SILLY SEASON

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 25/07/2015)

Clara Ferreira Alves

                         Clara Ferreira Alves

Como aves de arribação, os jornalistas desembarcam todos no mesmo lugar da crise aguda, e desembarcam assim que se torna crónica, gerando o desinteresse coletivo


O ciclo noticioso de 24 horas e o fluxo de informação fazem com que todos os acontecimentos sejam equivalentes e logo esquecidos. A notícia vive do choque, do sobressalto, do instante, permeável ao imediatismo e ao sentimentalismo. Assim, toda a moral se torna relativa e subjetiva. Tivemos o “Charlie Hebdo”, o ‘Je Suis Charlie’, o Daesh, os vídeos das decapitações, os refugiados sírios, os afogados do Mediterrâneo, a vitória do Syriza, Varoufakis vs. Schäuble. Tivemos eleições nacionais e regionais, ameaças separatistas, pronúncias papais sobre homossexuais, um acordo iraniano e a concórdia cubano-americana. E temos agora, nos Estados Unidos, em carrossel noticioso, the Donald, um espécime raro do narcisismo. Em Portugal, tivemos a versão periférica destas emoções com o duelo Sócrates/Carlos Alexandre, a queda da casa Espírito Santo, a despedida de Relvas e a reabilitação de Relvas, a novela da TAP e as anedotas dos partidos. Participámos emocionados nos acontecimentos internacionais, o ‘Je Suis Charlie’ ou os migrantes, e logo os esquecemos, como aliás o resto do planeta informado. Ninguém espera pela sequência e no follow-up está uma parte da verdade. Uma notícia afoga a seguinte, inunda-a da água em remoinho da novidade. Como aves de arribação, os jornalistas desembarcam todos no mesmo lugar da crise aguda, e desembarcam assim que se torna crónica, gerando o desinteresse coletivo. A isto chama-se, no jargão, comportamento de matilha, responsável pela repetição ad nauseam das mesmas histórias, escritas e reescritas ao espírito do tempo. Nunca chegamos a ver a continuação do filme, e muito menos o fim. E não queremos ver. O jornalismo perdeu a capacidade de atração, o suspense, o crescendo da história e o seu remate. Só algumas revistas e jornais americanos e ingleses conseguem hoje contar a história toda e contá-la de um modo que seja, como se deseja, o primeiro esboço da história. A “Vanity Fair” perdeu alguns dos seus melhores escritores, incluindo o grande Christopher Hitchens (que gostava de desembarcar quando os outros tinham apanhado o avião) e persegue disfarçadamente o folhetim Kardashian. Resta-lhe um, William Langewiesche. A “Atlantic” e a “New Yorker”, dado o estado calamitoso da “New Republic” (e do milionário imberbe que a comprou), conseguem estruturar e publicar histórias que correspondem ao que de melhor o jornalismo pode fazer. Chamo-lhe histórias e não reportagens porque são uma mistura de investigação aturada, opinião, reportagem, tudo embrulhado na linguagem adequada, que despreza o cliché e tenta a literatura. Na “New Yorker” saiu uma história do respeitadíssimo Seymour Hersh que conta uma narrativa muito diferente daquela que foi posta a circular pelo Governo e os militares americanos sobre o assassínio de Bin Laden. Mesmo com as dúvidas que provoca, é um contributo para a versão integral, dando a conhecer factos que fazem sentido. Na mesma “New Yorker”, Lawrence Wright (talvez o melhor jornalista de investigação do mundo) acaba de publicar a história dos pais que viram os filhos raptados e decapitados pelo EI. Wright estabelece um relato seguro do que aconteceu a um grupo de reféns cujas caras e cabeças ensanguentadas pudemos ver à exaustão na net e sobre os quais, afinal, nada sabíamos. É um trabalho de reflexão, descrição, investigação, que se autoriza a compaixão. É também um relato arrepiante que esclarece os métodos do EI e dos governos americano e europeus ao operarem nas areias movediças dos ultimatos terroristas. No turbilhão noticioso e opinativo, onde nada se distingue do nada e tudo provoca a indignação ou a lágrima fáceis, ninguém reparou no último capítulo da história do “Charlie Hebdo” e na pequena notícia que dizia que o jornal não voltará a publicar caricaturas de Maomé. Charlie não é Charlie, afinal. Como ninguém quer saber o que acontece aos jovens que conseguem penetrar os “paraísos” europeus da Itália ou da Grécia, em que campos de internamento amanhecem, quem são os prostitutos e vendedores de droga na Estação Termini de Roma; como os migrantes são explorados pelas máfias e recrutados por redes extremistas; o que acontece aos refugiados sírios num Líbano que os hostiliza; a explicação para Gaza ainda não ter sido reconstruída apesar dos milhões doados a Ramallah; como o Rei da Jordânia ameaçou destruir o EI e desistiu; como o Estado Islâmico se torna, lentamente, um verdadeiro Estado, perante a passividade e perplexidade do Ocidente (com exceção de uma peça publicada no “New York Times”); como é que a França e a Grã-Bretanha travam a guerra ao terror, na definição de Bush. O que aconteceu ao Kosovo? Ao Afeganistão? E acontecerá na Grécia? Da Grécia está tudo farto. Voltaremos quando piorar. Queremos sofrimento e caos, como os deuses. Assim, o mundo não muda. Avança aos trambolhões.

