Viver entre ruinas: a condição humana abissal

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247.com, 11/09/2024)

Destruição em Khan Younis, sul de Gaza (Foto: Hatem Khaled / Reuters)

A dominação moderna baseia-se na linha abissal que separa de forma radical os seres plenamente humanos dos sub-humanos.


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No momento em que escrevo, Gaza é a metáfora trágica do tempo que vivemos. Vivemos entre ruínas. Há memória recente de casas, de escolas, de hospitais, de gente viva, mas só presenciamos escombros e morte. Há memória recente de princípios éticos e de legalidade nacional e internacional, mas só observamos impunidade, indiferença, cumplicidade ou revolta impotente.

Há memória de ideias e projectos de resistência contra a dominação moderna eurocêntrica (capitalista, colonialista e patriarcal), mas aparentemente foram derrotados pela oposição frontal que lhes foi movida pelas classes dominantes, sobretudo desde o início do século XIX, as burguesias nacionais e a burguesia global, sempre as mesmas e sempre diferentes.

Foi esta a classe que sempre beneficiou do sistema de dominação e que hoje proclama com ruidoso triunfalismo que nunca permitirá ser desalojada dessa posição pacificamente.

Uma das características fundamentais da dominação moderna é a linha abissal que de modo radical separa os seres considerados plenamente humanos dos seres considerados sub-humanos ou infra-humanos, e como tal tratados. Esta linha abissal está radicalmente ausente da consciência filosófica moderna. É essa ausência que legitima a persistência da linha abissal, tanto nas relações sociais, como no desempenho “normal” das instituições políticas, jurídicas e educativas.

A ideia de que na era moderna eurocêntrica a humanidade não existe sem desumanidade é difícil de aceitar ou mesmo de entender, dado o extraordinário sistema de ilusões e de meias-verdades que, com o passar do tempo, se converteu em realidade para os que beneficiam desse sistema e, muitas vezes, mesmo para os que são vítimas dele.

Certamente o par humanidade/desumanidade sempre esteve presente ao longo da história, sendo indiferente saber se se trata de um castigo divino, de um imperativo religioso, bíblico ou corânico, ou simplesmente de uma fatalidade humana. O que é específico da era moderna é a negação de que tal dualidade existe. Nos seus termos, a humanidade é uma só e sem excepções; o que está fora da humanidade é, por definição, natureza não-humana, vida não-humana, por mais parecida que seja com a vida humana.

É notável a persistência dessa concepção. Os índios americanos eram seres inferiores e, como tal, extermináveis; os escravos africanos eram coisas transacionáveis; os palestinianos são, aos olhos dos sionistas de Israel, animais humanos; os imigrantes a caminho do Norte global são seres descartáveis, sempre que desnecessários para os interesses económicos dos países onde tentam chegar. Parafraseando James Baldwin, quem não tem o direito de dizer sim à vida, tal como o fazem os seres considerados plenamente humanos é, por definição, sub-humano.

Ou, como diria Frantz Fanon, habita a zona do não ser. A condição sub-humana é, assim, construída como natural e como tal ninguém é culpado dela, ninguém é responsável por ela. Eliminá-la é que seria antinatural, uma violência contra a natureza das coisas. 

A tragédia do tempo presente é que, embora a dualidade humanidade/desumanidade seja mais necessária do que nunca à sobrevivência do sistema moderno de dominação, há um mal-estar geral, uma malaise indefinida, decorrente do facto de, depois de séculos de convivência entre seres considerados plenamente humanos e seres considerados sub-humanos, ser impossível não ver que os seres sub-humanos são pessoas como todas as outras. O mal-estar que isso causa representa o momento em que a linha abissal se faz presente na consciência colectiva. 

Do outro lado da linha abissal teimam em afirmar a sua presença pessoas consideradas sub-humanas que têm tudo para poder dizer sim à vida, tal como os seres considerados plenamente humanos. Mas, assim sendo, o que lhes falta para serem tratados como seres plenamente humanos? A malaise contemporânea reside numa perplexidade não assumida que decorre da suspeita de que a resposta a essa pergunta seja intolerável para quem a faz.

Há, pois, dois tipos de perguntas: as perguntas que se fazem para conhecer a resposta e as perguntas que se fazem para evitar a resposta. As primeiras são motivadas pela curiosidade, as segundas, pelo pânico. A antecipação do pânico é tão paralisadora quanto o pânico em si mesmo.

O caracter inquietante da pergunta — o que lhes falta? — reside em que na era moderna eurocêntrica os seres considerados plenamente humanos só o são porque outros seres tão humanos quanto eles foram expropriados da capacidade de dizer sim à vida.

Essa resposta põe a totalidade dos seres humanos no centro da tragédia contemporânea. Os seres considerados plenamente humanos deixam de poder clamar inocência. A resposta credível não reside em assumir a culpa individual, mas antes em assumir a quota-parte individual de uma responsabilidade colectiva que criou este estado de coisas contraditório em que os princípios e valores do humanismo universal são, na prática, o privilégio exclusivo de alguns à custa do sacrifício de outros.

Isto significa que a linha abissal é tão desumanizante para os seres considerados plenamente humanos como para os seres considerados sub-humanos. Os seres considerados plenamente humanos são postos perante a ideia aterradora de que o seu bem-estar assenta num roubo há muito legalizado do bem-estar dos seres considerados sub-humanos. Os seres plenamente humanos são individualmente pessoas honestas, mas são colectivamente ladrões. São individualmente incapazes de violência, mas coletivamente assassinos profissionais. São cidadãos obedientes à lei, mas colectivamente beneficiam de uma impunidade sem limites.

De um lado, um privilégio injusto, do outro, um sacrifício injusto, ambos ocultados por um diáfano manto de princípios e valores universais (liberdade, igualdade, fraternidade). Não há psiquiatra que resolva esta antinomia quando ela se instala no corpo e na alma, tanto dos seres considerados plenamente humanos como dos seres considerados sub-humanos. A essa mesma conclusão chegou o grande psiquiatra Frantz Fanon.

É necessário analisar fenomenológica e existencialmente tanto a condição abissal das populações, relativamente cada vez mais numerosas, que foram expropriadas do direito a dizer sim à vida, como a condição dos que beneficiaram e beneficiam dessa expropriação. É fundamental ter em conta três factos.

Primeiro, a existência da linha abissal é uma constante da era moderna eurocêntrica. Contudo, a linha não é fixa e historicamente tem-se movido, quer no sentido de incluir mais população na plena humanidade, quer no sentido inverso.

Segundo, é possível passar individualmente de um lado para o outro da linha abissal e aí permanecer com alguma estabilidade; o que não é possível é que o colectivo a que o indivíduo originalmente pertenceu passe colectivamente para o outro lado da linha. 

Terceiro, nas condições prevalecentes, sobretudo no Norte global, é possível que indivíduos transitem diariamente da plena humanidade para a sub-humanidade, e vice-versa.

Viver do lado de lá da linha abissal. 

A condição existencial de sub-humanidade consiste num conjunto imenso de características. Não significa que todas estejam presentes, mas algumas delas estarão. Uso o plural masculino universal para designar indivíduos e colectividades sub-humanizados.

Não pertencem ao mundo que oficialmente se reconhece como mundo, mas vivem nele. Tal como nem todos os que vivem na cidade pertencem à cidade.

Conhecem os princípios e os valores universais (liberdade, igualdade, fraternidade), mas sabem, por experiência, que eles não os protegem; no máximo, contribuem para promover a sua passividade.

São constantemente avaliados e julgados pelo que são, e não pelo que fazem.

