Alemanha: As eleições tornaram-na instável

(Michael Roberts, in Resistir, 28/09/2021)

O resultado das eleições federais alemãs foi quase exactamente como as sondagens de opinião previam. Os sociais-democratas (SPD) obtiveram a maior parte dos votos (25,7%), mais 5,2% pontos do que na catástrofe de 2017. A percentagem de votos da União Social Cristã Democrática e Cristã (CDU-CSU) desceu para 24,1%, a sua percentagem mais baixa desde a sua formação. Os Verdes contados obtiveram 14,8%, menos do que as sondagens anteriores haviam previsto, mas ainda assim o melhor resultado de sempre para eles (mais 5,8% pontos). O partido das pequenas empresas, os Democratas Livres do Mercado (FDP) obtiveram 11,5% (ligeiramente acima de 2017).

Alemanha encaminha-se para governo de três partidos após eleição renhida
Alemanha encaminha-se para governo de três partidos após eleição renhida.

O Die Linke de esquerda sofreu muito, caindo para apenas 4,9%, contra 9,2% em 2017. Parece que muitos eleitores de esquerda mudaram para o SPD a fim de derrotar a CDU-CSU. A alternativa anti-imigração para a Alemanha (AfD) também perdeu terreno, caindo 2,3% pontos, embora tenha mantido a sua base eleitoral nas partes mais pobres da Alemanha Oriental.

A afluência global foi de 76,6%, apenas 0,4% acima de 2017. Isto parece elevado em comparação com as eleições nos EUA ou no Reino Unido, mas na realidade é baixo para os padrões alemães mesmo depois da anexação da Alemanha de Leste em 1990, onde a votação é mais baixa.

Comparecimento de votantes em eleições gerais na Alemanha de 1949 a 2017
Comparecimento de votantes em eleições gerais na Alemanha de 1949 a 2017.

Como previsto por mim, a percentagem de votos dos dois principais partidos caiu abaixo dos 50% pela primeira vez na história da República Federal. E dada a participação, isso significou que ambos os partidos obtiveram menos de um quinto de cada um dos 61 milhões de votos elegíveis – dificilmente uma vitória. A política alemã fragmentou-se – não são boas notícias para os capitalistas alemães, pois tornou-se mais difícil assegurar a “continuidade” para os interesses do capital.

Nenhum partido tem uma clara maioria no Bundestag, pelo que haverá meses de disputas. O líder do SPD Olaf Scholz deve ser o favorito para formar uma coligação governamental, mas os potenciais parceiros, os Verdes e o FDP, não concordam com as políticas económicas e sociais, e o FDP do ‘mercado livre’ preferiria uma coligação com a CDU-CSU. O SPD e os Verdes querem formar uma coligação, mas o FDP terá de ser persuadido, oferecendo-lhes o Ministério das Finanças e, por conseguinte, impedindo qualquer aumento de impostos ou regulamentação sobre as empresas e não permitindo que a dívida do governo aumente ainda mais, ou seja, um grau de “austeridade”. Os Verdes querem acelerar o avanço da Alemanha no sentido da redução das emissões de carbono, mas não têm nenhuma política crível para o conseguir dentro das restrições impostas pelo capitalismo alemão. Os aumentos dos salários mínimos e a redução do limite de velocidade nas auto-estradas alemãs são mais ou menos até onde poderão ir.

A Alemanha é o estado mais populoso da UE e a sua potência económica, sendo responsável por mais de 20% do PIB do bloco. A Alemanha tem preservado a sua capacidade de produção muito melhor do que outras economias avançadas. A manufactura ainda representa 23% da economia alemã, em comparação com 12% nos Estados Unidos e 10% no Reino Unido. E a indústria transformadora emprega 19% da mão-de-obra alemã, em comparação com 10% nos EUA e 9% no Reino Unido.

O êxito relativo do capitalismo alemão em comparação com outras grandes economias europeias tem sido baseado em três factores. O primeiro é que a indústria alemã utilizou a expansão da União Europeia para relocalizar os seus sectores-chave em áreas salariais mais baratas (primeiro, Espanha e Portugal, e mais tarde na vizinha Europa de Leste). Isto contrariou a queda acentuada da rentabilidade do capital verificada nos anos 70 (tal como em muitas outras grandes economias capitalistas).

