“O estado a que isto chegou”: Zelensky no Parlamento Português

(António Garcia Pereira, in NoticiasOnline, 21/04/2022)

A escassos dias de se completarem 48 anos sobre o 25 de Abril, a célebre frase que o capitão Salgueiro Maia dirigiu naquela madrugada às suas tropas, antes de marcharem sobre Lisboa, mostra-se absoluta e infelizmente actual: “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados Sociais, os Estados Corporativos e o estado a que isto chegou.”[1]

Vivemos, efectivamente, tempos particularmente perigosos e até dolorosos.


Não só por virtude da invasão da Ucrânia (invasão essa que deve ser criticada e denunciada sem reservas ou ambiguidades) e daquilo em que ela pode degenerar (uma guerra a nível mundial com consequências catastróficas), como também por tudo aquilo que, de profundamente errado, mas à sua sombra, se vem tratando de justificar e de impor como o “novo normal”.

Refiro-me, como julgo ser evidente, à lógica da imposição das verdades absolutas do pensamento dominante, da censura, da ostracização e até da perseguição dos que ousem dizer, ou até simplesmente pensar, coisas diferentes daquelas que, à pior maneira inquisitorial, são apresentadas e impostas como axiomas indiscutíveis. Tudo isto através da execração pública e do incitamento ao insulto, ao ataque pessoal e ao ódio mais irracional contra os “divergentes” ou aqueles que, para conveniência dos poderes dominantes, como tal foram arvorados. 

Assim, é de imediato criticado e condenado quem quer que discorde de medidas censórias (como as do silenciamento, nos países ocidentais, incluindo Portugal, da estação televisiva RT–Russian Today ou da agência noticiosa russa Sputnik, silenciamento esse que transforma os seus autores e executores em iguais àqueles que dizem combater), ou quem manifeste alguma espécie de relutância em acreditar em tudo aquilo que os EUA e os governos que os seguem diariamente propagandeiam, ou quem simplesmente denuncie o cinismo e a hipocrisia de quantos agora clamam pelas terríveis perdas de vidas humanas na Ucrânia, mas nunca quiseram saber de outras tantas ou até mais numerosas vítimas noutros pontos do mundo (Iraque, Síria, Jugoslávia, Palestina, Somália, Iémen, etc.).

Como logo é violenta e odiosamente apelidado de “pró-putinista”, “cúmplice ou encobridor de crimes de guerra” ou até “whataboutistas” (assim ridicularizando e insultando todos os que entendem que criticar Putin e a invasão da Ucrânia não pode significar apoiar a Nato e incensar Zelensky) quem chame a atenção – e sempre sem que tal signifique justificar o que quer que seja da agressão militar russa! – para factos como o de, não obstante a promessa de não extensão para Oriente assumida pelas principais potências ocidentais em 1990, aquando da reunificação das Alemanhas, a Nato ter-se alargado sucessivamente para Leste com 14 novos Estados membros (e uma centena de bases militares, entre aeroportos e estações de lançamento de mísseis). Ou o facto de, após diversos ataques[2] e massacres[3] cometidos pelas tropas e milícias ucranianas contra as populações da região de Donbass (que aliás inicialmente falaram sempre em autonomia e auto-determinação, e não em independência), o governo de Zelensky ter aí concentrado um enorme contingente de soldados, milicianos (entre 100 e 150 mil) e material de guerra, numa evidente e mais que hostil ameaça àquelas populações. Ou ainda o facto de a Nato já estar, de facto, na Ucrânia, em particular a partir de 2014, através de um PfP (Partnership for Peace Programme) no âmbito do qual, por exemplo, foi criada a base de Yavoriv, onde instrutores americanos e canadianos têm treinado e armado milhares de militares e milicianos ucranianos e estrangeiros).

O facciosismo e fanatismo em curso são tais que, lá fora e também nesta democracia “à beira-mar plantada”, se proíbem atletas, artistas e músicos de actuarem, só por virtude da sua nacionalidade russa!? E até se chega ao ponto – que seria de rir até às lágrimas não fosse o significado e a gravidade do sucedido – de vários órgãos da comunicação social portugueses noticiarem, em alertas ou em grandes parangonas, que os autores de um assalto a uma ourivesaria em Aveiro eram russos, para depois “convenientemente” se calarem quando se apurou que eram afinal ucranianos e vindos para Portugal após a guerra!…

E mesmo muitos daqueles que se pretendem justos e com princípios, por ilusão (que é, porém, cada vez mais menos aceitável), conveniência ou medo, calam-se perante todas estas barbaridades e assim permitem e até legitimam este verdadeiro retrocesso anti-democrático e inquisitorial.