Só partilham duradouramente a amizade, a alegria e o sofrimento com os que estão do mesmo lado da linha abissal. Os considerados plenamente humanos aparecem e desaparecem segundo as suas conveniências.

O máximo reconhecimento oficial que podem obter deve-se ao facto de serem úteis ou, pelo menos, de não serem considerados perigosos.

São muitas as opiniões sob a sua condição com imagens próprias de quem observa uma paisagem num safari urbano para turistas ou analisa resíduos de uma história infeliz que felizmente foi superada ou é melhor esquecer.

Têm opiniões próprias, mas ninguém as tem em conta no mundo oficial senão na medida em que forem consideradas perigosas ou apropriáveis.

Quando se vêem ao espelho têm a sensação de que o espelho os vê, segundo as circunstâncias, ora com desconfiança, resignação, complacência, ora com orgulho e incontida revolta.

Quando saem de casa (se a tiverem) entram num mundo hostil que, no máximo, os aceita condicionalmente e por razões pragmáticas que lhes são estranhas. Quando a repressão tem sede de sangue, a casa é tão perigosa quanto a rua.

O seu trabalho, quando pago, é sempre sobredesvalorizado e precário. Quando lhes é dada autonomia, é sempre sem condições para serem autónomos. A autonomia é uma das mil formas de autoescravização.

Se viverem num país onde os escravos viveram no mesmo território que os seres considerados plenamente humanos, nunca deixarão de ser descendente de escravos, mesmo que sejam descendentes de reis ou de rainhas.

Não podem planear a sua vida nem a da sua família. A cada momento ocorrem emergências e riscos que põem tudo a perder, inclusivamente a própria vida. Por mais que eduquem os filhos, sabem que eles muito provavelmente nunca poderão fugir a essa contingência.

São tratados ocasionalmente com benevolência pelos seres considerados plenamente humanos, mas sabem que nenhum deles gostaria de ser como eles ou de viver com eles.

Têm marcadores corporais, ideológicos ou religiosos que os tornam suspeitos aos olhos dos seres considerados plenamente humanos até prova em contrário, uma prova que nunca vale para o colectivo a que pertencem.

São instigados a imitar o mundo dos seres considerados plenamente humanos, mas sob a condição de nunca lhe pertencer ou de o usar para benefício próprio.

São permanentemente vigiados e policiados. A convivência de proximidade com os seres considerados plenamente humanos, aparentemente benévola e educativa, é muitas vezes a mais insidiosa.

Vão à escola para desaprender tudo o que a família ou os antepassados lhes ensinaram e, sobretudo, para não conhecerem as verdadeiras razões da sua condição sub-humana. O que aprendem ensina-os a viver imitando os considerados plenamente humanos, mas nunca os ensina a serem diferentes deles e iguais a eles. O máximo que a escola lhes pode ensinar é não desprezar ou odiar, apesar de serem desprezados e odiados.

Têm momentos de intensa alegria, mas isso é muito diferente de ser feliz.

Sabem que ninguém controla o destino, mas que, no caso deles, alguém, que não eles, controla o seu destino.

Alguém lhes disse que no passado havia uma classe de gente que não tinha nada a perder senão as suas grilhetas. Perguntam-se: tudo o que têm pode ser considerado grilhetas?

Quando recebem ajuda travam a garganta para não ter de gritar: Maldita seja a ajuda por ser necessária!

Estarem conscientes que foram expropriados e desarmados é a arma primordial para resistir.

Viver do lado de cá da linha abissal

Na sociedade moderna eurocêntrica (capitalista, colonialista e heteropatriarcal), viver do lado de cá da linha abissal é sinónimo de ser considerado plenamente humano. Ser plenamente humano nas condições da modernidade ocidental é poder viver realisticamente uma existência com as características diametralmente opostas às que acabei de enumerar para caraterizar a sub-humanidade.

Viver a plenitude humana como se fosse uma condição universal é a inocência existencial primordial da modernidade ocidental. Ao longo de vários séculos foi-se construindo a imensa biblioteca da inocência ocidental, enumerando, analisando, detalhando, criticando, propondo incessantemente novas interpretações para todos os princípios, valores e ideais supostamente universais, constitutivos dessa inocência, e organizando toda a parafernália institucional político-jurídica, ideológica e educacional que oculte a fractura abissal em que assenta essa inocência.

Foi assim que se controlou e legitimou a parcela da humanidade a que foi concedido o privilégio de representar a totalidade da humanidade titular dos princípios e valores universais. Foi um investimento ideológico e político imenso. O que estava em causa era a reprodução da linha abissal e a garantia da sua invisibilidade para poder ser plenamente eficaz na reprodução do sistema moderno e eurocêntrico de dominação.

Se a biblioteca da inocência ocidental tiver de ser definida por conceitos essenciais, dois parecem evidentes: o liberalismo e o esquecimento da história. O liberalismo consistiu na prerrogativa de universalizar o que convinha à burguesia emergente e de particularizar (e, portanto, descartar) tudo o que se lhe opunha. O esquecimento da história consiste em concebê-la como passado e nunca como presente. Os EUA foram construídos à custa do extermínio dos índios, mas isso é passado ou filmes de Hollywood e John Wayne. O bem-estar dos europeus foi construído tanto com o roubo dos recursos naturais dos povos colonizados, quanto com o roubo dos seus recursos humanos através da escravatura, mas isso terminou com o fim da escravatura e as independências das colónias.

A vigência dos princípios e valores universais e as instituições que lhes foram dando corpo nunca impediram que houvesse exclusões sociais no interior do mundo dos seres considerados plenamente humanos. Mas tais exclusões foram controladas e minoradas pela vigência efectiva desses princípios e instituições: primado do direito, democracia, direitos humanos. Ou seja, direitos e garantias a serem accionados para eliminar ou minorar tais exclusões.

A cegueira constitutiva do liberalismo foi não ver que do outro lado da linha abissal, no mundo das relações entre os seres considerados plenamente humanos e os seres considerados sub-humanos, tais princípios e instituições não vigoravam, precisamente porque, se funcionassem do mesmo modo, poriam em causa a fractura abissal que lhes dera vida. Por isso, as práticas sociais nunca puseram em causa a universalidade dos princípios que violavam.

O preço que se paga por se ser considerado plenamente humano e protegido como tal nestas condições reside num risco existencial. O risco de, em algum momento, vir a ser-se confrontado com a ideia de que essa condição de plenitude, longe de ser um direito natural e universal, é um cruel privilégio que, desde o século XVI, assenta na necessidade inelutável de submeter populações inteiras à condição de sub-humanidade.

A ideologia da vigência universal que sustenta o princípio do primado do direito ou o princípio dos direitos humanos é tão hegemónica que as populações consideradas sub-humanas não têm sequer outra alternativa para minorar o sofrimento injusto a que são sujeitas senão apelar para esses princípios, mesmo sabendo que eles só virão em sua ajuda para aliviar marginal e transitoriamente a sua condição e para garantir a sua passividade ante o sistema de dominação.

Ser plenamente humano nas condições da modernidade ocidental implica um grau de desumanização. Implica ter de viver com a ideia de que a plenitude humana, de que tanto se orgulham os modernos eurocêntricos, assenta nos escombros, nas ruínas, nas valas comuns da humanidade de tantos seres humanos ao longo da história moderna, e hoje mais que nunca.

Arrisco-me a afirmar, pensando em Gaza, que esse grau de desumanização é vivido hoje com mais intensidade do que nunca, mesmo que seja uma vivência de passividade. É o resultado de processos sociais complexos e até contraditórios, tão contraditórios quanto as soluções que estão a ser dadas a essa vivência existencial.