MARIA DE JESUS

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 11/07/2015)

Clara Ferreira Alves

                            Clara Ferreira Alves

Maria de Jesus Barroso Soares gostava muito das pessoas. Era como se o mundo fosse a sua família, e ela amava a família como amava Deus, sobre todas as coisas.

Foi estranho não a ver sentada na primeira fila da igreja. A compostura elegante, a discrição sem severidade, o olhar reto, as costas direitas. Fina como um pássaro de voos largos e asas de marfim. Sempre me pareceu uma figura preciosa, dessas estatuetas que atravessam os séculos porque são feitas de matéria rija e macia que o tempo não quebra. Silenciado o último cântico, ela teria sido a primeira a levantar-se para nos vir consolar. Para nos dar um abraço. Para nos dar um beijo. Para aliviar a perda. Foi estranho porque estávamos ali por causa dela, e o cântico era lacrimoso e de despedida. Um grupo de portugueses que só ela conseguiria unir. E, repito, consolar. As despedidas são cabos das tormentas que ela dobrava como dobrou todas as ausências e despedidas da vida de mãe-coragem e de mulher exemplar. Uma voz moral, declamando poemas em português, uma voz naturalmente afinada para as declinações da palavra. A voz moral de uma pessoa moral, de uma pessoa justa, de pessoa corajosa e generosa. Não apenas uma boa pessoa, mas uma pessoa boa.

Maria de Jesus Barroso Soares gostava muito das pessoas. Era como se o mundo fosse a sua família, e ela amava a família como amava Deus, sobre todas as coisas. Há muitos, muitos anos, éramos todos muito mais novos, a Maria de Jesus e o marido — e ele foi o marido dela tanto como ela foi a mulher dele — abriram as portas da casa de Nafarros a um grupo de jovens. Jovens de todas as classes sociais e de todas as denominações. Mário Soares era o chefe de um Partido Socialista na oposição, e decidiu-se realizar uma série de encontros com personagens, artistas, intelectuais, etc. E jovens. Os jovens deve ter sido ideia dele, ou de ambos, porque Maria de Jesus era uma educadora por vocação, a juntar às outras vocações. Nafarros foi ideia dela. Era no campo e estava bom tempo e podiam estar à vontade. Os jovens fariam as perguntas que entendessem. Alguns estavam intimidados por aquelas duas figuras, aquele casal histórico. Maria de Jesus quis oferecer um almoço, ao fresco, e foi ela que se encarregou de quebrar o gelo, fazendo perguntas aos estudantes. O encontro correu muito bem, o ar cheirava a flores, e à sombra verde das árvores havia uma mesa de toalha branca com comida farta, caseira. Os jovens esqueceram a intimidação. E, quando parecia que o dia não seria mais perfeito, ela levantou-se e disse: “Vou buscar uma coisa.” E trouxe um grande prato com morangos. Morangos pequeninos, morangos de Sintra, colhidos de manhãzinha, ainda picados do orvalho. Montanhas de morangos. Pousou o prato e disse: “Os morangos fazem bem.” Nunca esqueci o raio de sol que lhe pousou sobre o rosto ao dizer isto. Os morangos eram o toque dela, o toque pessoal, o toque de mãe. Um bom prato de morangos para alimentar os jovens. Foi uma alegria. Foi um mimo. Ela também era jovem, mais jovem do que sou hoje. Era uma mulher bonita, com um rosto saudável e aberto, um sorriso limpo. E aquela voz, que aceitava todas as tonalidades do afeto como aceitava as do poema ou da frase. Voz feita para grandes feitos.

