Afiar o machado

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 07/03/2015)

Clara Ferreira Alves

                             Clara Ferreira Alves

A inteligência política é a necessária e suficiente para aguentar um debate televisivo mas não para gerar um desígnio para o país que sobreviva ao calendário eleitoral.

Se tivesse seis horas para deitar abaixo uma árvore, gastaria as primeiras quatro a afiar o machado.” A frase é de Abraham Lincoln. Um político ambicioso deve pensar em afiar o machado. Pedro Passos Coelho nunca foi um político ambicioso e nunca julgou chegar a primeiro-ministro. Podia dar-se ao desleixo de ser um “cidadão imperfeito”.

Todos os grandes temas da política nacional nos últimos tempos são historietas de meirinhos e videirinhos. Trapaças, negociatas, deslizes, ações de obséquio e servidão, opiniões de ocasião. E quase, quase nos limites da legalidade. Ao contrário da banca ou das empresas monopolistas que agora se desmoronam perante os nossos olhos exaustos de escândalos, omissões e comissões, as trapaças da política oscilam entra a caixa de robalos e o inefável lapso. Um esquecimento de pagamento ou recebimento, um imposto por pagar, uma mensagem ou escuta comprometedoras, uma declaração de rendimentos por desvendar, uma empresa falida e financiada por fundos públicos, uma adjudicação misteriosa, uma conta secreta. Ninguém se lembra de nada, nem do que pediu emprestado nem do que não pagou. Os nossos políticos parecem ter, antes ou depois de serem ministros e primeiros-ministros, nebulosas memórias.

Os gigantescos lapsos de memória de gestores premiados que deitaram abaixo empresas como quem deita abaixo uma árvore, lucrando pessoalmente com o abate, mostram-nos que passaram anos a afiar o machado. Quando a árvore caiu puderam reclamar o prémio e a bonificação. É a grandeza da grande trapaça. Os políticos, pelo contrário, não se preparam. Não se prepararam. Não por se acharem impunes ou sofrerem de narcisismo patológico, embora haja casos. Não se prepararam porque nunca ambicionaram chegar tão longe, subir tão alto, tocar as estrelas como se diz numa canção popular. Ganharam as eleições que outros perderam, o que parece ser situação corrente para diletantes. Ganharam eleições ajudados por um conjunto de cortesãos ambiciosos que espanejaram o delfim para o trono com o intuito de servir a pátria e de caminho servirem-se a eles mesmos. A democracia portuguesa tem exemplos deste tipo de criaturas. A inteligência política é a necessária e suficiente para aguentar um debate televisivo mas não para gerar um desígnio para o país que sobreviva ao calendário eleitoral. Pensa-se de quatro em quatro anos, ou de dois em dois, e pensa-se primeiro no partido e depois na nação.

Pedro Passos Coelho é autor da frase profunda “que se lixem as eleições”, mas os cortesãos que o ungiram não lhe perdoarão se as perder e rapidamente terão de arranjar outro príncipe. Na prática, são estes grupos de cortesãos que mandam na política portuguesa. São os donos do país que vota. Hoje respaldados por agências de comunicação, a internet, blogueres e qualquer lugarzinho donde possam emitir silvos e insinuações que destruam o adversário. Se um se esqueceu de pagar a Segurança Social, o outro esqueceu-se de pagar a contribuição autárquica. E entre este dois polos gira a nossa miséria intelectual. O assunto é discutido e debatido, analisado ao microscópio, tema de ensaios e crónicas como esta, multiplicado por lupas de analistas. Quando se podia resumir a uma frase: ninguém se esquece de pagar a Segurança Social, muito menos alguém que foi deputado. Ponto final. Passos Coelho tem muitas falhas de memória. Ou mente, com a tonalidade séria do ofendido. António Costa desmente. Embora um desmentido valha menos do que a mentira repetida muitas vezes.

Os cortesãos habituaram o povo a acreditar que são gestos destes que decidem eleições. Os manipuladores das campanhas negras e dos fumos brancos precisam desta intriga, a que modernamente se chama spinning, para legitimar a sua nulidade.

Desde o ‘caso Tecnoforma’ que sabemos o que valem os esquecimentos do primeiro-ministro. Convém não dar muita importância ao que não passa de um padrão de comportamento semelhante ao de lamber afetuosamente a mão dos donos ou ir buscar o pauzinho para mostrar as habilidades orçamentais. Sentar no lugarzinho onde nos mandam sentar. E viver nas entrelinhas.

Andamos nisto há uns anos. No tempo de Salazar havia grandes temas. A guerra colonial e os presos políticos, a PIDE, a censura, a ditadura. No tempo da democracia, fomos bafejados com o grande tema da liberdade, seguido do grande tema da Europa. Agora, quando a definição desse espaço europeu resiste a países como o nosso e a permanência nos obrigaria a rever o nosso modo de vida e o modo de vida dos outros europeus, andamos a discutir “a taxa e a taxinha”, na jubilosa definição do ministro. Vinte anos de Cavaco contribuíram para a irrelevância da política e à inexistência de um pensamento político. Convém perceber se continuaremos a eleger gente desta.

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4 pensamentos sobre “Afiar o machado

  1. Dona CFA diz;
    “Na prática, são estes grupos de cortesãos que mandam na política portuguesa. São os donos do país que vota. Hoje respaldados por agências de comunicação, a internet, blogueres e qualquer lugarzinho donde possam emitir silvos e insinuações que destruam o adversário”
    E ela que entra, participa e faz de tudo o que diz que fazem os “grupos de cortesãos” pertence a qual grupo???
    Dada a clara clarividência política de Clara aqui declarada, talvez superior à do binóculo de Galileu, fico todo à espera que ela informe os portugueses em quem devemos votar para para não cairmos em mais contos do vigário.
    Muito agradecido.
    .

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  2. o vigário não quer cair no seu próprio conto! Rebuscada insinuação do laranjito de serviço aos blogues. Espera a refeição que o há-de guiar ao púlpito. Dos néscios

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  3. Bem prega o capricho da pluma de uma senhora que esganiça a voz quando lhe foge a gamela…seja por via da prisão do 44 ou das sondagens do empate técnico, ou do beija mão ao senil Soares…É que já nem escondem…esta entourage socialista habituada a viver de empréstimos de amigos, de migalhas sobrantes de orçamentos inflacionados de autoestradas construídas por empresas amigas do PS…está com medo de perder o caviar e os brioches ao pequeno almoço…também aguardo que a isenta (?) pluma da Clara me diga em quem votar, mas antes de ter a barrriga cheia pela mão do amigo Costa…que isto de ter amigos a escrevinhar em jornais amigos..são favores bem pagos pelo partido da rosa…

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    • O seu comentário é tudo menos político. Parece uma capa do Correio da Manhã. Não discute a mensagem, limita-se a atacar o mensageiro querendo destruir-lhe a credibilidade. Para fazer isso o melhor era estar calado. Existe muita gente mais capaz de pôr os mensageiros “na linha”. E você dizer que o Expresso é amigo do António Costa é de almanaque. O proprietário é o militante Nº 1 do PSD. Deve saber, ou quer um desenho? Ao menos, mande farpas verosímeis porque, com tanto tiro na água ainda acham, as gentes de bom senso que ainda as há, que quem assim dispara só dá tiros de pólvora seca. Um bom fim-de-semana.

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