As sociedades contemporâneas estão dramaticamente divididas entre os grupos sociais que não querem lembrar a história e os grupos sociais que a não podem esquecer. Por isso, concluo este texto com a voz do grande poeta palestiniano, Mahamoud Darwish:

A guerra vai acabar

Os líderes apertarão as mãos

A mulher idosa continuará à espera do seu filho martirizado

A rapariga esperará pelo seu amado marido

E as crianças esperarão pelo seu pai herói

Não sei quem vendeu a nossa pátria

Mas vi quem pagou o preço.


Fonte aqui.

O sadismo tornou-se um símbolo dos Estados Unidos – Parte II

(Por Chris Hedges, 27/06/2021)

(E aqui fica a segunda parte, tão ou mais brutal do que a primeira.

Estátua de Sal, 21/08/2021)


A classe dominante dedica enormes recursos para mascarar o sadismo social e o assassinato. Controla as narrativas na imprensa. Inunda os nossos ecrãs com imagens e propaganda amigáveis e alegres, aperfeiçoadas pelas empresas de publicidade e relações públicas. Essas alucinações eletrónicas distraem-nos das limitações das nossas próprias vidas. Ofuscam a natureza fundamental do capitalismo corporativo. Atacam a nossa auto-estima e suscitam uma tomada de consciência embaraçosa sobre a nossa aparência, posição social e funções corporais. Falsificam a ciência e os dados, como fizeram as indústrias de combustíveis fósseis, pecuária e tabaco durante décadas.

Criam, como escreve Guy Debord , a “espetacular sociedade mercantil” que é um substituto sedutor para a democracia participativa. Essa tirania empresarial reduz a escolha política às prescrições sádicas fornecidas pelo poder corporativo. Isso cria uma sociedade onde há uma ausência de quase todas as construções sociais e políticas positivas. Mesmo a mudança social, reduzida a políticas de identidade e multiculturalismo, foi efetivamente castrada pela propaganda corporativa. O sentimento de agir, poder pessoal e estatuto social veem quase exclusivamente, como Nietzsche previu, a servir à máquina sádica.

Intermediários de energia da Enron, num diálogo que poderia ter vindo de qualquer grande corporação, gravado em 2000, discutindo como “roubar” a Califórnia. Identificados como Kevin e Bob, rejeitaram os pedidos dos reguladores da Califórnia de reembolsos por causa da constante manipulação de preços da empresa:

Kevin: Então o que está sendo dito é verdade? Esses filhos da puta vão tirar todo o dinheiro de vocês? Todo aquele dinheiro que vocês roubaram daquelas pobres avós na Califórnia?
Bob: Sim, caro. Mas foram elas que não souberam votar com essa porra do voto automático.
Kevin: Sim, agora querem a porra do dinheiro de volta por toda a eletricidade que você cobrou a 250 dólares o megawatt-hora.
Bob: Você sabe, você sabe, você sabe… mas isso é aquilo por que Al Gore está lutando, já viu?

Mais tarde, na mesma conversa, Kevin e Bob menosprezam os californianos:

Kevin: Oh, a melhor coisa que pode acontecer é a porra de um terremoto, deixe essa coisa flutuar no Pacífico e coloque velas neles.
Bob: Eu sei. Esses tipos, você só precisa demiti-los.
Kevin: Eles estão tão metidos na merda e tão, como posso dizer…
Bob: Eles estão tão fodidos

A obscena avareza dos muito ricos agora supera o hedonismo e os excessos dos déspotas mais hediondos e dos capitalistas mais ricos do passado. Em 2015, pouco antes de sua morte, a [revista] Forbes estimou que o património líquido de David Rockefeller era de 3 mil milhões. O Xá do Irão roubou cerca de mil milhões ao seu país. Ferdinand e Imelda Marcos acumularam entre 5 e 10 mil milhões. O ex-presidente do Zimbabué, Robert Mugabe, valia cerca de mil milhões. Jeff Bezos e Elon Musk valem cada um 180 mil milhões. Sim, o decoro da presidência de Biden difere da presidência de Trump. Mas a exploração mercenária subjacente e o sadismo da sociedade americana permanecem intactos.

O Plano de Empregos Americanos de Biden nunca criará “milhões de empregos bem remunerados – empregos com os quais os americanos possam criar suas famílias”, assim como o NAFTA, que ele apoiou, não criou como também havia sido prometido milhões de empregos bem remunerados. Seu mantra do “compre americano” é inútil. A grande maioria de nossos produtos eletrónicos, roupas, móveis e produtos industriais é feita na China por trabalhadores que ganham em média um ou dois dólares por hora e não têm sindicatos e direitos sindicais básicos [NT] . Seu apelo para reduzir as franquias e os custos dos medicamentos prescritos no Affordable Care Act nunca será permitido pelas empresas que lucram com os cuidados de saúde.

Suas promessas de tributação justa, apesar de os homens mais ricos do mundo – Jeff Bezos, Elon Musk, Warren Buffett, Carl Icahn, Michael Bloomberg e George Soros – pagarem uma taxa de impostos real de 3,4%, não serão alteradas. Os subsídios corporativos e incentivos fiscais que ele propõe como solução para a crise climática [NR] nada farão para deter a fraturação hidráulica para extrair petróleo e gás, fechar centrais a carvão ou interromper a construção de novos gasodutos para centrais movidas a gás. O dinheiro para projetos de infraestrutura é destinado a grandes corporações e governos estaduais.

O sistema de saúde continuará privatizado, o que significa que as seguradoras e as empresas farmacêuticas colherão dezenas de milhares de milhões de dólares com o Plano de Resgate Americano, e isto quando já estavam tendo lucros recordes. Os lucros que os grandes bancos, Wall Street e os especuladores globais predatórios obtêm com os níveis maciços de escravidão por dívida imposta a uma classe trabalhadora mal paga, incluindo os empréstimos estudantis, continuarão a direcionar dinheiro para as mãos de uma pequena minoria oligárquica.

Não haverá reforma do financiamento das campanhas para acabar com o sistema de suborno legalizado. Os gigantescos monopólios de tecnologia permanecerão intactos. A censura imposta pelas plataformas de media digitais, a obliteração de nossas liberdades civis e a vigilância do governo por atacado continuarão a ser aplicadas. O pedido de Biden de 715 mil milhões para o Departamento de Defesa no ano fiscal de 2022, um aumento de 1,3 mil milhões (1,6%) em relação a 2021, irá exacerbar as provocações militares com a China e a Rússia, as guerras intermináveis no Médio Oriente e a inchada indústria de defesa.

As indústrias que foram enviadas para o exterior e os empregos sindicalizados bem remunerados não voltarão. Os 81 milhões de americanos que lutam para cobrir as despesas domésticas básicas, os 22 milhões que não têm comida suficiente e os 11 milhões que não podem atender ao próximo pagamento da casa estão prestes a bater numa parede quando os parcos benefícios do alívio de contas pelo COVID acabarem e a moratória sobre despejos e execuções hipotecárias for levantada. A máquina do capitalismo predatório, e o sadismo que o define, envenenarão a sociedade com a mesma crueldade com Biden como quando Trump geria a presidência no Twitter. Essas chamadas reformas não têm mais peso do que as promovidas por Bill Clinton e Barack Obama, com quem Biden colaborou servilmente e que também prometeram igualdade social enquanto traíam homens e mulheres trabalhadores.