Recordo-a assim, iluminada pela claridade de Sintra num dia sem nevoeiro, ela dissera na véspera que se estivesse bom tempo podíamos comer fora de casa e Deus fez-lhe a vontade. Recordo-a em tempos sombrios, quando o filho muito amado esteve quase morto e ela regressou ao seu nome, Maria de Jesus, convertendo-se ao catolicismo dos primeiros anos. Foi o consolo da “Pietà”. O João salvou-se, Deus fez-lhe sempre a vontade.

Recordo-a com a sua Isabel, no colégio, acompanhando as conversas, assistindo às sessões, escutando os outros com a ternura de uma mãe que tem orgulho nos filhos, nos netos, nos alunos, nos velhos e nos novos, nos seres humanos. Sempre presente. Sempre ao lado. Sempre na primeira fila, que era o seu lugar natural mesmo quando não queria chamar sobre si as atenções. O saia-casaco bem cortado, o cabelo penteado, os sapatos de salto que a elevada estatura humana dispensava. Questão de comportamento, de decoro, de porte. Era, repito, uma mulher elegante.

Recordo-a a caminhar sobre as areias do Alvor, no verão, fazendo a passeata madrugadora à beira-mar. Umas vezes acompanhei-a e fiquei a arfar. Era uma atleta habituada a corridas de fundo, e foi essa também a vida política. Fundadora do Partido Socialista em Bad Münstereifel, a companheira nos tempos solitários da prisão e do exílio. José Cardoso Pires contou-me uma história desses anos de chumbo. Ela pediu, quando soube que o escritor ia a Paris e ia estar com Mário Soares, se lhe podia transportar umas camisas lavadas e engomadas para o marido, porque em Paris ele não tinha quem lhe tratasse da roupa. E lá foi ele, carregado de camisas ao passar a fronteira. Amava o próximo, esta mulher. E amava o distante. Regressou ao seu nome, Maria de Jesus, como quem regressa a casa.

KARL, MANDA O CHANEL NOIR

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 04/07/2015)

Clara Ferreira Alves

               Clara Ferreira Alves

(Nota: Apesar das ações dos agentes, individualmente considerados, não serem explicação suficiente para o curso da História, também não há explicação desta que possam ignorar a importância de algumas personagens. E, neste sentido, este texto é notável por prefigurar arquétipos comportamentais diversos que determinarão, seguramente, o resultado do referendo grego de amanhã e do que se irá passar em consequência. Estátua de Sal.)

O problema dos gregos foi e será um bom tema para os profissionais do conselho, que têm várias soluções para a crise e orientações de voto

Toda a gente tem, tinha, teria, teve, terá, um conselho a dar aos gregos sobre como votar num referendo, incluindo os profissionais do conselho. Proponho uma grelha fixa de opção múltipla.

1) Sou um douto Prémio Nobel de Economia a atirar para o keynesiano e vivo em Manhattan que fica longe de Atenas. Sou pago a peso de ouro para desafiar em prosa o capitalismo internacional. Tenho sempre razão e tive sempre razão. Aconteça o que acontecer, a minha vida segue igual. Votem NÃO.

2) Sou um financeiro desses que ganham dinheiro à custa dos desgraçados e estados falhados, vivo de apostas, sei os truques todos e tenho servidores super-rápidos e traders com vazios occipitais de aço. Estou a apostar contra a dívida portuguesa e espanhola e vou ganhar um milhão. Votem NÃO, make me rich.

3) Sou um jornalista com garras e pertenci em tempos à extrema-esquerda, queria salvar o mundo e ganhava uma miséria. Com a idade, descobri que o capitalismo existe e encontrei-o. Passei a ser de extrema-direita e tenho rendimentos, um bom carro alemão e ataques epiléticos de cada vez que vejo um dos antigos correligionários. Passei de Mao a mau e adoro os republicanos americanos embora ache o Tea Party um bocado comunista. Pelo-me por viagens a Washington. Gregos, arrasem o Syriza, votem SIM e corram com esses palhaços.