Alemanha: taxa de lucro (%)
Alemanha: taxa de lucro (%).

Em segundo lugar, o capitalismo alemão foi o que mais beneficiou com a criação da zona da moeda única, colocando-a em forte posição competitiva no comércio dentro da zona Euro e mantendo baratas as compras de capital no estrangeiro.

Finalmente, as chamadas reformas laborais Hartz introduzidas sob o último governo do SPD criaram um sistema salarial duplo que manteve milhões de trabalhadores com salários baixos como empregados temporários a tempo parcial para as empresas alemãs. Esta é uma versão moderna do que Marx chamou um “exército de reserva de mão-de-obra”. Estabeleceu a base para o forte aumento da rentabilidade do capital alemão desde o início dos anos 2000 até ao colapso financeiro global.

Cerca de um quarto da mão-de-obra alemã recebe agora um salário de “baixo rendimento”, utilizando uma definição comum de um salário que é inferior a dois terços da mediana, o que é uma proporção mais elevada do que todos os 17 países europeus, excepto a Lituânia. Um estudo recente do Institute for Employment Research (IAB) descobriu que a desigualdade salarial na Alemanha aumentou desde os anos 90, particularmente na parte inferior do espectro de rendimentos. O número de trabalhadores temporários na Alemanha quase triplicou nos últimos 10 anos para cerca de 822 mil, de acordo com a Agência Federal de Emprego.

Assim, a reduzida proporção de desempregados na mão-de-obra alemã foi conseguida à custa dos rendimentos reais dos que trabalham. O receio de baixos benefícios se ficar desempregado, juntamente com a ameaça de deslocar empresas para o estrangeiro para o resto da zona Euro ou Europa de Leste, combinaram-se para forçar os trabalhadores alemães a aceitarem aumentos salariais muito baixos, enquanto os capitalistas alemães conseguiram uma grande expansão dos lucros. Os salários reais alemães caíram durante a era da Zona Euro e estão agora abaixo do nível de 1999, enquanto que o PIB real per capita alemão aumentou quase 30%.

Crescimento dos salários na Alemanha, % homóloga
Crescimento dos salários na Alemanha, % homóloga.

No entanto, mesmo o capitalismo alemão, a economia capitalista avançada mais bem sucedida do mundo, não conseguiu escapar às forças descendentes da longa depressão. Desde o colapso financeiro global em 2008-9, a rentabilidade alemã estagnou e depois começou a cair a partir de 2017, mesmo antes da queda da COVID em 2020. A rentabilidade está agora próxima dos mínimos do início da década de 1980.

Rentabilidade líquida do capital alemão (indexada), mensuração AMECO
Rentabilidade líquida do capital alemão (indexada), mensuração AMECO.

A queda da COVID foi um desastre para as fortunas do governo Merkel. A taxa de mortalidade do COVID pode ter sido mais baixa do que em França, Itália ou Espanha, mas foi muito mais elevada do que na Escandinávia (excepto na Suécia). E tal como no Reino Unido, os políticos de direita tiraram partido do investimento em empresas privadas de equipamento da COVID para ganhar dinheiro. O governo não conseguiu a seguir gerir as cheias de Verão extremamente prejudiciais que afectaram milhões. A economia alemã ainda não recuperou para níveis pré-pandémicos.

PIB real alemão por trimestre
PIB real alemão por trimestre.

E os níveis de produtividade são mais baixos do que há dez anos.

Produto por empregado (indexado)
Produto por empregado (indexado).

O sector transformador da Alemanha conduzido pela energia enfrenta sérios problemas na tentativa de cumprir os objectivos de aquecimento global. O seu principal destino de exportação após os EUA é a China; e a China está a abrandar, enquanto os EUA exigem que a Europa reduza as suas ligações comerciais e de investimento com a China. E a União Europeia já não é a vaca leiteira para o capital alemã. Os próximos quatro anos para o capitalismo alemão vão ser muito mais difíceis do que os últimos quatro.

Ao contrário da impressão geral, a Alemanha não é uma sociedade igualitária. As disparidades regionais são grandes (entre Ocidente e Oriente) e, embora a desigualdade de rendimentos não seja grande segundo os padrões internacionais, a desigualdade de riqueza está entre as piores da Europa.

G7: Desigualdade de riqueza e rendimento (índice Gini)
G7: Desigualdade de riqueza e rendimento (índice Gini).