Biden é a epítome da criatura vazia e amoral produzida pelo sistema de suborno legalizado, aqueles que construíram a cultura de sadismo. Sua longa carreira política no Congresso foi definida pela representação dos interesses das grandes empresas, especialmente as de cartão de crédito sediadas em Delaware. Ele foi alcunhado de Senador do Cartão de Crédito. Sempre disse ao público o que ele queria ouvir e depois os vendeu.

Foi um proeminente promotor e arquiteto de uma geração de leis federais “duras com o crime” que militarizaram a polícia do país e mais do que duplicaram a população do sistema prisional, a maior do mundo, com diretrizes severas de condenação obrigatória e leis que colocam pessoas na prisão por toda a vida por crimes não violentos com drogas, mesmo enquanto o seu filho lutava contra o vício. Ele foi o principal autor do Patriot Act . E nunca houve um sistema de armas ou uma guerra que ele não apoiasse. Nada de substancial mudará sob Biden, apesar da propaganda sobre ser o próximo Franklin Roosevelt.

A administração Biden assemelha-se ao governo alemão ineficaz formado por Franz von Papen em 1932, tentando recriar o antigo regime, um conservadorismo utópico que garantiu a queda da Alemanha para o fascismo. Biden está privado, como von Papen, de novas ideias e programas. Manterá a máquina de repressão bem lubrificada, uma máquina que foi fundamental na construção da sua carreira política. Aqueles que resistirem serão atacados como agentes de uma potência estrangeira e censurados, como muitos já estão a ser, através de algoritmos e de plataformas eletrónicas nas redes sociais. Os dissidentes mais ardentes, como Julian Assange, serão criminalizados.

As elites fingem que Trump era uma anomalia bizarra. Ingenuamente acreditam que podem fazer Trump e seus apoiantes mais vociferantes desaparecerem, banindo-os das redes sociais. O “antigo regime” irá, afirmam, voltar com o decoro da sua presidência imperial, respeito pelas normas procedimentais, eleições elaboradamente coreografadas e fidelidade às políticas neoliberais e imperiais. Mas o que as elites governantes estabelecidas ainda não compreenderam, apesar da estreita vitória eleitoral de Joe Biden sobre Trump e da tomada da capital em seis de janeiro por uma multidão enfurecida, é que a credibilidade da velha ordem está morta. A era Trump, se não o próprio Trump, é, a menos que quebremos o domínio do poder corporativo, o futuro. As elites governantes, representadas por Biden e o Partido Democrata e a ala bem educada do Partido Republicano representada por Jeb Bush e Mitt Romney, estão indo para o caixote do lixo da história.

O crescente ressentimento dos desapossados é alimentado pelos media que dividiram o público em grupos demográficos concorrentes. As plataformas dos media tomam como alvo um grupo, alimentando as suas opiniões e tendências, enquanto demonizam estridentemente o grupo demográfico do outro lado do xadrez político. Isto provou ser um êxito comercial. Mas também dividiu o país em facções irreconciliáveis que não podem mais comunicar entre si, sendo a verdade e a realidade dos factos ambas sacrificadas.

O Partido Democrata, numa tentativa desesperada de controlar a narrativa mediática, construiu uma aliança com gigantes da indústria dos media sociais como Twitter, YouTube, Facebook, Patreon, Substack e Spotify para restringir ou censurar os seus críticos. O objetivo é levar o público de volta às organizações de notícias aliadas do Partido Democrata, como The New York Times, The Washington Post CNN. Mas estes meios de comunicação, que prestam serviço a anunciantes corporativos, tornaram invisíveis as vidas da classe trabalhadora e dos pobres. Eles são tão desprezados quanto as próprias elites no poder.

A perda de credibilidade também deu origem a novos grupos, muitas vezes espontâneos, bem como à franja lunática de direita que abraça as teorias da conspiração como o QAnon . Eles aproveitam a indignação emocional, muitas vezes substituindo uma indignação por outra. Fornecem novas formas de identidade para substituir as identidades perdidas por dezenas de milhões de americanos que foram postos de lado. Essa indignação emocional pode ser aproveitada para causas louváveis, como acabar com o abuso policial, mas muitas vezes é efémera. Transforma o debate político em protestos de queixa, na melhor das hipóteses, e mais frequentemente em espetáculo televisivo.

Estes episódios não representam nenhuma ameaça para as elites, a menos que construam estruturas organizacionais disciplinadas, o que leva anos, e articulem uma visão do que poderia vir a seguir. É por isso que apoio a Extinction Rebellion, que tem uma grande rede de base, especialmente na Europa, realiza atos efetivos de desobediência civil e tem um objetivo claramente declarado de derrubar as elites governantes e construir um novo sistema de governo por meio de comités populares e seleção aleatória. Mas essa indignação emocional, que colocou Trump na Casa Branca, também pode atiçar o sadismo americano, especialmente entre uma classe trabalhadora branca que se sente destronada e abandonada.

O colapso de nossa sociedade não é apenas político. É ecológico. Os cientistas há muito alertam que, à medida que as temperaturas globais [NR] aumentam, aumentando a precipitação e as ondas de calor em muitas partes do mundo, as doenças infecciosas disseminadas por animais afetarão as populações e se expandirão para as regiões do norte. Doenças zoonóticas – doenças que saltam de animais para humanos – como SIDA que matou aproximadamente 36 milhões de pessoas, gripe aviária, gripe suína, ébola e COVID-19, que já matou cerca de 4 milhões, se espalharão pelo mundo em variantes cada vez mais virulentas, frequentemente sofrendo mutações além do nosso controlo.

O uso indevido de antibióticos na indústria de criação de animais, que responde por 80% de todo o uso de antibióticos, produziu variantes de bactérias que são resistentes aos antibióticos e fatais. Uma versão moderna da Peste Negra, que no século XIV matou entre 75 e 200 milhões de pessoas, eliminando talvez metade da população da Europa, é provavelmente inevitável, desde que as indústrias farmacêutica e médica estejam configuradas para ganhar dinheiro em vez de proteger e economizar vidas.

Mesmo com as vacinas, não temos infraestrutura nacional para distribuí-las de maneira eficiente porque o lucro supera a saúde. E os do sul global estão, como sempre, abandonados, como se as doenças que os matam nunca nos alcancem. A decisão de Israel de distribuir vacinas COVID-19 para 19 países, enquanto se recusa a vacinar os 5 milhões de palestinos que vivem sob sua ocupação, é emblemática da impressionante miopia da elite governante, para não mencionar da imoralidade.

O que está a acontecer não é negligência. Não é inépcia. Não é uma falha política. É um assassinato social. É assassinato porque é premeditado. É assassinato porque uma escolha consciente foi feita pelas classes dominantes globais para extinguir a vida em vez de protegê-la. É um assassinato porque o lucro, apesar das estatísticas, das crescentes perturbações climáticas e da modelagem científica, é considerado mais importante do que a sobrevivência humana.

As elites globais prosperam neste sistema, contanto que cumpram os ditames do que Lewis Mumford chamou de “megamáquina”, a convergência de ciência, economia, tecnologia e poder político unificados numa estrutura burocrática integrada cujo único objetivo é perpetuar-se. Essa estrutura, observou Mumford, é antitética aos “valores que melhoram a vida”. Mas desafiar a megamáquina, nomear e condenar o seu desejo de morte, é ser expulso de seu santuário interno. Há, sem dúvida, alguns dentro da megamáquina que temem o futuro, que estão horrorizados com o assassinato social, que se preocupam com o que vai acontecer aos seus filhos, mas não querem perder seus empregos e sua condição social para se tornarem párias.