4) Sou um potentado do “Financial Times”, desses que ajudam os que têm menos cabedal para estas crises a pensar. Sou pago a preço de ouro para fazer previsões mas não acertei uma. Já disse tudo e o seu contrário, nuns dias aconselhei os gregos a não pagarem ao FMI e no dia seguinte aconselhei os gregos a pagarem ao FMI. Ninguém reparou porque ninguém estava à espera de que eles não pagassem ao FMI. Percebo o Syriza e acho que os tipos tem “balls” mas se o dissesse publicamente perdia o emprego e a Lagarde não me largava. Votem SIM.

5) Sou um manda-chuva europeu e só apareço em público com ar de compunção para disfarçar a minha falta de princípios, a minha cobardia e o meu amor à burocracia de que sou um membro bem pago. O dinheiro emprestado à Grécia serviu para pagar aos credores e nunca serviu os gregos. Ahahah! Só agora perceberam? Não querem mais dinheiro emprestado? Vão para o inferno. Odeio os gregos e em particular estes tipos do Syriza que são jovens. Odeio países como a Grécia que me fazem lembrar como o Luxemburgo é um país mais estúpido do que a Suíça e menos rico do que o Liechtenstein. Vou tomar um copo e mandar um whatsapp ao bacano do Orbán. Mon cher Viktor. Votem SIM, mantenham-me empregado.

6) Sou um analista dos que passam a vida na CNN e na BBC a comentar a crise com aproximações analíticas. Tenho uma tese de doutoramento de merda mas sou um perito. A Grécia e o terrorismo são um maná. Já disse tanta coisa que agora só me ocorre dizer isto, aconteça o que acontecer, está bom para comprar propriedades na Grécia. Casas, ilhas, praias, vivendas. Preço da chuva, se me entendem. Votem NÃO.

7) Falando de vivendas, sou um pobre Presidente de um país pobre que se distingue por nada ter de distinto. Não falo, mando bocas, e aqui vai mais uma: se a Grécia sair ficam 18 países. La Palice ao meu lado é um tolo. Se eu soubesse quem é o La Palice, que não sei, só me disseram que éramos parecidos. É com c ou dois ss? Votem BEM.

8) Sou um poderoso chefão alemão e sofri um atentado que me derrubou. Abomino a esquerda. E abomino aquele tipo careca da moto, aquele bonitão arrogante que me olha de alto sabendo que estou cá em baixo. Vou matá-lo, e ao contrário do imbecil que me atentou, não falharei. Sou rijo como um corno de veado da Floresta Negra. Sou bad como o lumbricus badensis, a minhoca gigante da dita. Votem SIM e deixem o careca para mim. Heil!

9) Sou um esquerdista imaculado que acha que os amanhãs cantam e o socialismo vencerá e todos seremos felizes se eliminarmos o capitalismo e o substituirmos por… depois logo se vê. Votem NÃO, camaradas.

10) Sou a mulher mais poderosa do mundo. Tenho responsabilidades e o nazismo em cima. A rainha de Inglaterra que é alemã lá foi a Bergen-Belsen, eu a aguentar isto e os gregos e o meu ministro que é um touro enraivecido. E o chantagista do Cameron. Estou com uma enxaqueca. Gregos, não sei o que dizer-vos, estou como o choninhas do francês, não faço a mínima. Eu cá fico a apanhar os cacos e apanhar cacos é o que a Alemanha sabe fazer. Nós por cá todos bem: Über alles e assim. Para nós, a Grécia vem de carrinho, ou de Uber, ahahah. Fiz uma piada? Fiz.

11) Não sou a mulher mais poderosa do mundo. Isto aborrece-me. Mas sou autoritária. Tenho de bronzear-me na máquina para estar bem na conferência. Adoro o sol e não faço liftings como o Putin. Por causa dos malditos gregos tenho de adiar o voo para as Caraíbas. Votem SIM. Vou prevenir-me e pedir ao Karl um Chanel noir para o funeral da Europa.