‘Guerra ao Terror’, A Maior Mentira da História

(Edu Montesani, in GlobalResearch, 18/01/2017)

 

O ano de 1979 marca a política norte-americana no Oriente Médio, região mais rica em petróleo do mundo: em plena Guerra Fria, a Revolução Iraniana derruba do poder o xá Reza Pahlevi, ditador laico pró-Ocidente, substituído pelo aiatolá Khomeini, o qual nacionaliza as ricas reservas petrolíferas do país.

Isso faz com que os Estados Unidos passem a fornecer diversos tipos de armas, entre elas químicas e biológicas (o que se configura grave crime de guerra), ao ditador Saddam Hussein, presidente secular do Iraque (país que possui a segunda maior reserva petrolífera do globo), na guerra contra o Irã (1980-1988) por questões fronteiriças, a qual se tornaria a batalha mais longa e sangrenta pós-II Guerra Mundial. É desta guerra que surge um dos maiores escândalos de corrupção da história dos EUA, envolvendo diretamente o presidente Ronald Reagan e seu vice, George H. W. Bush (pai), conhecido como Irã-Contras ……


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O BLÁ, BLÁ, BLÁ DO B.H.L.

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 01/05/2015)

Clara Ferreira Alves

                               Clara Ferreira Alves

A democracia é uma lenta transição e não um ato imediato e não podemos esperar que uma primavera faça num ano o que fizemos em séculos.

Novecentas pessoas afogadas numa semana é uma tragédia que deixou a Europa “horrorizada”. Noventa mil pessoas mortas na guerra é um facto da vida. Há anos que a Europa sabe dos afogamentos, naufrágios e desastres do Estreito de Gibraltar. Nas praias da costa de Cádis jazem os despojos da “tragédia”. Roupas, sacos de plástico, sapatos. E cadáveres inchados. A Europa não quis pensar neste problema e estabeleceu um “cordão sanitário” que separa as vidas boas das vidas más. Nos campos de internamento dos enclaves de Ceuta e Melilla, os africanos esperam Godot. Nas zonas de Casiago, Castillejos e nos montes de Tetuão e Tânger (em Marrocos), mais de trinta mil subsarianos esperam para entrar em Ceuta e Melilla. A Europa assacou o problema a Espanha, e Espanha, obedecendo, transformou uma particular ação de repatriamento numa devolução dos migrantes ao Sara sem cuidar de saber se sobreviveriam. As organizações de direitos humanos protestaram, mas não há muito que estas organizações possam fazer nos desertos da Argélia.