Depois de dois anos de pandemia e de massiva utilização do terror e da manipulação para melhor aquietar e governar as massas, eis que a guerra da Ucrânia “matou” a Covid-19, mesmo que continuem a morrer pessoas com ela. E, mais grave e simultaneamente mais ridículo do que isso, a maior parte dos “especialistas” em Covid-19 transformou-se mesmo numa verdadeira legião de “especialistas” (pró-Nato, quase todos) naquela mesma guerra. 

Deste modo, todos os dias temos, durante horas e horas a fio, a “informação” que a Nato quer, ou melhor, que os EUA querem que nós tenhamos. E quase ninguém discute questões, e menos ainda consegue ser ouvido sobre elas, como as do completo desaparecimento da ONU neste conflito, da infeliz e definitiva demonstração da completa dependência da diplomacia europeia relativamente aos EUA, e menos ainda da ausência de quaisquer esforços, reais e efectivos, para se alcançar a paz e pôr fim à guerra (que é, como sempre, um enorme negócio para os fabricantes de armas).

Diferenças entre Putin e Zelenski?

Putin é, indiscutivelmente, um ditador, que persegue violentamente os seus adversários, que promove farsas eleitorais, que encabeça uma autêntica corte de oligarcas, que é profundamente reaccionário e que nada tem a ver com socialismo ou comunismo[4], sendo antes um continuador e aprofundador de uma economia capitalista, e em larga medida não já monopolista de Estado, mas (sobretudo após Boris Ieltsin) verdadeiramente neo-liberal.

A invasão da Ucrânia pelas tropas russas e o massacre de populações civis indefesas são violações, claras e inadmissíveis, das regras mais elementares do Direito Internacional e, mais do que isso, crimes injustificáveis e imperdoáveis, que já causaram milhares de mortos e perto de cinco milhões de refugiados. 

Mas Zelensky não é nenhum democrata nem patriota! Sob pena de aceitarmos ser grosseiramente manipulados, estar contra e denunciar Putin, o seu governo e as suas práticas ditatoriais e imperialistas, e em particular a sua guerra contra a Ucrânia, não significa de todo apoiar e elogiar quer Zelensky, quer quem verdadeiramente o colocou no poder e o sustenta (desde os EUA, o seu braço armado que é a Nato, e a União Europeia até à oligarquia financeira e aos grupos neo-nazis que o apoiam).

Não obstante o completo unilateralismo da “informação” que nos chega todos os dias pela Comunicação Social e pelas declarações dos responsáveis políticos americanos, europeus e portugueses, importa não esquecer que foi a própria e insuspeita OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa)[5] a reconhecer que, em 18 de Fevereiro deste ano, rebentaram violentos bombardeamentos contra a população ucraniana de Donbass, os quais, num só dia (22/2), atingiram o astronómico número de 1.600 explosões e originaram, num curto espaço de dois dias, a fuga desesperada de mais de 100.000 pessoas, principalmente para a Rússia.

Zelensky não é de todo um democrata ou um patriota, mas antes um produto de uma certa oligarquia[6], muito em especial a do seu principal promotor, o banqueiro nazi Ihor Kolomoyskyi (que, curiosamente, tem nacionalidade israelita) e do seu séquito. Recordo aqui que os primeiros actos políticos de Zelensky foram o de retirar a Ucrânia do Comité das Nações Unidas para a Defesa dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestiniano e, logo de seguida, o de levar o seu país, juntamente com o EUA, a serem os únicos a votarem contra a Resolução da Assembleia Geral da ONU de combate à glorificação do nazismo e de outras práticas defensoras de formas contemporâneas de racismo, discriminação racial e xenofobia.

O governo de Zelensky tratou também de perseguir a oposição política, ilegalizando 12 (doze!!) partidos políticos, alguns dos quais, aliás, de ideologias e de programas muito próximos de vários dos partidos políticos representados no Parlamento português.

