Todos querem a guerra

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 29/04/2022)

A imagem de António Guterres no Kremlin, sentado na mesa punitiva de seis metros de Vladimir Putin, é penosa, quase humilhante. Pelo homem em si e pelo cargo que ocupa, o de mais alto dirigente da única organização que representa politicamente todas as nações do mundo e cuja razão de ser é a manutenção da paz. Tão tardia quanto previsivelmente inútil, a viagem do secretário-geral da ONU a Moscovo serviu apenas para se fazer distratar por Putin, não constando sequer que se tenha atrevido a sugerir-lhe um acordo de paz para os tempos mais próximos. Mas Guterres pôs-se a jeito para isso quando, logo no dia seguinte à invasão da Ucrânia pela Rússia, tratou de a condenar, em lugar dos habituais apelos à paz e à conciliação, oferecendo-se como mediador entre as partes. Escreveu-se que ele tinha tomado a posição certa no conflito, mas não é isso que cabe a um secretário-geral da ONU: as condenações ficam para a Assembleia-Geral e o Conselho de Segurança, o secretário-geral deve reservar as suas opiniões pessoais para salvaguardar o seu papel de negociador do conflito. Os russos não lhe perdoaram essa tomada de posição, agravada ainda pela sua condenação imediata do massacre de Bucha, sem esperar pelos resultados de inquéritos independentes, nomeadamente do TPI, um órgão da própria ONU com competência para tal. A partir daí, o próprio Guterres desistiu de qualquer tentativa de ser agente da paz nesta guerra e foi só sob pressão de antigos e actuais quadros superiores da ONU que se dispôs a ir a Moscovo, mas tão certo de sair de lá de mãos a abanar que também foi lá sem nada levar de novo para propor.

Dias antes, Guterres também assistiu em silêncio ao rasgar dos compromissos da Espanha para com o Sara Ocidental, quando Pedro Sánchez escreveu ao rei de Marrocos a aceitar, de facto, a anexação do território juridicamente ainda sob administração espanhola. António Guterres, que, quando PM de Portugal, foi determinante para convencer Bill Clinton e a ONU de que Timor-Leste — também anexado pela Indonésia numa situação jurídica em tudo idêntica à do Sara Ocidental — tinha o direito a expressar-se livremente em referendo, desta vez ficou calado perante a traição de um dos “nossos”, apesar de há vá­rios anos estar em vigor uma resolução do CS da ONU que impõe um referendo semelhante no Sara Ocidental e estar instalada uma missão internacional com o objectivo de o levar avante. Foram semanas desastrosas para descredibilizar a imagem de um mínimo de utilidade e eficácia sem a qual a ONU não faz sentido e de que provavelmente ela jamais recuperará. Pena que tenha acontecido sob a presidência de um português e de alguém tão notável como António Guterres.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 Verdade se diga, porém, que a missão de António Guterres em Moscovo — se é que ela alimentava a secreta esperança de arrastar a Rússia para a mesa das negociações — era virtualmente impossível. Não apenas por ter arrancado mal e chegado tarde, mas também por ter chegado a más horas. Nenhum dos três lados em conflito — Rússia, Ucrânia e NATO — quer a paz agora.

Se algum dia esteve disposto a aceitar a paz em troca da renúncia da Ucrânia em aderir à NATO, do reconhecimento da anexação da Crimeia ou da independência do Donbas, ou de tudo isso, agora, com o seu Exército humilhado, o seu país transformado num Estado pária e ele próprio insultado como “assassino”, “criminoso”, “genocida” ou “bandido” pelo Presidente dos Estados Unidos, Putin não parece disposto a aceitar menos do que aquilo que possa proclamar internamente como uma vitória militar no terreno. A única dúvida é a geografia dessa vitória: chegar-lhe-á o Donbas ou só se contentará se conquistar também o sul da Ucrânia, Odessa incluída? E até onde estará disposto a ir para tal — até à III Guerra Mundial, como avisou o sibilino Lavrov?

Do lado ucraniano, Zelensky fala cada vez menos em negociações e cada vez mais em aviões, tanques, armas pesadas. Inebriado pelo sucesso da resistência do seu Exército perante o invasor e incitado pela assistência militar e a opinião pública ocidental, Zelensky alimenta hoje um sonho que se diria impensável há três meses: o de derrotar o Exército russo.