O SPD ganhou (por pouco) porque obteve muitos votos da esquerda. Estes eleitores esperarão algumas mudanças: mais e melhores serviços públicos; impostos sobre os ricos; salários mais elevados. E dentro do SPD, há uma ascensão da esquerda, particularmente na secção da juventude, que quer acção. Scholz vai ter dificuldade em satisfazer as exigências das suas bases e permanecer numa coligação com gente como os FDP.


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A minha primeira análise das Eleições Autárquicas 2021

(Fernando Rodrigues, 27/09/2021)

O PS continua a ser o maior partido autárquico com grande distância para os outros todos, no entanto…. Teve derrotas importantes contra algumas coligações, que servem de alerta para o que se vai seguir a nível nacional e que talvez sirvam para o PS descer à terra e colocar de lado um dos seus grandes defeitos: a arrogância quando pensa que tem o poder absoluto. E isso é bom para o País.

PSD só ganhou algumas poucas Câmaras porque concorreu coligado com outras forças Políticas, exemplos concretos Lisboa e Coimbra onde muito dificilmente ganharia ou não ganharia mesmo se estivesse sozinho na corrida e mais ainda …. Por exemplo em Lisboa maioria dos eleitos não é dessa coligação, PSD 7, PS 7, CDU 2, BE 1, por isso cuidadinho com essas análises senhores pseudo jornalistas e pseudo especialistas comentadores da treta, quem ganhou as Eleições em Lisboa e Coimbra não foi um Partido, foi uma Coligação de vários partidos.

De salientar ainda e com grande destaque a estrondosa e enorme derrota da coligação PSD na Amadora, uma das maiores derrotas senão a maior da direita e da Extrema Direita, no País (pois a candidata tem muito que ver com extrema Direita, esta também uma grande derrota para o Chega).

CDU que teve um bom resultado em Lisboa e isso é importante, perdeu algumas Câmaras e não conquistou outras que tinha como objetivo conquistar, no global foi um mau resultado.

O BE teve um bom resultado no Porto, conseguindo tirar a maioria à coligação de Direita Liberal de Rui Moreira disfarçado de Independente o que é um feito assinalável e manteve o vereador em Lisboa, aumentando o número de votos. Continua o seu caminho de implementação a nível local em termos nacionais que já devia ser mais elevada. Resumindo no global um mau resultado.

Listas pseudo independentes: um bom resultado global, ganhando algumas Câmaras.

IL/chega/CDS. O IL conseguiu ganhar a batalha de influência nos votantes do PSD/CDS e abstencionistas substituindo o CDS, que só continua a existir porque interessa ao PSD que exista. IL o vencedor da luta fratricida entre os 3 pequenos e micro partidos de Direita e Extrema-direita.

André Ventura e o Chega tiveram algumas derrotas importantes. Não conseguiu ganhar Moura, uma grande derrota para André Ventura sem dúvida. Não conseguiu outro grande objetivo – captar em força os abstencionistas; não consegui outro objetivo – eleger 2 vereadores em Lisboa. Não teve grandes resultados em lugar nenhum. Não conseguiu ficar em terceiro a nível nacional, ficando em sexto lugar e teve resultados fraquíssimos noutros.

Resumindo a primeira grande derrota de André Ventura e do Chega. Outras se seguirão.


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Diálogo sobre o dia em que não se pode dizer

(José Pacheco Pereira, in Público, 25/09/2021)

Pacheco Pereira

Simplício, Sagredo e Salviati encontram-se junto ao rio. Está escuro, está de tempestade.

Sagredo – Já é tempo.

Salviati – Os rios são mais bonitos em dias de tempestade. O sol desmerece-os. A água fica melhor com a água. Os gregos sabiam disso. O de Éfeso gostava das correntes, dos caudais. Os de Eleia, não.

Sagredo – Sim, é melhor falarmos sobre as águas, porque hoje não se pode falar de mais nada.

Simplício – Eu acho bem. É preciso ordem, silêncio, dar descanso à exaltação.

Salviati – Mas qual exaltação? Não há, nunca houve nestes dias qualquer espécie de exaltação…

Sagredo – … nas ruas sim, esteve tudo sem ânimo. Mas nas rádios, jornais, televisões havia muita excitação…

Salviati – … por surtos. Faz parte da função, sem excitação, nada se vende.