O papel dos neo-nazis no apoio a Zelensky

O próprio Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, antes de Fevereiro deste ano, referia inúmeros casos de detenções arbitrárias, encarceramentos, torturas e desaparecimentos forçados, executados com plena impunidade por polícias ucranianos, principalmente por elementos do sinistro SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia). O actual chefe deste Serviço, Oleksandr Poklad, conhecido pelo significativo cognome de “O estrangulador”, devido às suas técnicas de interrogatório contra presos políticos, ligado aos grupos neo-nazis e a execuções sumárias de opositores ao regime, foi nomeado por Zelensky em 2021 e posteriormente condecorado com a “Ordem da Coragem”. Em 1 de Março último, Zelensky substituiu o então governador de Odessa por Maksym Marchenko, ex-comandante do também neo-nazi Batalhão Aidar e acusado de crimes de guerra no Donbass. Já Andryi Biletsky, um dos fundadores do Batalhão Azov, defendeu uma “cruzada branca” contra “os negros da neve”, denominação dada por ele e pelos seus correligionários aos ucranianos de origem russa.

Porque será então que todo este “currículo” é hoje esquecido por todos os apoiantes e defensores da figura de Zelensky?!

O actualmente denominado “Regimento Azov”, a mais bem treinada e equipada força militar de sustentação do governo de Zelensky e a principal força de defesa da estratégica cidade de Mariupol, apesar de formalmente integrado na Guarda Nacional Ucraniana desde 2014, é, na verdade, uma milícia neo-nazi, absolutamente torcionária e autora de diversos e gravíssimos crimes de guerra, em particular na região do Donbass, e que usa orgulhosamente a insígnia da famigerada 2.ª Divisão SS Das Reich, do Exército nazi[7].

A qualificação de neo-nazis dadas a essas milícias – cujo número ultrapassará os 60.000 homens e poderá mesmo chegar a cerca de 100.000 – foi aliás, e até muito recentemente, utilizada por entidades tão insuspeitas como o The Times de Israel, o Simon Wiesenthal Center ou o Counterterrorism Center da academia militar norte-americana de West Point, que, entretanto, e muito curiosamente, parecem ter perdido a memória…

E não é pelo facto de, a partir de 24/2, o Facebook, que até então proibia as publicações favoráveis ao Regimento Azov e aos seus “feitos”, ter passado a permiti-las, bem como os apelos não só ao ódio como até à prática do homicídio de militares e dirigentes russos, que a verdadeira natureza do principal apoio militar e político de Zelensky desapareceu…

O que será então a “sessão solene” do Parlamento português?

Aqui chegados, importa então verificar em que irá decerto consistir a “sessão solene” do Parlamento Português com a intervenção de Volodomyr Zelensky. Nela, sabe-se já, irão intervir o Presidente ucraniano e o Presidente da Assembleia da República (a segunda figura do Estado português), não sendo permitidas intervenções de quaisquer deputados. E estarão presentes no hemiciclo quer o Presidente da República, quer o Primeiro-Ministro, mas não serão admitidos nas galerias quaisquer elementos do público.

Tratar-se-á, pois, de uma sessão à porta fechada e com a presença dos mais altos dirigentes do Estado português, conferindo ao presidente da Ucrânia uma deferência e uma importância de tratamento que nem a Xanana Gusmão foram dadas em 1999!

E o que se espera que aconteça? Tendo também presente o que já se passou quer no Conselho de Segurança da ONU, quer em vários parlamentos europeus, em particular no grego, é mais que provável que, para além das mais que previsíveis palavras dos dois discursos, Zelensky aproveite para fazer o que já fez noutros lados, ou seja, apelar à intervenção directa da Nato e dos respectivos estados-membros, incluindo Portugal, na guerra, incitar ao agravamento das sanções económicas contra a Rússia, bem como ao fornecimento e à utilização de ainda mais armamento, e, sob a capa do aplauso ao heroísmo do povo ucraniano, promover os seus mais dilectos apoiantes[8].

E assim sendo, de que servirá ou terá servido a dita sessão solene, na qual, repito, nenhuma voz crítica ou dissonante se poderá fazer ouvir? Para apoiar os filhos do povo ucraniano e também russo, vítimas desta guerra injusta? Para fortalecer esforços efectivos pela imposição da paz? Ou antes para glorificar Zelensky e os seus apoiantes, intensificar (com consequências imprevisíveis) os seus esforços de guerra e reforçar a narrativa da Nato e dos EUA (e a reboque deles, da União Europeia) não apenas sobre a guerra actual como também sobre tudo o que se tem passado no Leste da Europa e no resto do mundo nos últimos trinta ou quarenta anos[9]?

