Os imortais, os imorais

(Pedro Santos Guerreiro, Expresso, 03/04/2015)

Pedro Santos Guerreiro

                  Pedro Santos Guerreiro

E então Oliveira citou Twain: “Prefiro o paraíso pelo clima e o inferno pelas companhias”. Num dia como hoje, os assuntos quotidianos são só assuntos quotidianos. Mas hoje vamos a eles. Porque é até entoar a sua graça dizer que quando Oliveira morre tudo fica pequeno. A desgraça é acrescentar o pior: que ficam os pequenos. Sejamos cruéis, falemos de tudo isto, dos vistos gold, listas VIP e escritórios de advogados.

A exaltação dos que acabam de morrer é muitas vezes oportunismo irrefletido mas só é ofensivo se for hipócrita. Se não, é partilha, é o princípio da busca e, nisso, é o princípio da descoberta. Se o choro coletivizado nas redes sociais por Herberto e Oliveira — dois autores, aliás, impopularizáveis — servir para que mais gente os descubra e ame, então a exaltação é melhor do que a estatuária.

Mas serve também de escala. Homens como aqueles são possíveis e a nossa galeria de admirações nunca é tarefa acabada, precisa e deseja de gente viva. Mas depois das páginas 4 e 5 desta edição vêm páginas com notícias sem imortais.

Os casos são todos desta semana. Miguel Macedo, segundo o jornal “i”, foi investigado pelo Ministério Público, que encontrou indícios do crime de prevaricação no caso dos vistos gold. Prevaricação não é corrupção nem tráfico de influências, é agir de modo contrário ao interesse público (foi por este crime que Maria de Lurdes Rodrigues foi condenada). Macedo não é sequer arguido, no que parece ser uma nova política do Ministério Público de deixar os suspeitos à torreira do sol enquanto constrói o caso. Mas o acórdão fala de encontros, telefonemas, jantares, presentes que destroem a carapaça que Miguel Macedo construiu para si mesmo quando se demitiu do Governo. Uma demissão é um ato honrado, mas não de imunidade; é uma consequência política, não um saneamento da responsabilidade. Veremos.

Prevaricação é ser amigo do seu amigo, dando uma mão, abrindo uma porta, fazendo um telefonema para a pessoa certa. São os “facilitadores”, nome detestável para um detestável modo de ser que se infiltrou na política como minhocas nas maçãs. Facilitam negócios, contactos ou cursos na Lusófona (Miguel Relvas foi um de 153 que o terão feito, segundo o Ministério da Educação). O escritório de advogados de Luís Montenegro, segundo a TVI, ganhou contratos de 70 mil euros por ajuste direto da Câmara de Espinho, de cuja Assembleia Municipal o próprio Montenegro foi presidente. Outro escritório de advogados, o de Aguiar Branco, promove negócios nos países que o ministro visita.

Este é o mesmo país onde há funcionários do Fisco a aceder a dados de contribuintes de forma ilegal e descontrolada, alguns por curiosidade, outros porque talvez os queiram vender. Os vistos gold encherem cofres em Portugal, por venda de cidadania europeia, mas encheram também bolsos de intermediários. Na semana passada, o Expresso entrevistou um empresário do Porto, Ricardo Costa, que ganhou um prémio da Christie’s pelo desempenho na venda de imóveis de luxo, sobretudo a estrangeiros. Quando lhe perguntámos se o negócios vinha dos vistos gold, ele respondeu: “Isso é um fenómeno de Lisboa, suportado pelos escritórios de advogados.” Ele lá sabe. Nós também. Qual foi o escritório que mais negócio fez nos vistos gold? O de Marques Mendes, um prodigioso “fazedor de chuva”.

Emparedar estes casos entre referências à morte de Manoel de Oliveira é talvez crueldade mas não é insídia. É comparação entre o que houve e que o há — e que pode haver. São as pessoas que fazem a política e a arte, não é a política e a arte que fazem as pessoas.

Se todos os casos aqui citados são do PSD, é temporalidade. É o PSD que está no poder, com o PS não foi diferente. Terá de ser sempre o mesmo? E então Oliveira citou o padre António Vieira: “Terrível lavra é um ‘Non’. Não tem direito nem avesso. Por qualquer lado que o tomeis sempre soa e diz o mesmo.” ‘Non’ é o não em capicua, é sempre o mesmo, é sempre a afirmação pela negativa, é sempre o “‘Non’ ou a Vã Glória de Mandar”.

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