Nenhum dos três lados em conflito — Rússia, Ucrânia e NATO — quer a paz agora

Quanto à NATO, a terceira parte neste conflito e cada vez mais abertamente envolvida nele, expliquei aqui há três semanas as razões pelas quais esta guerra na Ucrânia lhe serve, e aos Estados Unidos, de excelente campo de estudo, de treino e de ensaio das forças do inimigo e das suas pró­prias. Aquilo que começou por ser uma ajuda à Ucrânia com o objectivo de retardar o avanço russo transformou-se, com as inesperadas dificuldades deste, numa irresistível tentação de ir muito mais além: convencer os ucranianos de que, bem armados pela NATO, podiam derrotar os russos e, em qualquer caso, podiam prestar ao Ocidente o inestimável serviço de desgastar profundamente o aparelho militar russo. Inadvertidamente ou não, o secretário da Defesa americano, Lloyd Austin, de visita a Kiev esta semana, deixou escapar qual é, actual­mente, o objectivo dos Estados Unidos, pela mão da NATO: “Queremos ver a Rússia enfraquecida ao ponto de deixar de poder fazer coisas como a invasão da Ucrânia.” Por seu lado, o secretário de Estado, Antony Blinken, também não conseguiu disfarçar o seu entusiasmo perante o Congresso, declarando que se a Ucrânia passar ao contra-ataque — por exemplo, no Donbas ou na Crimeia — a NATO continuará a apoiá-la, e já não para defesa própria. É por isso que agora os alvos militares preferenciais dos russos são os comboios e as linhas férreas que trazem o material militar da NATO para a Ucrânia e os locais onde ele é armazenado. E o perigo é que passem a visar os mesmos alvos fora das fronteiras da Ucrânia, desencadeando a tal III Guerra Mundial de que falou Lavrov.

Eis então onde estamos. Um urso ferido perseguido por dois caçadores que já não querem apenas expulsá-lo do seu território, mas dar-lhe uma sentença de morte. Só que o urso ferido continua perigoso, talvez até mais perigoso, e carrega à cintura uma bolsa de milhares de armas nucleares que podem explodir com ele. E o mais impressionante de toda esta bebedeira de morte é que nenhuma das três partes, nem mesmo a Ucrânia, parece querer deter-se perante as imagens de destruição paulatina de um país e de milhões de vidas destroçadas.

3 O Irão pode voltar a ser o próximo foco de destabilização mundial. O Irão é um país maravilhoso, com um povo submetido a um regime teocrático demencial e ditatorial. Apenas para poderem amea­çar os seus vizinhos e o mundo, os ayatollahs resolveram a certa altura dotarem-se da bomba atómica, iniciando o processo de enriquecimento de urânio. Obama conseguiu negociar um acordo com o aval de todos os membros do CS da ONU mais a Alemanha, decretando a suspensão do processo a troco do levantamento das sanções económicas ao país, que só afectam o seu povo. Israel tentou tudo para boicotar esse acordo, propondo uma via alternativa, que se traduziu, por exemplo, no espectacular assassínio do cientista que dirigia o programa nuclear do Irão. Então, Trump rasgou o acordo e o Irão voltou ao enriquecimento de urânio e os Estados Unidos às sanções, a que obrigaram todos os países. Chegado ao poder, Biden quis retomar o acordo e, após um ano de negociações que agora pareciam à beira de um desfecho finalmente feliz, Israel voltou a conseguir emperrar tudo, do lado de fora, exigindo que os Guardas da Revolução irania­nos continuem na lista das organizações terroristas dos Estados Unidos. Ao que parece, Biden vai aceitar a exigência israelita sobre a política interna americana, com isso permitindo que o Irão prossiga os seus esforços para se dotar da arma atómica e continuando a condenar os iranianos aos efeitos das sanções económicas de que não têm culpa alguma. Ora, que os Guardas da Revolução são uma organização sinistra — e provavelmente classificável como terrorista, para efeitos internos — não há dúvida. Mas alguém se lembra de atentados terroristas cometidos por eles no exterior? Eu lembro-me, sim, dos talibãs, em cujas mãos Biden deixou o Afeganistão, ou dos terroristas do Daesh, combatidos por ninguém mais do que os curdos na Síria, ao lado dos americanos e salvando imensas vidas americanas, e depois abandonados por Trump à fúria vingativa do “aliado” Erdogan, da Turquia.