Os militares dos Estados Unidos – que respondem por 38% dos gastos militares em todo o mundo – são, naturalmente, incapazes de combater a grave crise existencial diante de nós. Os caças, satélites, porta-aviões, frotas de navios de guerra, submarinos nucleares, mísseis, tanques e vastos arsenais de armas são inúteis contra as pandemias e a crise climática. A máquina de guerra, que gasta 1,2 milhões de milhões de dólares para modernizar o arsenal nuclear, não faz nada para mitigar o sofrimento humano causado por ambientes degradados que adoecem e envenenam populações ou tornam a vida insustentável.

A poluição do ar já mata cerca de 200 mil americanos por ano, enquanto as crianças em cidades decadentes como Flint, Michigan ficam afetadas para o resto da vida com a contaminação de chumbo na água potável. E, além de tudo isto, os militares dos EUA emitiram 1 200 mil milhões de toneladas de emissões de CO2 entre 2001 e 2017, o dobro da produção anual dos veículos de passageiros do país.

As gerações futuras, se houver alguma, olharão para trás, para a atual classe dominante global como a mais criminosa da História da humanidade, condenando deliberadamente milhares de milhões de pessoas à morte. Esses crimes estão a ser cometidos à nossa frente. E, com poucas exceções, somos conduzidos como ovelhas para o matadouro.

O mal radical que torna possível este assassinato social é perpetrado por burocratas e tecnocratas incolores que saem das escolas de negócios, faculdades de direito, programas de gestão e universidades de elite. Nulidades demoníacas. São estes os gestores de sistemas que realizam as tarefas que fazem com que os vastos e complicados sistemas de exploração e morte funcionem. Eles coletam, armazenam e manipulam nossos dados pessoais para monopólios digitais e o Estado de segurança e vigilância. Lubrificam as rodas da ExxonMobil, BP e Goldman Sachs. Escrevem as leis que a classe política, comprada e paga, aprova. Conduzem drones que aterrorizam os pobres no Afeganistão, Iraque, Síria e Paquistão.

Eles lucram com as guerras sem fim. São os propagandistas corporativos, especialistas em relações públicas, especialistas em televisão que inundam com mentiras. Dirigem os bancos. Supervisionam as prisões. Emitem formulários. Processam papéis. Negam vales-refeição e cobertura médica para alguns e benefícios de desemprego para outros. Realizam os despejos. Fazem cumprir as leis e os regulamentos. Eles não fazem perguntas, eles vivem num vácuo intelectual, um mundo de minúcias embrutecedoras. Eles são “os homens vazios”, “os homens coisa” de T.S. Eliot. “Forma sem forma, sombra sem cor”, como escreveu o poeta. “Força paralisada, gesto sem movimento.”

Estes gestores do sistema possibilitaram os genocídios do passado. Mantiveram os comboios a funcionar. Preencheram a papelada. Apreenderam a propriedade e confiscaram as contas bancárias. Fizeram o seu processamento. Racionaram a comida. Administraram os campos de concentração e as câmaras de gás. Impuseram a lei. Eles fizeram o seu trabalho. Estes gestores do sistema, sem nenhuma educação, exceto na sua minúscula especialidade técnica, carecem de linguagem e autonomia moral para questionar as suposições ou estruturas dominantes.

O romancista russo Vasily Grossman no seu livro Forever Flowing observou que “o novo Estado não exigia santos apóstolos, fanáticos, construtores inspirados, discípulos fiéis e devotos. O novo Estado nem mesmo exigia criados – apenas escriturários.” Essa ignorância metafísica, produto de um sistema educacional que é principalmente vocacional, une as engrenagens da cultura do sadismo e do assassinato social. Não nos livraremos do capitalismo predatório e de sua cultura de sadismo com escassas esmolas do governo. Não vamos desviar-nos porque os habilidosos escritores dos discursos de Biden e especialistas em relações públicas, que usam sondagens e fazedores de opinião para nos dizer o que queremos ouvir e fazer-nos sentir que a administração está do nosso lado. Não há boa vontade na Casa Branca de Biden, no Congresso, nos tribunais, nos media – que se tornaram uma câmara de eco das classes privilegiadas – ou nas salas de reunião corporativas. Eles são o inimigo.

Vamos libertar-nos desta cultura de sadismo da mesma forma que os desapossados se afastaram do estrangulamento do capitalismo de compadrio durante a Grande Depressão, organizando, protestando e desorganizando o sistema até as elites governantes serem forçadas a conceder medidas de justiça social e económica. O Bonus Army , dos veteranos da Primeira Guerra Mundial a quem foi negado o pagamento de pensões, montou enormes acampamentos em Washington, que foram violentamente dispersos pelo exército. Grupos de vizinhança, muitos deles membros dos Wobblies ou do Partido Comunista, na década de 1930 impediram fisicamente os xerifes de despejarem famílias. Em 1936 e 1937, o sindicato United Auto Workers realizou uma greve dentro das fábricas que paralisou a General Motors, forçando a empresa a reconhecer o sindicato, aumentar os salários e satisfazer as exigências sindicais de proteção do emprego e condições de segurança no trabalho.

Os agricultores, forçados à falência e execuções hipotecárias pelos grandes bancos e Wall Street, fundaram a Farmer’s Holiday Association para protestar contra a apreensão de fazendas familiares, uma das razões pelas quais ladrões de bancos como John Dillinger, Bonnie e Clyde e a Barker Gang eram heróis populares. Os fazendeiros bloquearam estradas e destruíram montanhas de produtos agrícolas, reduzindo a oferta e aumentando os preços. Os agricultores, tal como os trabalhadores sindicalizados da indústria automobilística, suportaram ampla vigilância do governo e ataques violentos do FBI, capangas da empresa, assassinos contratados, milícias e departamentos do xerife. Mas a militância funcionou. Os fazendeiros forçaram o Estado a aceitar uma moratória nas execuções de hipotecas. Ao mesmo tempo, as manifestações em massa fora das capitais pressionaram os parlamentos estaduais a bloquear a cobrança de hipotecas vencidas.

Agricultores e rendeiros do sul sindicalizaram-se. O Departamento do Trabalho chamou à sua ação coletiva de “guerra civil em miniatura”. Em todo o país, os desempregados e os famintos ocuparam casas e terrenos baldios, formando favelas conhecidas como Hoovervilles . Os destituídos ocuparam prédios públicos e serviços públicos. Essa pressão constante e não a boa vontade de Roosevelt criou o New Deal. Ele e seus companheiros oligarcas acabaram entendendo que se não houvesse reforma haveria revolução, algo que Roosevelt reconheceu na sua correspondência privada.

Até que as pessoas sejam reintegradas na sociedade, até que o controle das corporações e oligarquias sobre os nossos sistemas educacionais, políticos e dos media sejam removidos, até recuperarmos a ética do bem comum, não temos qualquer esperança de reconstruir os laços sociais positivos que promovem uma sociedade saudável.

A história ilustrou amplamente como esse processo funciona. É um jogo de medo. E até deixarmos as elites governantes com medo, até que um aterrorizado Joe Biden e os oligarcas que ele serve olhem para um mar de gente com forcados, não pararemos a cultura do sadismo e do assassinato social que eles engendraram.

A rebelião, no entanto, deve ter sua própria justificativa. É um imperativo moral, não prático. Não apenas corrói, ainda que impercetivelmente, as estruturas de opressão, mas mantém o lume da empatia e compaixão, bem como da justiça, dentro de nós, desafiando o sadismo que impregna todas as camadas da nossa existência. Em suma, mantém-nos humanos. A rebelião deve ser abraçada, finalmente, não apenas pelo que ela vai realizar, mas pelo que ela permitirá que nos tornemos. Nesse devir, encontramos esperança.


