo o lado que as gloriosas vestes do poder não existem são tratados como uns radicais cansativos que deviam “aprender” com o Syriza que não há alternativa.

Esta propaganda tem aspectos interessantes e que merecem ser analisados, até porque alguns dos temas vão sobreviver a este Governo, dando à nossa direita, dos novos e antigos interesses, um vade mecum ideológico que amplia e legitima esta propaganda. O seu “aparelho ideológico” e os seus “intelectuais orgânicos” (muitos dos quais são jornalistas e autores de blogues pró-governamentais) e os vários think tanks que surgiram em algumas universidades, dotados de financiamentos vindos de grandes empresas, movem-se com grande desenvoltura, porque nunca tinham tido tanto “conforto”, para usar uma expressão habitual de Passos Coelho.

A circulação pelo poder como assessores, membros de gabinetes governamentais, nomeações para cargos à revelia de qualquer currículo e controlo da Cresap, a utilização como extensão de poder de fundações como a luso-americana, consultorias, o patrocínio de encomendas, estudos e pareceres vai de vento em popa, de novo, numa forma muito parecida com o que aconteceu nos tempos de Sócrates. Esta máquina de replicação e eco faz desde o sale boulot (como, por exemplo, o ataque com base em falsidades a Sampaio da Nóvoa), atirando a tudo o que mexe e que possa perturbar o actual poder, até à prosápia científica de que eles é que são “a sério” e os outros são ligeiros divulgadores. Um dos poucos académicos que contrariaram as falácias de poder em matéria constitucional, Reis Novais, foi também assim tratado.

No meio deste ambiente de chantagem, exige-se por isso confrontar a nuvem de propaganda que cai em cima de nós todos os dias, fazendo o papel de, pela palavra, mostrar quais são as vestimentas do rei. Por exemplo, um aspecto interessante deste discurso propagandístico e da visão do país que transporta consigo é aquilo a que eu tenho chamado “um marxismo grosseiro”, em que a classe de vanguarda senhora da História são os “empresários”, lutando contra os vícios do sistema, um dos quais é o “alto custo do factor trabalho”, outro é o Estado e outro é esta coisa absurda de ainda haver greves.

Os trabalhadores nunca são nomeados, quando se fala de economia. A economia é os empresários, mais, aliás, do que as próprias empresas, isto numa semana em que um estudo internacional revelava o papel da incompetência dos empresários portugueses na má qualidade da gestão e na falta de competitividade. Sim, os empresários e não os trabalhadores, nem os sindicatos, nem as greves, nem o “alto custo do factor trabalho” que o primeiro-ministro promete disciplinar na próxima legislatura, mas que duvido apareça no programa eleitoral.

Na reunião do AICEP o primeiro-ministro fez uma longa exposição muito baseada numa espécie de mambo-jambo económico na base da qual ele interpreta a sua missão salvífica para o país. E, sempre que fala muito tempo, vem ao de cima a mistura de ideias simples, erros históricos e puras afirmações de propaganda. Desta vez, começou com o condicionamento industrial, essa cedência de Salazar ao estatismo, para repetir ad nauseamelogios a si próprio como “libertador” da economia do Estado e dos maus portugueses.

Sugeriu que Portugal seria a nova Singapura da Europa, uma das economias do “mundo” em que mais sentido tem investir. Os chineses sabem disso, ou melhor, sabem de outras coisas pouco nomeáveis. A viragem para o crescimento (de quê?) é dada como adquirida e posta em risco apenas pela possibilidade de retorno ao poder dos “mesmos” que levaram o país à bancarrota. Porque será que os portugueses são assim tão ingratos face ao nosso Bolívar da economia? Talvez porque em todo o discurso não há uma palavra sobre o papel da sociedade, dos portugueses, dos trabalhadores, e as “dificuldades” são apenas um aspecto do caminho da salvação – sofre e libertar-te-ás. Não há almoços grátis, pelo que é melhor não almoçares. Nem hoje, nem amanhã, nem depois e talvez daqui a cinco anos tenhas um pão que finalmente mereces.

Para se ser salvífico tem de haver um nítido antes e depois, separados pela espada luminosa da moralidade e da justiça. Uma das lendas de O Rei Vai Nué que havia em Portugal uma “oligarquia” que mandava em tudo, e que caiu do seu trono, sendo substituída pela encarnação dos portugueses “libertados” do jugo dos interesses, a quem não querem chamar “povo”, mas que é o mais próximo da encarnação do conceito maurrasiano do “país real”: os jovens “empreendedores”, os empresários, os exportadores, os não-piegas.

Para dar uma conotação moral ao que se está a passar. O Governo Passos Coelho e os “ajustadores” não teriam apenas feito uma ruptura com uma economia de bancarrota, estatal, e esbanjadora, mas teriam também limpado moralmente o país daqueles que mandavam por direito social, essa “oligarquia” dos poderosos, uma amálgama dos poderosos que caíram em desgraça no BES e na PT (mas não no BPN…), os “donos disto tudo”, em conluio com os socialistas corruptos, cujo líder mais recente está na cadeia (os do passado são sugeridos a partir de Macau), os oligarcas da opinião, veja-se Marcelo, os antigos PSD que ainda acham que são sociais-democratas e, de um modo geral, os “velhos do Restelo” que desconfiam da regeneração moral portas-passista. Estranho albergue espanhol!

Claro que Ricardo Salgado era um oligarca, mas Ricciardi não é; Granadeiro era-o, mas Carrapatoso não é; Jardim Gonçalves era-o, mas Paulo Teixeira Pinto não é; Armando Vara era-o, mas Ângelo Correia não é; e por aí adiante. Depois, a rede da sucata é estrutural da relação perversa do passado entre os interesses económicos e o poder político, a dos vistos gold, uma anomalia com que este Governo nada tem a ver.

Este tipo de “análises” tem uma função que é abrir caminho para as novas redes de poder, dando uma justificação moral para a “renovação”. Um pouco por todo o lado, o que se observa é que o mesmo tipo de movimentações de sempre está em curso. Mudam as figuras? Nalguns casos. São diferentes os métodos? Nalguns casos. Mas encontramos sempre a mesma simbiose entre a partidocracia e o abuso do poder, o favorecimento dos “nossos” e o anátema dos “deles”. Portugal está muito diferente? Está, mas não é aqui.

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