O mundo sem nós

(António Guerreiro, in Público, 08/06/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Quem, dotado de conhecimento empírico e sensibilidade rural, atravessar algumas zonas onde foi cumprida, com o máximo zelo, a ordem governamental de limpeza dos campos e florestas como princípio de precaução, depara-se muitas vezes com um cenário sem vida: toda a vegetação rasurada, a terra despida de acidentes vegetais, as árvores com os ramos subidos, mantidos à distância de tudo o que arde, a visibilidade total garantida, de modo a que nem um rato encontra lugar onde se esconder. Ali, a prevenção do acidente foi a causa do acidente. Perigoso redobramento este, em que a relação com a catástrofe se tornou catastrófica. Estes campos e florestas limpinhos, oferecidos à população urbana como imagem de um mundo desejável, onde foram anulados muitos dos riscos potenciais, são na verdade um mundo desenhado no ecrã por geo-construtivistas que põem em prática, antecipadamente, as projecções do Pior, sob o pretexto de as evitar. Não exageremos, baixemos o tom demagógico porque, ao menos, não temos mortes de pessoas, às dezenas. Não temos o Pior, temos apenas expropriação ecológica. E o Pior, estamos bem lembrados, deu-se de facto no ano passado, não por causa destes geo-construtivistas, que administram uma biopolítica das florestas e dos campos contra os desastres potenciais, mas por causa de outros geo e sócio-construtivistas que não saberemos nunca nomear porque fazem parte de uma cadeia histórica de transmissões e responsabilidades.

Quando os campos e florestas ficarem completamente limpos, de modo a evitar qualquer catástrofe, quando à beira das estradas forem abatidas todas as árvores que chocavam contra os carros ou avançavam para os focos de incêndio, teremos realizado o ideal da paisagem biopolíticamente construída por uma demência ortomaníaca. Aí, tudo é ordem e beleza, luxo, calma e voluptuosidade. É um convite à viagem? Pois é. Mas não convida ninguém a lá ficar.

Quando os jornais avisam, logo no princípio da Primavera, que este ano “podem” arder não sei quantos milhares de hectares e divulgam um “mapa de risco” elaborado por cientistas, o que significa este “podem”? Trata-se de um risco que se situa no campo do provável, ou de um risco puramente potencial? É preciso distinguir um do outro: o primeiro deve ser objecto de uma acção de prevenção, facilmente justificável, enquanto o segundo, o risco potencial, implica uma resposta muito mais difícil de executar e de legitimar. E se tivéssemos entrado numa zona de sensibilidade paranóica que já não consegue distinguir um do outro? E se esta biopolítica que procura a total imunização tivesse um “efeito boomerang” (já visível para quem está treinado a olhar a paisagem sem ser nos ecrãs ou através de lentes fotográficas)? Contra este argumento, pode-se dizer: antes isso do que o descuido que já matou tanta gente. Mas construir um mundo em que o ideal é a imunidade absoluta ao desastre e, no mais alto grau, à catástrofe é  começar a desencadear o Pior, um pouco da morte. Paul Virilio, o grande teórico da velocidade, inventor dessa ciência que é a dromologia, mostrou com eloquência que o acidente é consubstancial à substância. Esta não é o que existe antes daquilo que acontece (o desastre), mas o que existe ao mesmo tempo. Assim, inventar o navio é inventar o naufrágio. O desastre global, diz Virilio, dá-se quando há uma industrialização do “acidente artificial”. O acidente artificial, neste caso, é uma “limpeza” que se pretende tão eficaz, tão preventiva, tão imunizadora, que provoca boa parte do mal que pretende prevenir e dá-nos, numa forma abreviada, a imagem da catástrofe ecológica última: um mundo sem nós.

Na prática, 80% dos incêndios de Outubro tiveram causas intencionais

(Por Penélope, in Blog Aspirina B, 21/03/2018)

fogo_diabo

DN faz um resumo do relatório independente sobre os incêndios de Outubro do ano passado. A páginas tantas, lê-se que  “em termos de grandes grupos de causas (…) 40% tiveram origem em reacendimentos, 40% em causas intencionais e 20% em negligentes“.

Portanto, 20% deveram-se a comportamentos negligentes, como os da EDP ou queimadas irresponsáveis, mas 40% foram o resultado de crimes premeditados. E o mais extraordinário é que os outros 40%, segundo o relatório, foram reacendimentos. Em lado nenhum se fala do efeito da incidência dos raios solares (“nas margaridas”) ou da formação espontânea de chamas. Ou seja, em 40% dos incêndios houve alguém que quis provocar tragédias intencionalmente e conseguiu, e os 40% restantes foram reacendimentos dos primeiros 40% intencionais, depois de terem sido dados como extintos. Podemos, assim, afirmar que 80% dos incêndios foram propositados, se incluirmos os que foram consequência dos ateamentos iniciais.