[NT] A China, conforme declarou Xi Jinping, concretizou o objetivo da construção de uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspetos, alcançando a histórica situação de ter erradicado a pobreza extrema. Algo que nem a UE e muito menos os EUA conseguem.
[NR] Ver A impostura global .


A primeira parte deste artigo encontra-se aqui .

[*] Jornalista. Ver Chris Hedges . Palestra feita em The Sanctuary for Independent Media , em Troy, Nova York, 27/Jun/21.

O original encontra-se em scheerpost.com/2021/06/29/chris-hedges-speaks-on-american-sadism/


Fonte aqui


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O sadismo tornou-se um símbolo dos Estados Unidos – Parte I

(Por Chris Hedges, 27/06/2021)

(Hesitei em publicar este texto. Por ser longo, por ser denso, por ser uma espécie de murro no estômago dos crentes no futuro da Humanidade. Mas a verdade não deve ser escondida por muito que dilacere as almas. Sim, a História tem sido um desfilar de sofrimento e de lágrimas para muitos milhões de seres humanos, e a civilização erige-se sobre monumentais horrores.

Capaz das obras mais notáveis, de beleza ímpar – mas também capaz das maiores atrocidades -, o ser humano balança entre o grito da vítima e o sadismo do carrasco, desde tempos imemoriais. E a fronteira entre a vítima e o carrasco é ténue. Demasiado ténue. Um requiem pelo futuro da Humanidade? Talvez.

Estátua de Sal, 20/08/2021)


O sadismo caracteriza quase todas as experiências culturais, sociais e políticas nos Estados Unidos. Expressa-se na ganância desenfreada de uma elite oligárquica que viu a sua riqueza aumentar durante a pandemia em 1 100 milhões de dólares, enquanto o país sofria o maior aumento da sua taxa de pobreza em mais de 50 anos. Expressa-se nas mortes arbitrárias cometidas pela polícia sobre cidadãos desarmados em cidades como Minneapolis. Expressa-se nas “técnicas aprimoradas de interrogatório” usadas pela CIA nos seus locais secretos, na Baía de Guantanamo e nas prisões nos próprios EUA. Expressa-se na separação das crianças de pais sem documentos, crianças que são detidas como se fossem cachorros num canil.

Expressa-se na pornificação da sociedade americana, onde mulheres são torturadas, espancadas, degradadas e sexualmente violadas, muitas vezes por vários homens, em filmes pornográficos e, em seguida, descartadas após algumas semanas ou meses com traumas graves, juntamente com doenças sexualmente transmissíveis e lacerações vaginais e anais que devem ser reparadas cirurgicamente. Expressa-se no movimento “incel” que perpetra agressões violentas contra mulheres por homens que se dizem desprezados ou ignorados por mulheres.

Expressa-se no sistema predatório de saúde, onde, como escreve Steven Brill , uma ida à emergência por dores que acabam sendo por indigestão pode ultrapassar o custo de um semestre na faculdade; um simples trabalho de laboratório feito durante alguns dias num hospital pode ser mais caro do que um carro novo e um medicamento que exige 300 dólares para ser fabricado, que o fabricante vende para um hospital por 3 000 a 3 500 pode custar ao paciente 13 702.

Nos Estados Unidos é legalmente permitido que empresas de saúde mantenham crianças doentes como reféns enquanto seus pais se endividam até à falência para salvar seus filhos ou filhas.

Esse sadismo expressa-se nos empréstimos sobre salários, prisões com fins lucrativos, privatização da escola pública e dos serviços públicos e o crescimento de exércitos mercenários com fins lucrativos. Expressa-se na glorificação cultural da violência pelos media, pelo Estado, pelas indústrias de divertimento e pelos jogos. É expresso nos tiroteios em massa de niilistas em escolas, incluindo escolas primárias, e locais de trabalho. Isto expressa-se nas guerras assassinas e fúteis que os EUA promovem ou apoiam no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Iémen.

O historiador Johan Huizinga , em O declínio da Idade Média , argumentou que, à medida as coisas começam a desmoronar-se, o sadismo é abraçado para enfrentar a hostilidade de um universo indiferente. Não mais ligada a um propósito comum, uma sociedade em rutura recua para o hedonismo e o culto de si mesmo. Celebra, como fazem as corporações de Wall Street ou os reality shows populares da televisão, os traços clássicos dos psicopatas: charme superficial, grandiosidade e presunção; necessidade de estimulação constante; uma tendência para mentir, engano e manipulação; e a incapacidade de sentir remorso ou culpa. Apanhe o que puder, o mais rápido que puder, antes que outra pessoa consiga.

Este é o estado selvagem, a “guerra de todos contra todos”, que Thomas Hobbes viu como a consequência da desintegração social, um mundo em que a vida se torna “solitária, pobre, desagradável, brutal e curta.” É um mundo no qual os poderosos, homens como Jeffrey Epstein e Harvey Weinstein, reduzem o corpo e a personalidade de suas vítimas a nada.

Nós sabemos a que se assemelha este sadismo. Assemelha-se a Derek Chauvin sufocando até a morte George Floyd enquanto polícias seus colegas assistiam impassíveis. Assemelha-se à morte de Andrew Brown Jr. baleado cinco vezes pela polícia na Carolina do Norte, incluindo uma bala na nuca. Assemelha-se à violação de Abner Louima, que teve um cabo de vassoura enfiado no reto pela polícia num casa de banho da esquadra do 70º distrito no Brooklyn, exigindo três grandes operações para reparar os ferimentos internos.

Assemelha-se ao Chefe de Operações Especiais da Marinha, Edward Gallagher, que atirou indiscriminadamente até a morte sobre civis desarmados e usou uma faca de caça para esfaquear repetidamente um prisioneiro iraquiano ferido e sedado de 17 anos e depois fotografar-se com o cadáver. Assemelha-se aos civis iraquianos, poucos dos quais tinham alguma coisa a ver com a rebelião, nus, amarrados, espancados e sexualmente humilhados, violados, e às vezes assassinados, por guardas do exército e de empresas privadas em Abu Ghraib. Assemelha-se aos prisioneiros em Abu Ghraib que eram rotineiramente arrastados pelo chão da prisão por uma corda amarrada ao pénis e sodomizados por lâmpadas químicas que por vezes eram partidas para que o líquido fosfórico se derramasse sobre seus corpos nus, é isto também o sadismo.

As fotos divulgadas de Abu Ghraib são a verdadeira face da América, o homem encapuçado, uma figura de capa escura em pé sobre uma caixa, braços estendidos, fios presos aos dedos ou o homem nu com coleira deitado aos pés de uma soldado americana que segura uma trela, enrolada no pescoço, do prisioneiro.

Por quê o mal-estar de uma civilização moribunda se expressa por meio do sadismo, em vez de um tipo de raiva justificada? Aqui devemos voltar-nos para Friedrich Nietzsche. Nietzsche advertiu que aqueles que são humilhados e impotentes são envenenados pelo ressentimento. Por terem sido destituídos do arbítrio, eles não têm o poder de prejudicar aqueles que os prejudicaram. Em suma, não há libertação catártica. O ressentimento é gerado a partir da auto-estima diminuída. Ele apodrece e corrói a alma.