No mundo em que vivemos, os conceitos de amigos e inimigos, aliados e adversários, terroristas e combatentes pela liberdade variam conforme a geografia, o tempo e os protagonistas. Mas parece que agora, subitamente, fez-se luz em muitos espíritos e tudo se tornou exemplarmente simples: há os “nossos” e os “outros”. Como alguém explicava há dias, o acolhimento aos refugiados ucranianos (que eu aplaudo) é devido porque eles “são dos nossos”, e por isso a Polónia já recebeu três milhões deles. Mas os milhares que a Polónia mantém escondidos de todos os olhares em campos cercados de arame farpado na floresta — entre eles, curdos e afegãos fugidos dos massacres de Assad e Erdogan ou dos talibãs — já serão dos “outros”, e por isso não se fala deles. Ficamos entendidos, não há nada como simplificar.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Para acabar de vez com este sufoco

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 14/04/2022)

Miguel Sousa Tavares

Neste texto, entre cada parágrafo, irei repetir esta frase:

— A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

Digo isto não só porque é o que penso e já escrevi antes mas também para ficar mais uma vez lavrado em acta. Pois é aqui que chegámos, é aqui que estamos e é neste clima que, a propósito da guerra na Ucrânia, estamos a viver: num clima de intimidação concertada sobre o pensamento como nunca antes vivi em 30 anos de escrita em jornais. Quem não pensa exactamente segundo a cartilha pronta a pensar fornecida pela NATO e pelos países-guia do mundo ocidental é imediatamente catalogado como amigo de Putin e cúmplice moral das atrocidades russas na Ucrânia. Portanto, é preciso repetir:

— A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Porém, eu sei que dizer isto é inútil. Não se trata de discutir pontos de vista, até úteis para o futuro, de rebater argumentos ou de revisitar a história. A maior parte dos novos cruzados, arautos da guerra à distância, e novos censores ainda ontem nada sabiam da Rússia, da sua história ou da história da expansão da NATO para leste e nada lhes interessava a política internacional, entretidos que estavam a divagar sobre minudências da política doméstica, a educação dos filhinhos ou as tendências das redes sociais: com esses nem vale a pena perder tempo. Com outros, todavia, o caso é mais sério. Podiam e deviam discutir as opiniões contrárias sem recorrer à absoluta falta de seriedade intelectual e a argumentos de puro terrorismo e delação pública. Todos os dias leio dois ou três textos destes e até me pergunto como é que não têm vergonha de alinhar em tamanha campanha ostensiva de apelo ao silenciamento e ao linchamento moral de quem não pensa tal qual como eles, mesmo que digam e repitam o que eles fazem de conta que não ouviram:

— A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

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No “Público”, por exemplo, Francisco Mendes da Silva, alguém que eu leio sempre com interesse, escreveu um texto cujo título resume toda uma sentença: “Sejam adultos, assumam que querem a vitória da Rússia”. Para ele, estas pessoas, que veladamente desejam a vitória militar de Putin, “continuam a querer contaminar a discussão com uma complexidade que não existe”, quando “o seu problema não é a dificuldade de pensar, é a dificuldade de assumirem o que verdadeiramente pensam”. Cobardes, portanto: tão simples quanto isto. Por exemplo, gente como Kissinger, como George Keenan, como Mário Soares ou Luís Amado, que, em devido tempo, avisaram que a expansão da NATO a leste era um grave erro geoestratégico e político, que traria necessariamente consequências para a paz, eram simplesmente pró-russos e cobardes. Pelo contrário, aqueles que imaginaram que Gorbachov e os seus sucessores iriam desmantelar o Pacto de Varsóvia, pôr termo à Guerra Fria e reconhecer a independência de 14 países antes sob a alçada da URSS e, simultaneamente, aceitar que eles passassem a integrar a NATO e pudessem instalar nos seus territórios mísseis nucleares tácticos capazes de atingir Moscovo em poucos minutos sem que a Rússia se sentisse ameaçada eram apenas genuínos defensores da paz e visionários perante Vladimir Putin ou qualquer outro Pedro, o Grande, reencarnado. Bem, a esta corajosa gente eu também poderia dizer: “Sejam adultos e assumam que o que querem é ver a NATO entrar na guerra e esmagar a Rússia, ou então prolongá-la indefinidamente até conseguir o mesmo resultado.” Mas não é preciso que eu o diga, disse-o o Presidente ucraniano, Zelensky, na sua entrevista à “The Economist”: “Há quem no Ocidente não se importe com uma longa guerra, porque isso significaria esgotar a Rússia, mesmo que represente o desaparecimento da Ucrânia e o sofrimento do seu povo.” Mas deixem-me que repita:

— A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

E volto a acrescentar, para que fique claro: nem a NATO nem o Ocidente começaram a guerra, foi a Rússia e Putin. A responsabilidade é dele, as mortes e a destruição são responsabilidade dele, os crimes conhecidos até hoje são dele. Porém, e desde sempre, a minha tese (se é que me permitem ter uma) é esta: com excepção de Macron, ninguém, entre os países ocidentais, tentou seriamente evitar a guerra ou pôr-lhe termo, uma vez iniciada. Neste momento, é verdade que Putin já não parece nada interessado num acordo de paz, embriagado pelo sinistro grito de “viva la muerte!” já deixou de pensar como alguém razoável ou mesmo humano. Mas houve momentos antes em que isso pareceu possível e em que ninguém no Ocidente se mostrou disponível para ajudar. Zelensky tem razão: a continua­ção da guerra agora não convém só a Putin, também convém à NATO. E convém por várias razões — militares, estratégicas, políticas e económicas —, reflectindo os interesses dos países dominantes da Organização, de que o seu secretário-geral, Jens Stoltenberg, é fiel servidor: Estados Unidos, França, Inglaterra, Canadá. Razões militares: a Ucrânia é um excelente campo de batalha convencional como nunca a NATO experimentara, tendo apenas sido testado em guerras de contraguerrilha ou contra forças mal equipadas no Iraque, Afeganistão, Somália, Síria, Balcãs; mais, esta guerra é uma insubstituível oportunidade para avaliar o grau de eficiência das Forças Armadas russas em combate, do seu armamento, preparação e logística, e, paralelamente, da capacidade de resposta dos dispositivos da NATO. Razões geoestratégicas e políticas: depois do inacreditável erro de avaliação de Putin, a NATO, achincalhada por Trump e declarada em “morte cerebral” por Macron, ressurgiu agora como uma inevitabilidade face à nova ameaça russa e prepara-se para integrar a Suécia e a Finlândia e afirmar-se como entidade indispensável e inquestionável. Razão económica: o rearmamento de todos os seus 29 membros é um maná caído do céu para os grandes fabricantes de armas dos países líderes da Organização, cujos interesses determinam a sua sobrevivência. Mas nada disto impede que:

— A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

E, obviamente, nada disto também equivale a dizer que a culpa da guerra é da NATO e dos Estados Unidos, como escreveu acerca dos “cobardes” António Barreto, num texto que um dia talvez venha a lamentar ter escrito. Que a responsabilidade da guerra é da Rússia é um facto inegável; que a NATO cercou a Rússia é outro: não sei como é que alguém de boa-fé pode negar qualquer um deles. Porém, nesse texto, e na sua fúria acusatória a propósito do massacre de Bucha e outros, escreve António Barreto: “Há quem (diante disto) seja subitamente invadido por escrúpulos jurídicos e exija comissões independentes para analisar a situação no terreno, identificar as vítimas e fazer relatórios sobre as circunstâncias das mortes.” Fico na dúvida se para ele nada disto interessa e convém investigar ou se o problema está em ser investigado por uma comissão independente: talvez fosse melhor se fosse investigado pela London Metropolitan Police, como pateticamente propôs a secretária do Foreign Office. Todavia, e a propósito de Bucha, cito-lhe Ursula von der Leyen, de visita ao local do massacre e mesmo assim invadida de escrúpulos jurídicos: “É extremamente importante que tudo seja bem documentado para evitar derrotas em tribunal se as provas não forem suficientemente fortes” — ou seja, o Estado de Direito, esse detalhe que distingue as democracias das sociedades sem escrúpulos jurídicos. Mas, tal como Mendes da Silva, também António Barreto acusa os que divergem dele “da mais covarde atitude, que consiste em não dizer o que realmente pensam, escondendo-se atrás do biombo da hipocrisia”. Eu leio isto e custa-me a acreditar que um intelectual que o país se habituou a admirar como alguém que sempre pensou livremente e tantas vezes ao arrepio da opinião dominante seja agora capaz não apenas de presumir a opinião oculta dos outros mas ainda de chamar-lhes cobardes por não confessaram a hipocrisia de que os acusa, como ele gostaria que fizessem. E, desenfreado, acabar a acusá-los de, “diante do incómodo causado pela violência bruta e pela destruição cega, terem a desfaçatez de pedirem pensamento”! Esta assassina frase é de uma absoluta indignidade: pressupõe que para os que ousam pensar diferente dele sobre questões laterais o essen­cial — as imagens de morte e destruição que todos vemos — são apenas um “incómodo” para as suas ideias. E isso permite-lhe, tendo-os desclassificado ao nível dos pró­prios criminosos de guerra, acusá-los da desfaçatez de quererem pensar! Mas, com toda a amizade de sempre, digo ao António Barreto: eu não peço pensamento, não peço licença para pensar. Nem peço nem exijo, porque não é preciso, vivendo, felizmente, em democracia. Simplesmente exerço o direito que me assiste, sem me escudar em abaixo-assinados nem me intimidar com a fúria que possa causar a “desfaçatez de pensar” diferente e de assim “contaminar a discussão”.