Parece-me muito esclarecedor e sobretudo muito grave e implica sem qualquer dúvida que se enverede por um discurso diferente sobre os incêndios, que comece por não omitir este dado importantíssimo e acabe a falar de vigilância local e familiar e de penas pesadas para os criminosos. Há pessoas que não se importam de atear fogos apenas pelo prazer de ver tudo a arder e famílias em pânico, algumas das quais acabam mortas. E assim temos hectares e hectares de floresta ardida e centenas de vidas destruídas por crimes que não só não foram evitados ou sequer mencionada a sua possibilidade em alertas, como também nem sempre são devida e exemplarmente punidos.

Resta a questão de saber quantos dos incêndios intencionais, se é que alguns, foram ateados com fins políticos. Morreremos na ignorância? (Eu sei que está lá dito o seguinte: “Os elementos da comissão técnica admitem que as causas intencionais “são as que apresentam maior dificuldade na compreensão e na antecipação, por não ser conhecido o seu móbil, exceto posteriormente, se capturado e obtida confissão dos autores“.  Pois capturem-nos!)

Que a floresta estava seca e a esmagadora maioria das matas (mas nem todas) por limpar é uma verdade incontestável. E que esse facto, aliado aos fenómenos meteorológicos extremos, facilitou a propagação das chamas e a dificuldade em apagá-las também não suscita dúvidas a ninguém. Assim como o dever permanente e eterno de melhorar a coordenação, a organização e o emprego dos meios de combate para estancar a devastação. Mas também é verdade que a intenção de provocar danos – materiais e/ou políticos – não pode estar ausente dos discursos nem do apuramento de responsabilidades. Este crime não pode ser “normalizado” nem esquecido como se fosse uma inevitabilidade.


Fonte aqui

Limpar a mata num país sem gente 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/03/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Como já se previa, o prazo para a limpeza das matas foi alargado. Esperou-se pelo último dia para o anunciar, tentando que o esfoço não abrandasse. Mas era preciso atender a um facto simples: o de se estar a fazer em poucos meses o que não era feito, em alguns casos, há muitos anos. Não devemos dramatizar. Há queixas e lamentos. Muitos. Há sempre que se tem de fazer um corte com o passado. A tendência normal do humano é, mesmo perante a tragédia, resistir a mudar de hábitos. Depois, quando os resultados chegam, novos hábitos se instalam.

Acho bem que o governo tenha marcado o dia de hoje para a limpeza, com alguma folga para a época dos incêndios e acho que era inevitável que alargasse os prazos. Dito isto, não nos devemos iludir com o saudável empenho conjunto de primeiro-ministro e do Presidente da República em mostrar ao País que a limpeza da mata é um desígnio nacional. Não chega muita vontade.

Ouviram-se muitas queixas nas últimas semanas. Algumas justíssimas, sobretudo relativas à informação pouco rigorosa que foi chegando aos proprietários, que não sabiam o que cortar exatamente, levando a alguns crimes ambientais, até com sobreiros abatidos. Uma carta das Finanças terá contribuído especialmente para a confusão. É um dos graves problemas do nosso Estado: a falta de profissionalismo na forma como comunica com os cidadãos, sempre entre a total opacidade (é preciso um contabilista para decifrar uma simples carta da Autoridade Tributária) e absurda vacuidade das formulações que escolhe.

Mas as principais queixas são as que nos alertam que não chegam pacotes legislativos, multas e discursos motivacionais para mudar o Portugal profundo em poucos meses. O esforço hercúleo na limpeza das matas, vivido em muitas aldeias deste País nas últimas semanas, revela quase todos os problemas do nosso território. Não é por decreto que grandes partes do nosso interior deixa de ser quase exclusivamente habitado por velhos e que aparece gente jovem para fazer o trabalho de limpeza. Não é por uma decisão política instantânea que os pequenos proprietários passam a ter o dinheiro que não tinham para fazer o abate das árvores. Não há nenhum discurso que, de um dia para o outro, transforme o minifúndio, grande parte dele abandonado por quem nem vive no local, em unidades de exploração com dimensão suficiente para garantirem os recursos financeiros necessários para a sua preservação.

O clamor nacional do verão, que nos dizia que nada podia ficar como antes, chocou, nestas semanas, com a realidade. Com problemas estruturais do território que não se resolvem com medidas expeditas, pacotes legislativos e exigências de editorialistas. Os incêndios revelaram todas as fragilidades do nosso desenvolvimento e do nosso território. Sendo tudo uma questão de vontade, a vontade não resolve em meses problemas de décadas.

Neste momento apenas se tenta fazer o básico para impedir que haja, este ano, uma tragédia igual à do ano passado. E mobilizam-se proprietários, autarquias e Estado central para a prevenção, parente pobre no combate aos incêndios. Mas não vale a pena ter ilusões: é impossível defender a floresta num interior despovoado, envelhecido e em que a propriedade se baseia no minifúndio.