Os impotentes, e aqui Nietzsche escreve sobre o cristianismo como uma religião escrava, devem expressar o seu ressentimento obliquamente e subrepticiamente, daí o racismo codificado, a islamofobia e o suposto anseio por um retorno da família tradicional e aos valores “cristãos”. O ressentimento é produzido por sentimentos de inferioridade, fracasso e inutilidade. E esse ressentimento, alimentado pela aversão a si mesmo, expressa-se por meio do sadismo, a que Nietzsche chama de “destruir a vontade” dos mais fracos ou mais vulneráveis. Nietzsche entendeu que essa “destruição da vontade” dos outros transmite um prazer pervertido e sádico. Ele escreve em A Genealogia da Moral , que “ver os outros sofrer faz bem a alguém e fazer os outros sofrerem ainda mais (…) Sem crueldade não há festa(…) e na punição há tantas coisas que são festivas!”

O ressentimento na sociedade americana, escreve a cientista política Wendy Brown , nasce não apenas de sentimentos de impotência e inutilidade, mas de sentimentos de perda de proeminência e de direitos. Isso explica o que ela chama de “política permanente de vingança, de atacar aqueles culpados pela perda de proeminência da masculinidade branca – feministas, multiculturalistas, mundialistas, que tanto os destituem quanto os desprezam”. Por isso, a raiva não pode, como poderia ser na teologia cristã, sublimada em abnegação e apelo ao amor ao próximo. Em suma, nada há para mitigar ou redirecionar nesse ressentimento. Sua pura expressão é niilismo e sadismo. Trump incorporou essa ética sombria. A vingança é a sua única filosofia de vida. Aqueles que são dominados pelo ressentimento não são mais capazes de criar. Eles só podem destruir. Eles acendem alegremente sua própria pira funerária.

Leis, instituições e estruturas burocráticas são deformadas para servir aos interesses de uma minúscula cabala, uma elite voraz, que enriquece às custas de todos os demais. Todos são feitos para se curvar aos ditames do que Max Weber chamou de “máquina inanimada”. A máquina inanimada força a grande maioria para a massa, mas permite a alguns selecionados, dispostos a fazer seu trabalho sujo, elevarem-se acima da multidão. Esses poucos privilegiados recebem licença e autoridade para realizar os atos de sadismo que se tornaram as formas primárias de controle social. Esses executores fazem esse trabalho vigorosamente, pois o seu maior medo é serem empurrados de volta para a massa. Quanto mais esses soldados da elite insultam, perseguem, torturam, humilham e matam, mais parece aumentar, magicamente, a divisão entre eles e suas vítimas. É por isso que a polícia negra e os guardas prisionais negros podem ser tão cruéis, e às vezes mais cruéis, do que seus colegas brancos.

O sadismo erradica, pelo menos momentaneamente, os sentimentos de inutilidade, vulnerabilidade e suscetibilidade à dor e à morte do sádico. Ele transmite sentimentos de omnipotência. E dá prazer. Fui espancado pela polícia militar saudita e mais tarde pela polícia secreta de Saddam Hussein quando fui feito prisioneiro em Bassorá, pouco depois da primeira Guerra do Golfo. Aqueles que me bateram gostaram do seu trabalho. Eu podia ver nos seus rostos. O abuso de Israel aos palestinos, os ataques a muçulmanos, a meninas e a mulheres na Índia e a difamação dos muçulmanos nos países que ocupamos são parte do flagelo do sadismo ao serviço de uma “máquina inanimada” que se tornou global.

As feministas há muito entenderam que o sadismo funciona como uma corrente elétrica através do desejo sexual masculino. A pornografia é sobre a fantasia de homens omnipotentes, que têm o poder de torturar e abusar fisicamente de meninas e mulheres que imploram para serem degradadas na pornografia. “A diversão sexual e a paixão sexual na privacidade da imaginação masculina são inseparáveis da brutalidade da história masculina”, escreve Andrea Dworkin . “O mundo privado de dominação sexual que os homens exigem como seu direito e sua liberdade é a imagem espelhada do mundo público de sadismo e atrocidade que os homens deploram consistentemente e com justiça própria. É na experiência masculina de prazer que se encontra o significado da história masculina”.

As mulheres, é claro, não estão imunes a atos de sadismo. Ilse Koch , conhecida como a “Bruxa de Buchenwald”, com seu marido, o comandante do campo de extermínio, costumava atirar prisioneiros para jaulas de ursos e vê-los serem despedaçados e devorados. A chilena Adriana Rivas , que enfrentou a extradição da Austrália para o Chile, teria torturado prisioneiros amarrando-os a camas de metal ligados a corrente elétrica enviando choques para os seus corpos ou sufocando-os até a morte com sacos plásticos durante o regime de Pinochet. Mas Dworkin está certa em destacar o sadismo como inerente às expressões masculinas de poder total e inexplicável, razão pela qual o sadismo é a principal característica do imperialismo.

Jean Amery , que esteve na resistência belga na Segunda Guerra Mundial e foi capturado e torturado pela Gestapo em 1943, define sadismo “como a negação radical do outro, a negação simultânea do princípio social e do princípio da realidade. No mundo do sádico, tortura, destruição e morte são triunfantes: e tal mundo claramente não tem esperança de sobrevivência. Pelo contrário, ele deseja transcender o mundo, para alcançar a soberania total pela negação dos outros seres humanos – que ele vê como representando uma espécie de “inferno”.

O ponto de Amery é importante. Uma sociedade sádica é sobre autodestruição coletiva. É a apoteose de uma sociedade deformada por experiências avassaladoras de perda, alienação e êxtase. A única maneira de afirmação que resta a sociedades falidas é destruindo.

Johan Huizinga em seu livro O declínio da Idade Média observou que a dissolução da sociedade medieval provocou “o carácter violento da vida”. Hoje, esse “carácter violento” leva as pessoas a cometerem assassinatos criminosos, despejos de famílias, falências ordenadas por tribunais, negação de atendimento médico a doentes, atentados suicidas e tiroteios em massa. O sadismo transmite o ímpeto e o prazer, muitas vezes com fortes implicações sexuais, que nos atraem para o que Sigmund Freud chamou de instinto de morte, o instinto de destruir todas as formas de vida, incluindo a nossa. Quando envolvido por um mundo saturado de morte, a morte, ironicamente, é considerada a cura.

Joseph Conrad viu o suficiente do mundo como comandante da marinha para saber a corrupção irredimível da humanidade. As nobres virtudes que levaram personagens como Kurtz em O coração das trevas para a selva dissimulavam o egoísmo abjeto, a ganância desenfreada e o assassinato que definem todos os projetos imperiais. Conrad estava no Congo no final do século XIX, quando o monarca belga, Leopold, em nome da civilização ocidental e do antiesclavagismo, saqueava país. A ocupação belga, transformou o Congo numa plantação de borracha, resultando na morte por doença, fome e assassinato de cerca de dez milhões de congoleses.

No conto de Conrad, An Outpost of Progress , escreve sobre dois comerciantes europeus brancos, Carlier e Kayerts, que são enviados a uma estação comercial remota no Congo. A missão é dotada de um grande propósito moral – exportar a “civilização” europeia para a África. Mas o tédio e a falta de restrições rapidamente transformam os dois homens em selvagens. Eles trocam escravos por marfim. Eles entram numa luta por causa dos fornecimentos de comida cada vez menores e Kayerts dispara e mata Carlier desarmado.

