Maria Luís, tranquila, e de cofres cheios

(Nicolau Santos, Expresso Diário, 20/03/2015)

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A ministra das Finanças anda feliz. Não saberemos seguramente todas as razões mas uma tem certamente a ver com os resultados da sua atuação à frente do Ministério das Finanças. É que Maria Luís orgulha-se de ter os cofres cheios – os dela não, os do país. É uma nova versão da imorredoura frase do líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, «a vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor». Ou então um «remake» do samba brasileiro onde se cantava «Alegria! Alegria! Minha gente alegria! O cruzeiro está mais forte e a barriga vai vazia!»

A vida dos cidadãos não interessa para nada. O que conta é, como Maria Luís Albuquerque garantiu na quarta-feira nas jornadas da JSD em Pombal, «temos cofres cheios para poder dizer tranquilamente que se alguma coisa acontecer à nossa volta que perturbe o funcionamento do mercado, nós podemos estar tranquilamente durante um período prolongado sem precisar de ir ao mercado, satisfazendo todos os nossos compromissos”. Tanta tranquilidade permite seguramente à ministra das Finanças desafiar os especuladores e perguntar-lhes: «Quantos são? Quantos são?» E isso, claro, é uma situação muito diferente em que tivemos de andar a contar os tostões e a pedir de mão estendida à troika.

Maria Luís retoma assim a melhor tradição das nossas finanças públicas e segue a linhagem de um nunca esquecido ministro das Finanças que, dizem, terá sido o melhor da nossa História

Agora, tudo mudou. Graças às políticas seguidas pelo Governo, esta situação permite o pagamento de salários, de pensões ou fazer os reembolsos da dívida (ao contrário do que aconteceu no tempo do outro, percebem?) “mantendo tudo a funcionar sem perturbação”. Mais: quando quem está de fora (o sr. Wolfgang Schauble, por exemplo) olha para Portugal vê um país que “num período de quase quatro anos efetivamente conseguiu dar a volta”.

Temos, portanto, os cofres cheios, embora os portugueses tenham os bolsos vazios devido à carga fiscal que os esmaga, aos cortes salariais, ao desemprego e à redução das pensões. Temos os cofres cheios mas reduzimos o subsídio de desemprego e o tempo em que ele vigora, cortámos para metade os que recebiam o Rendimento Social de Inserção, limitámos drasticamente os abonos de família e todas as prestações sociais. Temos os cofres cheios mas não é para gastar nessas minudências.

Maria Luís retoma assim a melhor tradição das nossas finanças públicas e segue a linhagem de um nunca esquecido ministro das Finanças que, dizem, terá sido o melhor da nossa História. É que, na verdade, houve um tempo na nossa história em que já aconteceu aquilo de que agora Maria Luís se ufana. O escudo era uma moeda forte e o país tinha das maiores reservas mundiais de ouro. O povo é que, infelizmente, não vivia lá muito bem. Mas isso eram na altura e são agora simples minudências. O que importa é os cofres cheios. E mais nada!

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