O mistério do desemprego. Ou não há mistério?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 30/03/2015)

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Depois de nove trimestres a descer, o desemprego parece estar apostado em desmentir o discurso otimista do Governo sobre a retoma económica. Basicamente, a retoma está a criar menos empregos do que aqueles que está a destruir. Logo, a taxa de desemprego cresce. Pedro Passos Coelho vai ter de adaptar o seu discurso a esta nova realidade.

Ninguém se esquece que a taxa de desemprego chegou a ultrapassar os 17% nos últimos meses de 2013 e foi um dos danos colaterais do ajustamento que surpreendeu o ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e a própria troika. Contudo, no final de 2014 já tinha caído para 13,9% e os responsáveis governativos, embora sublinhando sempre que o valor continuava a ser demasiado elevado, apontavam-na como a confirmação de que as medidas de austeridade estavam a resultar: economia a crescer, desemprego a diminuir.

Contudo, desde novembro de 2014, a taxa de desemprego não para de crescer. Com efeito, desde que o INE passou a divulgar mensalmente este indicador (até aí só o fazia trimestralmente), o valor registado foi de 13,6% em outubro, 13,5% em Novembro – e desde aí foi sempre a subir, atingindo em fevereiro 14,1%. Além disso, o INE reviu o valor de Janeiro, passando-o de 13,3% para 13,8%. Apesar desta tendência crescente, a taxa de desemprego em fevereiro deste ano é ainda inferior à de fevereiro do ano passado, quando estava em 14,9%.

Quatro anos depois do início do programa de ajustamento e nove meses depois do seu término oficial, Portugal está indiscutivelmente pior no número e na qualidade dos empregos criados, enquanto o desemprego volta a crescer. Não é animador

Segundo o INE, este evolução resulta de duas tendências: diminuição da população empregada (0,3% em relação a janeiro, menos 11,1 mil pessoas com postos de trabalho, num total de 4,4 milhões de pessoas); a população desempregada aumentou 1,7% face ao mês anterior. Ao mesmo tempo, a população desempregada aumentou 1,7% face ao mês anterior (11,7 mil pessoas), num total de 719,6 mil desempregados.

São apenas três meses mas a evolução não deixa de ser preocupante. E mais preocupante se tornam as coisas se olharmos para o que nos diz o Barómetro das Crises, que sublinha quatro pontos: 1) pela primeira vez, os valores do desemprego «não oficial» (número de desempregados não reconhecido pelos estatísticas)ultrapassaram os números do desemprego «oficial»; 2) tendo em conta as diversas formas de desemprego, o subemprego e os novos emigrantes, a taxa real de desemprego poderá situar-se em 29% no segundo semestre de 2014; 3) é mais adequado falar-se numa situação de estabilização do desemprego em níveis bastante elevados e uma estabilização do emprego num nível bem mais reduzido do que o estimado no programa de ajustamento; 4) o desemprego atual é um desemprego mais desprotegido do que antes do programa de ajustamento, enquanto o emprego gerado assenta sobretudo em atividades precárias, em estágios financiados publicamente, mal remunerados e sem perspetiva de continuidade e de inserção no mercado de trabalho.

Em conclusão: quatro anos depois do início do programa de ajustamento e nove meses depois do seu término oficial, Portugal está indiscutivelmente pior no número e na qualidade dos empregos criados, enquanto o desemprego volta a crescer. Não é animador.

Um pensamento sobre “O mistério do desemprego. Ou não há mistério?

  1. Não é animador, mas é revelador: estes são os efeitos pretendidos, nunca foram outros: substituir força de trabalho estável (com direitos) por força de trabalho precária, salários mais baixos.

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