“Eles eram dois indivíduos perfeitamente insignificantes e incapazes”, escreveu Conrad sobre Kayerts e Carlier: cuja existência só é possível através da alta organização de multidões civilizadas. Poucos homens percebem que a sua vida, a própria essência de seu caráter, suas capacidades e suas audácias, são apenas a expressão da sua crença na segurança do que os cerca. A coragem, a compostura, a confiança; as emoções e princípios; todo o pensamento grande ou insignificante pertence não ao indivíduo, mas à multidão; à multidão que acredita cegamente na força irresistível das instituições e da moral, no poder da polícia e da opinião pública. Mas o contacto com a selvajaria pura e sem mitigação, com a natureza primitiva e o homem primitivo, traz problemas súbitos e profundos ao coração. Ao sentimento de estar isolado dos seus semelhantes, à clara perceção da solidão dos seus pensamentos, de suas sensações – à negação do habitual, que é seguro, acrescenta-se a afirmação do incomum, que é perigoso; uma sugestão de coisas vaga, incontrolável e repulsiva, cuja intrusão desconcertante excita a imaginação e põe à prova os nervos civilizados dos tolos e dos sábios.”

O diretor-gerente da Grande Companhia Civilizadora – pois, como observa Conrad, a “civilização” segue o comércio – no final da história chega num navio, mas não é recebido no cais pelos seus dois agentes. Sobe a encosta íngreme para a estação comercial com o capitão e o maquinista atrás dele. O diretor encontra Kayerts, que, após o assassinato, cometeu suicídio enforcando-se com uma tira de couro da cruz que marcava o túmulo do chefe da estação anterior. Os dedos dos pés de Kayerts estão alguns centímetros acima do solo. Seus braços pendem rigidamente para baixo “e, irreverentemente, ele deitava para fora a língua inchada, para o seu Diretor-Geral”. O sadismo é realizado em nome de um bem moral, para proteger a civilização ocidental, os valores “cristãos”, a democracia, a raça dominante, “liberté, égalité, fraternité”, o paraíso dos trabalhadores, o novo homem ou o racionalismo científico. O sadismo corrigirá as falhas da espécie humana. O jargão varia. O sentimento sombrio é o mesmo.

“Honra, justiça, compaixão e liberdade são ideias que não têm convertidos”, escreve Conrad. “Só existem pessoas, sem saber, sem compreender ou sentir, que se intoxicam com palavras, gritam, imaginando que acreditam nelas sem acreditar em mais nada a não ser no lucro, na vantagem pessoal e na própria satisfação.” “O homem é um animal cruel”, escreveu Conrad. “Sua crueldade deve ser organizada. A sociedade é essencialmente criminosa – ou não existiria. É o egoísmo que salva tudo – absolutamente tudo – tudo o que detestamos, tudo o que amamos”. Bertrand Russell disse de Conrad:   “Senti, embora não saiba se ele teria aceitado tal imagem, que ele pensava na vida humana civilizada e moralmente tolerável como uma caminhada perigosa sobre uma fina crosta de lava mal resfriada que a qualquer momento pode quebrar e deixar os incautos afundar nas profundezas do fogo”.

Kurtz, o auto-iludido comerciante de marfim megalomaníaco em O coração das trevas, termina plantando as cabeças murchas de congoleses assassinados em estacas fora de sua remota estação comercial. Mas Kurtz também é altamente educado e refinado. Conrad descreve-o como um orador, escritor, poeta, músico e o respeitado agente principal da Estação Interna da Companhia de Marfim. Ele é “um emissário da piedade, ciência e progresso”. Kurtz era um “génio universal” e “uma pessoa notável”. Ele é um prodígio, ao mesmo tempo multitalentoso. Ele foi para a África movido por nobres ideais e virtudes. Ele terminou sua vida como um tirano auto-iludido que pensava ser um deus.

“Sua mãe era meio inglesa, seu pai meio francês”, escreve Conrad sobre Kurtz: “Toda a Europa contribuiu para a formação de Kurtz; e com o tempo eu aprendi que, muito apropriadamente, a Sociedade Internacional para a Repressão dos Costumes Selvagens havia-lhe confiado a elaboração de um relatório, para sua orientação futura… Ele começou com o argumento de que nós, brancos, do ponto de desenvolvimento a que chegamos, “devemos necessariamente aparecer para eles [selvagens] na natureza como seres sobrenaturais – nós os abordamos com a força de uma divindade”… e assim por diante. “Pelo simples exercício de nossa vontade, podemos exercer um poder para o bem praticamente ilimitado”, etc, etc.

Desse ponto em diante, ele elevou-se e levou-me com ele. A peroração foi magnífica, embora difícil de lembrar. Deu-me a noção de uma imensidão exótica governada por uma augusta Benevolência. Isso fez-me estremecer de entusiasmo. Era o poder ilimitado da eloquência – das palavras – das palavras nobres ardentes. Não houve dicas práticas para interromper a corrente mágica das frases, a menos que uma espécie de nota no rodapé da última página, rabiscada evidentemente muito mais tarde, numa caligrafia instável, possa ser considerada a exposição de um método. Era muito simples, e no final daquele comovente apelo a todo sentimento altruísta resplandeceu, luminoso e terrífico, como um relâmpago num céu sereno: “Exterminar todos os brutos!”

“Vamos esclarecer a lógica por trás de toda esta forma de retribuição – é muito estranho. A equivalência é feita da seguinte forma: em vez de uma vantagem que indemnize diretamente o dano (portanto, em vez de uma indemnização em ouro, em terrenos, em qualquer propriedade), o credor recebe a título de ressarcimento e indemnização uma espécie de prazer – o prazer de poder desabafar sobre uma pessoa indefesa sem ter que pensar nisso, o prazer de fazer o mal por fazer, o gozo da transgressão. Esse gozo é tanto mais valorizado quanto mais baixo está o devedor na ordem social, e o credor pode facilmente vê-lo como uma gula saborosa, até mesmo um sabor de categoria superior”.

“Através da “punição” do devedor, o credor compartilha um direito que pertence aos senhores. Finalmente, ele mesmo chega, pela primeira vez, à sensação estimulante de desprezar um ser como alguém “inferior a ele”, como alguém a quem ele tem o direito de maltratar – ou, pelo menos, se a real força da punição, da aplicação da pena, já foi transferido para as “autoridades”, a sensação de ver o devedor desprezado e maltratado. A compensação consiste então numa autorização e num direito à crueldade”.

O sadismo social e o assassinato, como observou Friedrich Engels no seu livro de 1845, A condição da classe trabalhadora em Inglaterra , são inerentes ao sistema capitalista. As elites governantes, escreve Engels, aquelas que detêm “controle social e político”, estavam bem cientes de que as duras condições de trabalho e de vida durante a revolução industrial condenavam os trabalhadores a “uma morte prematura e não natural”. A formação de sindicatos e o socialismo foram uma resposta direta a essas forças malévolas. Como Engels escreveu:

“Quando um indivíduo inflige danos corporais a outro, resultando em morte, chamamos seu ato de assassinato. Mas quando a sociedade coloca centenas de proletários numa posição em que eles inevitavelmente encontram uma morte prematura e antinatural, que é tanto uma morte pela violência quanto aquela pela espada ou bala; quando priva milhares das necessidades vitais, os coloca em condições em que não podem viver – os obriga, através do forte braço da lei, a permanecer em tais condições que a morte acontece como uma consequência inevitável – sabendo que esses milhares de vítimas devem perecer e, ainda assim, permitir que essas condições permaneçam, sua ação é o assassinato tão certamente quanto a ação de um único indivíduo; homicídio disfarçado, malicioso, homicídio contra o qual ninguém se pode defender, que não parece o que é, porque ninguém vê o assassino, porque a morte da vítima parece natural, pois o delito é mais por omissão do que por cometimento. Mas o assassinato permanece”.

continua

[*] Jornalista. Ver Chris Hedges . Palestra feita em The Sanctuary for Independent Media , em Troy, Nova York, 27/Jun/21.

O original encontra-se em scheerpost.com/2021/06/29/chris-hedges-speaks-on-american-sadism/


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