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Simplício – Para mim está bem, paz nas ruas, ruído nas telas, nos papéis, nas ondas. O mundo assim fica bem ordenado. Hoje há paz por todo o lado. É um mau dia para os excitados.

Salviati – Bom, a coisa não é perfeita. Sempre temos as figuras de retórica para obscurecer o discurso e podermos falar do que não podemos falar. Por exemplo, como se vê, usar o paradoxo.

Sagredo – Poder, podes. Mas nestes meses tens boa companhia. Hipérboles há muitas. Amanhã “o sistema vai tremer”…

Simplício – … por causa do vulcão espanhol? Não chega cá.

Sagredo – Chega, chega.

Simplício – Não podes usar essa palavra.

Sagredo – Uso outra. Escorre para cá. Vem do Vox. Para falar da lava é um pouco um disfemismo, tratar uma coisa poderosa como sendo uma escorrência do domínio dos pântanos e dos esgotos.

Salviati – Eu gosto de vulcões, mas vocês estão a falar da Solfatara, e o vulcão espanhol não é dessa categoria.

Sagredo – Vulcões há muitos, fiquemos pois com os de cá. Fora dos Açores, só enxofre e águas minerais. Afinal falar de águas ajuda a não falarmos do que interessa.

Simplício – Não percebo nada.

Sagredo – Amanhã vai haver quem vá pagar o preço de usar só metáforas mortas, porque está com uma linguagem cansada, quase só metonímias. Na verdade, eles falam e nós nem abrimos as orelhas para ouvir.

Simplício – E eles não dão por ela?

Salviati – Não sei. Isto das orelhas é uma alegoria, mas se calhar nem eles mesmos ouvem, recitam. Nem é tanto pela razão do que dizem. É uma espécie de encantação para os fiéis e como cada vez há menos fiéis, menos resultados tem. A “lei da vida”, como um deles dizia há uns anos, acaba por fazer muitos estragos.

Simplício – Quando se desce, todos batem.

Sagredo – E os vivíssimos, que estão a substituir os ex-vivíssimos? Os do Adam Smith, que agora andam todos de ténis, saltam muito e fazem startups?

Salviati – O mestre deles disse: “Vindo da Cidade do Cepticismo, tive de passar pelo Vale da Ambiguidade.” Viram a entronização de Jaime Neves entre os heróis da Liberdade? Eles estão no Vale da Ambiguidade, mas faz-lhes falta a Cidade do Cepticismo.

Simplício – E os ex-vivíssimos? Estão um pouco para o triste, parece-me.

Sagredo – Tens razão, depois de se passar os 15 minutos da fama, o mundo deve parecer cinzento e nem a estrelinha brilha.

Salviati – A maldição das metáforas mortas também já chegou lá.

Sagredo – E os grandes como estão?

Simplício – Até eu, que sou o mais reaccionário e formalista de todos nós, percebo que estão mal…

Sagredo – … mas com males de diferente natureza. Um sofre do mal das grandezas, o outro da escassez de bens. Um tem demasiados “amigos” para alimentar, o outro tem demasiados abutres à espera do corpo.

Salviati – O mal das grandezas gera quedas maiores. A gravidade é uma fdp…

Simplício – Não podes dizer asneiras num jornal sério. Só se fores artista ou escritor de vanguarda e só no Ipsilon.

Salviati – Mas é mesmo. Os que sobem tem tendência para não perceberem que quanto mais alto estão, maior é a queda. E quase sempre caem ou por soberba ou por criarem mais problemas do que os que podem resolver. O dinheiro é bom tê-lo, serve para muita coisa, mas nunca é unívoco. Tem sempre um preço.

Sagredo – E estar atrás de uma bazuca queima. Os gases da propulsão do projéctil matam.

Simplício – E o outro?

Salviati – O outro é vítima de si próprio em muita coisa, mas é difícil andar na rua e ter uma árvore cheias de abutres a passear atrás dele…

Simplício – … as árvores não andam…

Salviati –… isso é o que tu pensas, homem simples. Andam, andam, com o combustível apropriado e esse combustível não falta.

Sagredo – “Sarcasmo”, diria Sheldon Cooper.

Salviati – Vê lá como estamos, começamos com os gregos a acabamos no Big Bang.  O mundo já não é o que era…

Historiador


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