Apesar da corrente imparável, a União Europeia nunca decidiu ter uma discussão séria sobre um assunto delicado. De facto, a Europa não poderia acolher todos os migrantes e refugiados. A chegada das primaveras árabes, essas revoltas condenadas ao insucesso e tão elogiadas por jornalistas românticos, determinou uma instabilidade absoluta do Médio Oriente e uma hipocrisia reinante sobre a natureza autocrática dos regimes. Nesta região, o que se passa num país contamina os países fronteiriços. Os países árabes desconhecem a democracia liberal e a sua tradição tribal e religiosa faz com que as monarquias ou regimes absolutos e autoritários consigam o que um esquisso de democracia não consegue, paz social e crescimento económico sustentados na tirania e na corrupção. Junte-se ao caldo a pobreza e iliteracia das populações. A democracia é uma lenta transição e não um ato imediato e não podemos esperar que uma primavera faça num ano o que fizemos em séculos. As desestruturadas oposições são corrompidas ou destruídas, como se vê pela condenação de Morsi no Egito. Ou pela flagelação do bloguer saudita. Estes regimes têm para o ocidente vantagens: a venda maciça de armas e equipamento bélico, a venda de bens de luxo, a venda de know-how e tecnologia, a venda de conhecimento. Oxford e o Louvre estão no Qatar. E a compra de gás e petróleo, mais o investimento árabe em metrópoles como Londres e Paris ou paraísos artificiais como Marbella. O Ocidente pode continuar a vender a ideia democrática mas sabe, e agora sabe mais, que lhe convém manter os regimes absolutos e os xeques e generais da Arábia Saudita, do Egito, do Qatar, dos Emirados, do Bahrein, da Argélia, etc. E o regime iraniano. Os republicanos americanos, na gritaria contra o Irão dos ayatollahs, deviam calcular que um Irão instável e vagamente parecido com o Iraque geraria uma guerra nuclear. Mais vale o diabo que conhecemos. Os exemplos da Líbia, do Iémen, do Iraque e da Síria demonstram a evidência de não promover mudanças de regime manu militari. Mudanças que inundariam a Europa não só de subsarianos como de árabes expulsos das suas terras pela violência e a guerra. E que trariam o caos económico, demográfico e financeiro, porque os preços do petróleo estão indexados à estabilidade de países produtores. A emergência do Estado Islâmico dos atoleiros do Iraque e da Síria, com o patrocínio do estado de guerra entre sunitas e xiitas e respetivos benfeitores, é uma evolução inesperada. Mudanças súbitas de regime são a instituição do apocalipse. O bombardeamento da Líbia e a remoção de Khadafi quando deixara de ser um inimigo e se convertera num aliado foi uma manobra impensada. Claro que Khadafi era um tirano mas o general Sisi não é? E os outros monarcas e presidentes vitalícios? E os xeques sauditas não são? A Arábia Saudita bombardeia o Iémen e a comunidade internacional não emite um som. A Líbia conduziu ao desastre total. Assad viu o vídeo do assassínio de Khadafi e endureceu, determinando o fim das conversações na Síria. O Mali foi inundado de mercenários e militantes islâmicos. O Níger e o Chade também. Os bombardeamentos na Líbia reforçaram a hostilidade da Rússia que foi deixada de lado na decisão. E, para cúmulo, suspeitamos que os bombardeamentos foram uma operação de limpeza para esconder financiamentos ilegais a Sarkozy e Cameron. Obama embarcou nesta conspiração a que o filósofo Bernard-Henri Lévy, um narcisista parisiense no seu pior, deu o verniz revolucionário e a caução intelectual. Quando lhe perguntaram agora por que razão o fez, respondeu que queria demonstrar que um judeu como ele também pode ajudar os árabes. E por, cito: “blá, blá, blá”. Bombardeou-se a Líbia pelo blá, blá, blá do B.H.L.

YARMOUK

(Clara Ferreira Alves, in “Expresso”, 11/04/2015)

Clara Ferreira Alves

                                Clara Ferreira Alves

Os refugiados que restam estão numa situação infernal. Sem comida, sem água, sem cuidados médicos, à mercê das armas. Doentes, feridos, vulneráveis.