E os deputados portugueses, cuja grande maioria já aceitou este modelo de “sessão solene”, 48 anos depois do 25/4 vão ficar em silêncio ou até aplaudir entusiasmadamente estes apelos à intensificação da guerra, ao reforço dos obscuros poderes oligárquicos e para-militares ucranianos e ainda os elogios de retintos neo-nazis? Se, em vez de um torcionário ucraniano, se fizesse ver a imagem ou ouvir a voz de um esbirro assassino da Pide ou de um neo-nazi como Mário Machado, desde que clamando contra os russos, também os deputados portugueses o aplaudiriam? É isso que se espera que os representantes de um Povo que, há quase meio século atrás, derrotou uma feroz ditadura, afinal façam?

E é admissível que quem levante todas estas questões e tenha sobre elas uma opinião diversa da maioritária ou “oficial”, tenha alguma simpatia ou militância política ou não tenha nenhuma, seja de imediato odiado, insultado, silenciado e perseguido?

Foi para isto que se derrubou o regime fascista?

Temos que dobrar a cerviz e aceitar “o estado a que isto chegou”?

Não, de todo! Por isso, face ao estado a que isto chegou, repito ainda e uma vez mais: nem Putin, nem Nato! Pela Paz, contra a guerra! Não à censura! Pela liberdade de expressão de todas as correntes de opinião! Fazendo de novo eco das palavras de  Salgeiro Maia: “Vamos acabar com o estado a que chegámos!”.

António Garcia Pereira


[1] A frase completa de Salgueiro Maia terá sido esta: “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados Sociais, os Estados Corporativos e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem não quiser sair, fica aqui!”.

[2] Um dos primeiros actos legislativos do novo governo resultante do derrube do Presidente pró-russo YanuKovych foi a revogação, a 23/02/2014, do diploma (a lei kovalov-kolesnichenko, de 2012) que havia reconhecido (também) o russo como língua oficial na região do Donbass.

[3] Os massacres, perante a passividade da comunidade internacional, foram praticados sobretudo entre Fevereiro e Julho de 2014 contra as regiões de língua russa (Odessa, Dnipropetrovsk, Carcóvia, Lugansk e Donetsk) e, com a importantíssima intervenção das milícias pró-nazis, atingiram particular ferocidade e malvadez em Odessa e Mariupol.

[4] Ao invés do que alguns “dinossáuricos” e primários anti-comunistas tentaram pregar…

[5] Que agrupa 57 Estados, incluindo todos os europeus e os EUA.

[6] Só que os oligarcas apoiantes de Zelensky (incluindo o filho de Joe Biden) são carinhosamente apelidados de “empreendedores”…

[7] Esta divisão das SS foi responsável, entre outros, pelo horrível massacre de 643 civis em Oradour-sur-Glane, na França, em 10 de Junho de 1944.

[8] Recorde-se que, na sessão do parlamento grego, a 7/4, Zelensky fez intervir, num vídeo que então apresentou, um neo-nazi membro do Regimento Azov, nascido em Mariupol e que afirmou estar a defender a sua cidade “contra os nazis russos”!…

[9] Desde os brutais bombardeamentos aéreos de populações civis na faixa de Gaza, na ex-Jugoslávia, na Somália, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, até aos cerca de 13.000 mortos civis no Donbass.


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A inconveniente complexidade

(Boaventura Sousa Santos, in Público, 20/04/2022)

No eixo comunicacional do Atlântico Norte vivemos uma guerra de informação sem precedentes. Conheci-a nos EUA durante dois períodos. No primeiro, durante a guerra do Vietname que vivi no seu momento de crise final (1969-1971); culminaria com a publicação dos Pentagon Papers em 1971. O segundo momento foi a guerra do Iraque, a partir de 2003, e a saga das armas de destruição massiva, um embuste político de que viriam a resultar muitos crimes de guerra. Mas na Europa nunca tinha assistido a este tipo de guerra de informação, pelo menos com a magnitude actual. Caracteriza-se pela erosão quase total entre factos e manipulação das emoções e percepções, entre hipóteses ou conjecturas e verdades inatacáveis.

