27 de Setembro de 2014, o 270º dia do ano no calendário gregoriano

Hoje o sol acordou a derrubar as nuvens e estas prometeram vingança. Lá pelo meio da tarde investiram fortes, sem cerimónia, remetendo o astro para segundo plano. Até o tempo já não é o que era, e as suas iras passaram a ser catalogadas numa escala cromática que vai do verde ao roxo, roxo quando se avizinha tempestade severa.

Acordei tarde com um dedo no comando da televisão e soletrei as notícias.

Tínhamos o rescaldo da meia confissão do Primeiro-Ministro na Assembleia da República. E digo meia confissão porque só confessou pecados veniais, isto é aqueles que merecem somente penas purificatórias temporais, não tendo confessado pecados mortais, ou seja aqueles que conduzem inapelavelmente às piras incandescentes do Inferno.

Poderão dizer-me que estou a ser parcialmente opinioso, por não achar possível que o PM só tenha cometido pecados veniais, tendo portanto a sua confissão, aos sacerdotes da Assembleia da República, sido completa. Nada mais errado. A minha suposição baseia-se no fato de não achar plausível, nem desejável,  ter à frente dos destinos do país, alguém que não tem sequer competência ou desígnio para cometer um pecado mortal durante tantos anos!

Se assim fosse, teríamos finalmente encontrado a verdadeira explicação para a situação atual do país:

Não é do euro; não é dos ditames de Europa; não é da corrupção; não é por sermos quase todos proprietários de casas com dívidas aos bancos, e termos centenas de quilómetros de autoestradas onde não passam carros.

Não, a verdadeira causa é termos um arcanjo querubim à frente do Governo, que durante anos a fio nunca cometeu qualquer pecado mortal digno desse nome, apesar dos anjos também pecarem como aconteceu com Lucifer que, sendo o anjo mais belo e luminoso, pecou quando se insurgiu contra o Criador. Com tal perfil, percebe-se porque nunca conseguiu defender o país nos fóruns internacionais, discutir com os pecadores inveterados e profissionais de Bruxelas,  e bater o pé à D. Merkel que se vê logo que tem um currículo pecaminoso  acima da média, o qual revoga e recicla com as penitências austeras que defende e nos receita de passagem.

Como só posso considerar esta explicação, para o declínio do país, um exercício ficcional pouco verosímil, só me resta a possibilidade da meia confissão.

Confissões à parte, não se passava nada de especial. Aliás, a história é feita de descontinuidades. Na maioria dos dias não se passa nada: são apenas etapas subliminares, águas larvares que depois desaguam nas datas marcantes que ficam para as efemérides da História.

Decidi ver o que se tinha passado, noutros 27 de Setembro de outras eras, para provar a tese da descontinuidade histórica. E lá estava. Desde a inauguração da primeira linha férrea em 1825, passando pela queda de Haile Salassie em 1974 deposto pelos militares etíopes, chegava-se a  1998, tendo ocorrido a 27 de Setembro de 1998 a vitória de Gerhard Schröder nas eleições alemãs, e a criação de algo que revolucionou a nossa forma de comunicar e de estar no mundo: faz hoje 16 que foi criado o Google.

Nessa altura ninguém poderia adivinhar a influência que tal iria ter na nossa forma de interagir e comunicar e dos desenvolvimentos subsequentes da sociedade da informação.

As revoluções tecnológicas começam sempre por ocorrer em silencio, esguias, capciosas e desapercebidas, e os seus efeitos, a longo prazo, são sempre de impossível, ou pelo menos de não questionada avaliação.

Estamos muito longe de poder aquilatar os efeitos totais que a infraestrutura comunicacional, que liga o mundo na atualidade, irá ter sobre o futuro, a longo prazo, da Humanidade.

Sobre a economia, sobre as instituições políticas, sobre o conjunto de toda a organização social.

Por aquilo que já hoje se vislumbra, não há ganhos sem custos, nem mudança sem escombros.

Como dizia Henry Louis Mencken:

Nenhum ato de fé é a prova contra os efeitos desintegradores do aumento da informação; quase se poderia descrever a aquisição de conhecimento como um processo de desilusão.

27 de Setembro de 2014

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