Devem ter visto fotografias de Yarmouk sem saber que era Yarmouk. Yarmouk ocupa pouco mais de dois quilómetros quadrados. Quando os jornais compram a agências fotografias da guerra civil na Síria, é provável que comprem Yarmouk. O campo de refugiados palestinianos forneceu até agora as mais negras e esquálidas representações da destituição e do sofrimento. Cadáveres ensanguentados, seres esfomeados, casas destruídas, ruas entulhadas, militantes armados, execuções e explosões, tudo Yarmouk providenciou. Deve ser, neste preciso momento, o lugar mais aterrador do planeta Terra. Um resumo da guerra e das consequências da guerra. A história de Yarmouk é longa. Foi estabelecido como campo não-oficial de refugiados palestinianos em 1957. O ‘não-oficial’ significa que o Governo sírio acordou um princípio funcional. Estando os palestinianos destinados a regressar às casas em Israel (isto antes da Guerra dos Seis Dias) não fazia sentido oficializar o campo. O mesmo aconteceu no Líbano, onde os campos não-oficiais se multiplicaram. Para os militantes da libertação da Palestina a proposta fazia sentido porque podiam continuar a agitar a bandeira inútil do “retorno a Israel”. Os refugiados guardavam as chaves das casas em Israel como um tesouro. Aproveitando este princípio, os países árabes que acolheram os refugiados nunca lhes deram direitos nem condições iguais aos nacionais, apesar da imensa solidariedade com “a luta do povo palestiniano”. Refugiados internados em campos permaneceram assim até hoje. No máximo da ocupação, este campo a dez minutos e oito quilómetros do centro de Damasco teve cerca de 200 mil pessoas. A UNRWA, a agência das Nações Unidas que se ocupa dos palestinianos, providenciou escolas e hospitais, comida, apoio. Países generosos como o Canadá, a Noruega e outros, que há anos sustentam os palestinianos, fizeram doações. Yarmouk tornou-se uma cidadela com animação, lojas, carros, sinais de vida na selva de fios elétricos e casas de cimento armado que são estes campos. Os shababs (rapazes, jovens) aderiam às sucessivas fações e milícias dos palestinianos, acompanhando a mudança de poder da OLP para o Hamas e mantendo uma circunscrição da FNLP-CC, Frente Nacional da Libertação da Palestina-Comando Central. O campo era um inferno, claro, mas um inferno onde os Assad tentaram remediar a destituição construindo escolas e postos clínicos. Grupos palestinianos armados aliaram-se a milícias do Governo de Damasco quando rebentou a guerra, em 2011. Em 2012, a FNLP-CC combateu “os rebeldes” do Free Syrian Army. Fações e subfações, como em todo o Médio Oriente, multiplicaram-se dentro do campo, e a população começou a sofrer. Em outubro de 2013, a fome atacou Yarmouk e no fim do Ramadão foram emitidas fatwas para ser considerada halal a carne de gatos, cães e burros que refugiados esfaimados mataram para comer. Reza a lenda que foi abatido e comido um leão do zoo de Damasco. Fotografias de gente com o peito cavado e as costelas salientes, género gueto de Varsóvia ou Lodz, circularam na web. A UNRWA, devido às milícias, estava impedida de entrar no campo e não pôde acudir. A situação piorou. Em finais de 2014, sobravam vinte mil pessoas em Yarmouk. Agora, sobram dezoito mil. No final de 2014, estive nos campos (não-oficiais) de refugiados sírios no Líbano e nos campos de Sabra e Chatila nos arredores de Beirute, favelas malcheirosas entrincheiradas na reserva Hezbollah de Dahiyeh. Pouco mais de um quilómetro quadrado e a dez minutos da Baixa de Beirute. Sobrelotados, contêm refugiados sírios e palestinianos, muitos de Yarmouk. As histórias são difíceis de escutar. Muitos queriam regressar à Síria. Pior não pode ser, diziam. Não subestimemos a guerra na Síria. Yarmouk acaba de ser invadido pelo Daesh, parece que com a ajuda da Frente Nusra. Há bolsas de combate do FSA, dos grupos palestinianos e das milícias de Assad. Ninguém sabe ao certo quem combate quem em Yarmouk mas sabe-se que o Daesh controla 90% do campo. Decapita e tortura. Os refugiados que restam estão numa situação infernal. Sem comida, sem água, sem cuidados médicos, à mercê das armas. Doentes, feridos, vulneráveis. O chefe da UNRWA, como todos os que têm por missão ajudar as vítimas, lançou um apelo desesperado para que as agências humanitárias possam entrar em Yarmouk, o que aconteceu antes quando o Free Syrian Army combatia as forças de Assad. Houve um cessar-fogo. É duvidoso que o Daesh seja sensível a apelos. E não deixa de ser um sinal da evolução da guerra que em duas semanas os soldados de Assad tenham perdido Idlib e Yarmouk para a Nusra e o Daesh. Assad pretende entrar em força em Yarmouk. Os refugiados que restam são de primeira, segunda, terceira, quarta geração. Há shababs nascidos em cativeiro que o Daesh recrutará, voluntária ou involuntariamente. A tragédia de Yarmouk continuará em cena.