No caso concreto da guerra da Ucrânia, a manipulação visa impedir a opinião pública e os decisores políticos de pensarem e decidirem sem excessivo stress na única medida que agora se impõe: a busca de uma paz duradoura na Ucrânia e na região de modo a pôr fim ao sofrimento do povo ucraniano, um povo que nestes dias partilha a trágica sorte dos povos palestiniano, iemenita, sírio, sarauí e afegão, ainda que sobre estes últimos pese o mais profundo silêncio.

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A guerra da informação tem por objectivo continuar a guerra das armas enquanto tal convier a quem a promove. Nestas condições, não é fácil lutar com factos e experiência histórica porque, do ponto de vista da guerra de informação, explicar é justificar, compreender é perdoar, contextualizar é relativizar. Mesmo assim, tentemos.

1. Causas

Para demonizar o inimigo é crucial desumanizá-lo, ou seja, imaginá-lo como tendo agido criminosamente e sem provocações. Ora a firme e incondicional condenação da ilegal invasão da Ucrânia (em que insisti desde a minha primeira crónica sobre o tema) não implica ter de ignorar como se chegou a tal. Neste caso, aconselho a leitura do livro publicado em 2019, War with Russia?, do professor emérito da Universidade de Princeton Stephen Cohen, recentemente falecido.

Depois de analisar com inexcedível detalhe as relações entre os EUA e a Rússia desde o fim da União Soviética e, no caso da Ucrânia, sobretudo desde 2013, Stephen Cohen conclui deste modo: “Proxy wars [guerras em que os adversários usam países terceiros para prosseguir os seus objectivos de confrontação bélica] são uma característica da velha Guerra Fria, são pequenas guerras no chamado ‘Terceiro Mundo’…Raramente envolveram militares soviéticos ou americanos, quase sempre apenas dinheiro e armas. Hoje as proxy wars entre os EUA e a Rússia são diferentes, estão localizados no centro da geopolítica, são acompanhadas de demasiados instrutores americanos e russos e possivelmente combatentes. Duas já irromperam: na Geórgia em 2008, onde forças russas enfrentaram o exército da Geórgia financiado e treinado com fundos e pessoal americano; e na Síria, onde já foram mortos muitos russos por forças anti-Assad apoiadas pelos EUA. Moscovo não retaliou, mas prometeu fazê-lo quando houvesse ‘uma próxima vez’. Se tal acontecer, envolverá uma guerra entre a Rússia e a América. O risco de um tal conflito directo continua a crescer na Ucrânia”. Assim se previu em 2019 a guerra que neste momento martiriza o povo ucraniano.

Bashar al-Assad e Vladimir Putin, em Sochi, em 2017, com o ministro da Defesa russo e o chefe de Estado-maior das forças russas que ajudaram o Presidente sírio a manter-se no poder Sputnik/Reuters

2. Democracias e autocracias

Na linguagem dos EUA o mundo divide-se em dois: democracias (nós) e autocracias (eles). Ainda há poucos anos a divisão era entre democracias e ditaduras. A autocracia é um termo muito mais vago que, por isso, pode ser usado para considerar autocrata um governo democrático tido por hostil, mesmo que a hostilidade não derive das características do regime. Por exemplo, na Cimeira da Democracia realizada em Dezembro de 2021, por iniciativa do Presidente Biden, não foram convidados países como a Argentina e a Bolívia, que tinham passado recentemente por vibrantes processos democráticos, mas são menos receptivos aos interesses económicos e geoestratégicos dos EUA.

Em contrapartida, foram convidados três países que a Casa Branca reconheceu serem democracias problemáticas (o termo usado foi flawed democracies), com corrupção endémica e com abusos dos direitos humanos, mas com interesse estratégico para os EUA: as Filipinas, por contrariar a influência da China; o Paquistão, pela sua relevância na luta contra o terrorismo; e a Ucrânia, pela sua resistência à incursão da Rússia. Compreendiam-se as reservas no caso da Ucrânia, pois poucos meses antes os Pandora Papers davam detalhes sobre as empresas offshore do Presidente Zelenskii, da sua mulher e dos seus associados.

Agora, a Ucrânia representa a luta da democracia contra a autocracia da Rússia (que, a nível interno, deve estar a par da Ucrânia em termos de corrupção e de abusos de direitos humanos). O conceito de democracia perde, assim, boa parte do seu conteúdo político e transforma-se numa arma de arremesso para promover mudanças de governo que favoreçam os interesses globais dos EUA.