E não: não penso aquilo que eles queriam que pensasse e que lhes dava jeito confessar que pensava. Lamento o incómodo, mas penso exactamente aquilo que escrevo. E adiante veremos o preço inteiro desta guerra tão desejada por alguns.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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O triunfo da morte

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 09/04/2022)

Miguel Sousa Tavares

(Começo por dar os meus rasgados elogios ao Miguel Sousa Tavares. Contra o unanimismo acéfalo e a critica dos inquisidores ainda há quem saiba pensar e tenha coragem de enfrentar a turba. Sim, porque a turba se exalta perante os “trânsfugas” e já parte para a ameaça, eu que o diga. Bem hajas, MST.

Estátua de Sal, 09/04/2022)


Alguma coisa de estranho se deve estar a passar comigo: eu olho para as notícias e as imagens de Bucha e a minha primeira e única reacção é pensar: “É preciso evitar a todo o custo que isto se volte a repetir. É preciso parar imediatamente com esta guerra sem sentido, com a destruição de cidades e casas, com a morte de civis e crianças, em nome de nada que o justifique. Como é possível, estarmos a assistir a isto, dia após dia, sem que os dirigentes mundiais façam o possível e o impossível para acabar com este pesadelo?”

Mas parece que só eu e uma minoria de ‘pacifistas’ — que agora é um termo pejorativo — pensamos assim. Logo após a difusão das imagens mostradas pelos ucranianos à imprensa ocidental, os principais dirigentes dos países da NATO reagiram imediatamente com a promessa de enviar mais armas para a Ucrânia e decretar mais sanções à Rússia, enquanto que o secretário-geral da NATO, Stoltenberg, dizia anteontem duas coisas reveladoras: uma, que há vários anos que a NATO vem dotando a Ucrânia de armamento sofisticado e treinando as suas Forças Armadas, o que quer dizer que já a tratava como membro de facto e já esperava a guerra; e outra, que as opiniões públicas deveriam estar preparadas para uma guerra longa de meses ou até mesmo de anos — música para os ouvidos dos fabricantes de armas, já sobrecarregados com encomendas para que cada país membro cumpra os 2% do PIB em despesas militares.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Aos ‘pacifistas’ — isto é, aos que estupidamente, antes e depois da guerra começar, insistem em defender uma solução pacífica, independentemente de saber de quem é a culpa ou quem é o invasor — contrapõem-se os ‘moralistas’, os eticamente puros, entre nós representados por aqueles que, confortavelmente entrincheirados atrás do seu computador, adoptam a atitude bem portuguesa do “agarrem-me senão eu mato o Putin”. Embora convenha distinguir duas categorias entre estes últimos: há os que, apesar de tudo, reconhecem que até com o Diabo é preciso negociar, mas só depois de o vencer — o que remete para a solução Stoltenberg; e há os eticamente intransigentes, os puros entre os puros, para quem, à partida, está excluída qualquer negociação com um ‘assassino’ — é a solução Biden, que, como se imagina, tem historicamente registado inúmeros acordos de paz e poupado incontáveis vidas. Entre estas duas variantes ‘moralistas’ flutua o grosso de uma opinião pública que, contraditoriamente, é muito fácil a mobilizar-se contra a barbárie que vê nos écrans (quem o não é?), mas predisposta a aceitar a continuação dessa mesma barbárie em nome do castigo ético ao invasor — cujas consequências, por ora, apenas os ucranianos sentem na pele.

