(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 25/07/2017)

O papel da comunicação social é escrutinar o poder. Por isso, mesmo perante acusações de aproveitamento político, que surgem sempre que a comunicação social põe em causa um governo em apuros, só pode merecer apoio a insistência para tudo se saber em relação ao que se passou em Pedrógão Grande. No caso de Portugal merece especial aplauso, já que esta permanência num assunto é muito pouco habitual. Não devemos criticar a comunicação social quando faz o seu trabalho. A critica é para quando não o faz.
Lançou-se agora um debate sobre a lista das vítimas mortais do incêndio. Como a confusão se instala com facilidade cito Pedro Santos Guerreiro: “O Expresso não escreveu nem sugeriu que o governo ocultou nomes. Nem que a lista oficial está em aberto. Pelo contrário, o Expresso escreveu que a lista oficial de 64 mortos está fechada, revelou que a lista tem critérios que excluem vítimas indiretas, informação tão desconhecida como a própria lista.” É isto que está em debate e quem cita o Expresso para dizer que o governo está a esconder vítimas por razões políticas está a fazer extrapolações abusivas e pouco sérias.
Temos dois debates: o facto da lista não ser conhecida e os critérios que levam a que não sejam tratadas da mesma forma as vítimas indiretas.
Quanto à primeira questão, partilho da dúvida de Pedro Santos Guerreiro: que raio de proteção da investigação leva à não divulgação dos nomes das 64 vítimas mortais? Em atentados terroristas, de investigação muito mais sensível, os nomes foram conhecidos. Até para lhes prestarmos a devida homenagem. Mas se a lista se encontra em segredo de justiça e cabe ao Ministério Público decidir se ela pode ser divulgada fazem pouco sentido ultimatos ao governo. Sabe-se que o governo pode pedir o levantamento do segredo de justiça para evitar o alarme social. Mas que alarme social é esse? Bastou ao “Público” dar-se ao trabalho de ouvir vários penalistas para cada cabeça dar a sua sentença e vários explicarem que faz todo o sentido não divulgar a lista de nomes até tudo estar investigado. Não me convenceram. Mas também me parece inacreditável que o não pedido de levantamento de segredo de justiça por parte do governo seja transformado na prova de que este tem intenções perversas nesta história. Aliás, o que fica claro é que muitos dos que fizeram a acusação de ocultação nem sequer procuraram saber antes a razão da não divulgação.
Quanto ao segundo debate, ele parece-me mais complexo. Parece-me óbvio que as vítimas indiretas devem ser consideradas, mesmo que sejam diferenciadas do ponto de vista estatístico. Não sei, sinceramente não sei, se isso se arruma de uma penada quando se começar a alargar o conceito de vítima indireta. Quem olhou para a lei rapidamente percebeu que ela nada dizia que nos pudesse esclarecer. Mas daí não se conclui que as vítimas indiretas não existem. O suicídio inventado por Passos Coelho, por exemplo. Se tivesse acontecido era uma vítima do incêndio? Era preciso conhecermos os casos concretos. Não precisamos de consultar juristas para perceber que a existência de vítimas indiretas é uma lapalissada. Elas ainda podem vir a existir nos próximos anos. No caso conhecido, é óbvio que se trata de uma vítima dos incêndios. Serão todos assim? Não sei. Sei que o Estado não faz listas de vítimas mortais de um acidente com base do trabalho voluntarioso de uma empresária. Listas oficiais não são artigos de jornais. Seguem critérios e têm consequências jurídicas, financeiras e morais. O Estado não pode ter a ligeireza da imprensa. E enquanto os jornalistas têm sido rigorosos, colunistas (alguns deles jornalistas) têm sido de uma leviandade por vezes perturbante na leitura que fazem dos factos.
Como seria de esperar, o debate rapidamente mudou de plano quando isto passou para uma acusação que exige ou provas claras do que se está a dizer ou uma enorme leveza perante a vida das pessoas: que o governo estaria a esconder vítimas para diminuir o impacto da tragédia. Para a acusação não ser estapafúrdia teria de corresponder a um aumento exponencial do número de mortos. Só assim é plausível que algum governo irresponsável seguisse tão inacreditável caminho. Mesmo pondo a possibilidade da lista não ter sido atualizada depois de outros corpos terem sido encontrados, alguém de boa fé acredita que algum governo se arriscaria a esconder mortos por causa do impacto de 73 ou 80 mortos em vez de 64? Nada se sabe que permita lançar essa suspeita. O que se sabe até agora é que há uma separação entre vítimas diretas e indiretas dos incêndios que pode alterar o número oficial. E que a divulgação de nomes depende, segundo o governo, de uma decisão do Ministério Público. Tudo o resto é um macabro jogo político que acabará por se virar contra quem o está a fazer.
Acusar um governo de esconder os mortos para diminuir o impacto de uma tragédia é uma acusação gravíssima. Espero, de quem fez essa acusação, provas bem claras de que conscientemente o governo ocultou vítimas por razões políticas. Se elas não vierem, espero um pedido de desculpas. Não aos leitores e eleitores. Não ao governo. Mas às vítimas e às suas famílias por este indecoroso aproveitamento. Nem Passos Coelho, que inadvertidamente inventou suicídios, foi tão longe na ligeireza. Já tinha escrito que perante os bons resultados da economia o desespero levaria a uma política feia no aproveitamento dos incêndios de Pedrógão. Esperava que ele se ficasse pelos partidos. Infelizmente, no espaço de opinião também cresce a irresponsabilidade. Usar o sofrimento perante morte para fazer insinuações sem provas com objetivos políticos não é mau gosto. É abjeto.
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