3. Ameaças

Segundo peritos da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em 2020, 40% das forças militares da Ucrânia (um total de 102.000 membros) eram milícias paramilitares de extrema-direita, armadas, financiadas e treinadas pelos EUA, Inglaterra, Canada, França e Suíça, com integrantes de 19 nacionalidades. Desde que a guerra começou, mais elementos se lhes juntaram, alguns vindo do Médio-Oriente, e mais armas receberam de todos os países da NATO. A Europa está assim em risco de ter no seu seio um nazi-jihadismo nutrido, e nada nos garante que o seu raio de acção se limite à Ucrânia.

Em 1998, o antigo conselheiro de segurança do Presidente Carter, Zbigniew Brzezinski, afirmava em entrevista ao Nouvel Observateur: “Em 1979, aumentámos a probabilidade de a URSS invadir o Afeganistão… e criar a oportunidade de lhes dar o seu Vietname”. Não me surpreenderia se este playbook da CIA não estivesse agora a ser aplicado na Ucrânia. As recentes declarações do secretário-geral da NATO, segundo as quais “a guerra na Ucrânia pode durar meses ou até anos” – combinadas com a notícia da Reuters (12 de Abril) de que o Pentágono ia reunir com os oito maiores produtores de armas dos EUA para discutir a capacidade da indústria para satisfazer as necessidades da Ucrânia “se a guerra com a Rússia durar anos” – deviam ter causado alarme entre os líderes políticos europeus, mas aparentemente apenas os motivaram para uma corrida aos armamentos.

As consequências de um segundo Vietname russo seriam fatais para a Ucrânia e para a Europa. A Rússia (que é parte da Europa) só será uma ameaça para a Europa se a Europa se transformar numa imensa base militar dos EUA. A expansão da NATO é, pois, a verdadeira ameaça para a Europa, como há vinte anos alertou o insuspeito Henry Kissinger”.

4. Critérios duplos

A UE, transformada numa caixa de ressonância das escolhas estratégicas dos EUA, defende como lídima expressão dos valores universais (europeus, mas nem por isso menos universalizáveis) o direito da Ucrânia de integrar a NATO, enquanto os EUA intensificam a integração (veja-se o US-Ukraine Strategic Defense Partnership, assinado em 31 de Agosto de 2021), ao mesmo tempo negando que ela esteja iminente.

Certamente os líderes europeus não sabem que o direito reconhecido à Ucrânia de aderir a um pacto militar é negado a outros países pelos EUA e, se soubessem, isso não faria qualquer diferença, tal é o estado de torpor militarista em que se encontram. Por exemplo, as pequenas Ilhas Salomão do Oceano Pacífico aprovaram em 2021 um projecto de pacto de segurança com a China. Os EUA reagiram de imediato e com alarme a esse projecto e enviaram altos responsáveis de segurança para a região a fim de travar a “intensificação da competição de segurança no Pacífico”.

5. A verdade vem tarde demais

A guerra de informação assenta sempre numa mistura de verdades selectivas, meias verdades e mentiras puras e duras (as chamadas false flags) organizada de modo a justificar a acção militar de quem a promove. Estou certo de que neste momento está em curso uma guerra de informação tanto do lado russo como do lado norte-americano/ucraniano, ainda que, devido à censura que nos foi imposta, saibamos menos sobre o que se passa no lado russo. Mais tarde ou mais cedo a verdade virá ao de cima. A tragédia é que virá sempre demasiado tarde.

Neste conturbado início de século temos uma vantagem: o mundo perdeu a inocência. Julian Assange, por exemplo, está a pagar um altíssimo preço por nos ter ajudado neste processo. Aos que ainda não desistiram de pensar com alguma autonomia recomendo a leitura do capítulo da Hannah Arendt, intitulado Mentir em Política, no livro Crises of the Republic, publicado em 1971. É uma reflexão brilhante sobre os Pentagon Papers, uma recolha exaustiva dos dados (entre eles, muitos crimes de guerra e muitas mentiras) sobre a guerra do Vietname, uma recolha realizada por iniciativa de um dos maiores responsáveis dessa guerra, Robert McNamara.

6. A pergunta que ninguém faz

Quando os conflitos armados são em África ou no Médio Oriente, os líderes europeus são os primeiros a pedir o cessar das hostilidades e a urgência das negociações de paz. Por que é quando a guerra é na Europa os tambores da guerra tocam incessantemente e nenhum líder apela a que se calem e a voz da paz se ouça?

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


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“Cresce risco de aniquilação nuclear”: manifesto global pede fim à guerra na Ucrânia

(In Diálogos do Sul, 20/04/2022)

“Os efeitos da invasão russa da Ucrânia foram devastadores” e “à medida que a guerra se intensifica, cresce o risco de aniquilação nuclear”, disseram os acadêmicos Noam Chomsky e Boaventura de Souza Santos em um manifesto no qual apelaram a “um cessar fogo imediato” e “negociações para uma paz plena e duradoura”.

No manifesto firmado também por intelectuais e políticos, entre eles o ex-presidente do Equador, Rafael Correa, o ex-ministro de Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, destacaram que “o presidente Zelensky esboçou as duas condições mais essenciais para a paz: as tropas russas invasoras devem retirar-se da Ucrânia e a Ucrânia se converte em um país neutro. Instamos os governos e meios de comunicação a deixar de lado toda a linguagem beligerante e promover e fortalecer o diálogo sobre esta base”. 

EUA e Otan devem assumir responsabilidade e encerrar o conflito na Ucrânia, diz China

“A escalada só conduzirá a mais derramamento de sangue, deslocamentos e prejuízos econômicos infligidos a pessoas inocentes”, agrega o texto subscrito por Federico Mayor Zaragoza, presidente da Fundação Cultura de Paz e ex-diretor geral da Unesco e Ione Belarra, secretária geral do Podemos. 

Demandam “mostrar hospitalidade e humanidade a todos aqueles que fogem da guerra com uma política de asilo que não esteja condicionada pelo país de origem”. 

Destacaram que “a Ucrânia necessitará apoio para a reconstrução. Fazemos um apelo às instituições internacionais para que eliminem a dívida da Ucrânia e comprometam recursos para apoiar o desenvolvimento nacional e popular do país”. 

Entre os que firmam figuram a coordenadora nacional do Bloco de Esquerda português Catarina Martins, o secretário geral do Sinn Fein, Declan Kearney, o presidente honorário do Partido Democrático dos Povos turco, Ertugrul Kürkçü e o ex-prefeito de Nápoles, Luigi De Magistris.

Leia o manifesto na íntegra

Ucrânia: Paz para já!

Os efeitos da invasão russa da Ucrânia foram devastadores: morte, destruição e milhões de pessoas obrigadas a fugir das suas casas. À medida que a guerra se intensifica, cresce o risco de aniquilação nuclear. As consequências sociais e económicas desta guerra já se fazem sentir na Ucrânia, na Rússia e em todo o mundo.

Por conseguinte, as partes, organizações e particulares abaixo-assinados exigem:

Paz
Exigimos um cessar-fogo imediato e apoiamos as negociações para uma paz plena e duradoura. As Nações Unidas e outros organismos internacionais relevantes devem estar preparados para garantir qualquer acordo.

O presidente Zelensky esboçou as duas condições mais essenciais para a paz: as tropas russas invasoras devem retirar-se da Ucrânia e a Ucrânia torna-se um país neutro. Exortamos os governos e os meios de comunicação social a porem de lado todas as línguas beligerantes e a promoverem e reforçarem o diálogo nesta base. A escalada apenas conduzirá a mais derramamento de sangue, deslocações e prejuízos económicos infligidos a pessoas inocentes.

Asilo
Temos de mostrar hospitalidade e humanidade a todos aqueles que fogem da guerra com uma política de asilo que não seja condicionada pelo país de origem. É da responsabilidade dos governos e das autoridades públicas proteger e garantir os direitos humanos.

Apelamos à protecção de todos os civis que fogem ou permanecem em suas casas, evacuações através de corredores humanitários e garantias de alimentação e assistência médica.

Reconstrução e proteção
A Ucrânia precisará de apoio para a reconstrução. Apelamos às instituições internacionais para que eliminem a dívida da Ucrânia e disponibilizem recursos para apoiar o desenvolvimento nacional e popular do país.

Temos também de proteger as pessoas dos países não combatentes que enfrentam as consequências económicas desta guerra, que irão acelerar. Apelamos aos governos para que protejam o estado de bem-estar, garantam os direitos sociais para todos os cidadãos e reduzam a desigualdade. É tempo de as grandes fortunas e as grandes empresas contribuírem equitativamente para a sociedade, para que os rendimentos e os corpos da grande maioria não sejam, uma vez mais, sobrecarregados com os custos desta crise.


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