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Mas eu não sou um pacifista por profissão de fé: se o fosse, teria de ser contra a existência de Forças Armadas e não sou. Aceito a tragédia das guerras quando elas são justas e são justas quando são inevitáveis. Quando, por exemplo, como sucede agora na Ucrânia ou como sucedeu na 1ª Guerra do Golfo, um país se defende da invasão injustificada de outro. Mas não engoli guerras feitas por encomenda de fabricantes de armas ou por orgulho imperial, como o foram a 2ª Guerra do Golfo, desencadeada contra a ONU, sob um falso pretexto e com falsificação de provas, ou a guerra da NATO contra a Sérvia, apenas para caçar Slobodan Milosevic, a mais cobarde guerra até hoje, em que uma cidade foi bombardeada sistematicamente a partir do céu sem que os atacantes jamais vissem o inimigo ou arriscassem uma única baixa. Porém, seja qual for o lugar em que nos situemos e seja uma guerra justa ou injusta, chega um ponto (de preferência antes de ela começar) em que o que está em causa é deter a loucura humana, perceber que, qualquer que venha a ser o seu desfecho, ele será sempre devastador. E este é o caso da guerra na Ucrânia.

Esta guerra não apenas está a destruir fisicamente a Ucrânia e a demolir paulatinamente todos os alicerces em que se fundou o sistema que garantiu a paz na Europa durante 70 anos. Perante o entusiasmo irreprimível de alguns, vamos também a caminho do que já chamam a “nova Guerra Fria” ou o “regresso à História” (como se só houvesse História em ambiente de guerra), e a que o Papa Francisco chamou “a loucura do rearmamento”. O caso alemão é eloquente: da noite para o dia, sem sequer debate interno e perante o aplauso de todos os seus parceiros europeus, a Alemanha decidiu quebrar o tabu do desarmamento e passar também a gastar 2% do PIB em Defesa. A maior potência económica europeia, até aqui desarmada, vai tornar-se também uma potência militar (logo depois, inevitavelmente nuclear), no coração da Europa. É verdade que hoje a Alemanha é um país democrático, governado por democratas desde o pós-guerra, mas é impossível não sentir um arrepio pensando no que está para trás e, sobretudo, nestes tempos de nacionalismos crescentes, pensando na hipótese de um dia a AfD chegar ao poder numa Alemanha armada e nuclearizada.

Pois continuem lá os meninos à roda da fogueira, a entreterem-se com a sua querida guerra e os seus altos valores éticos e bélicos, que facilmente haverá quem lhes agradeça. Não os mortos da Ucrânia, certamente; mas os fabricantes de morte e os negociantes dos despojos

Mas há ainda a vertente económica da guerra, que os ‘moralistas’ gostam de descartar como considerações ‘egoístas’. Veremos a prazo como esse ‘egoísmo’ representa afinal a defesa de um número infinitamente maior de vidas humanas (sim, de vidas) do que aquelas que estão em causa na Ucrânia — não tanto na Europa rica, mas nos lugares onde aquilo que de mal fazem os ricos tem sempre consequências trágicas: em África, na Ásia, nos países pobres da América Latina. Voltemos ao caso alemão: vão gastar 2% do PIB em despesas militares; mais 1,5% se, como tudo o indica, tiverem de prescindir do gás e do petróleo russos, de acordo com um estudo feito por um grupo de economistas ‘optimistas’ (tenho algumas prateleiras de estantes lá em casa com estudos de economistas destes, numa secção a que chamo “cemitério das ideias brilhantes”); e devem ter de vir a gastar mais 0,5% em ajuda à reconstrução da Ucrânia e a financiar a sua adesão à UE. Tudo somado, estamos a falar de 4% do PIB alemão, a ‘locomotiva’ económica da Europa. Todos os países, como Portugal, cujas economias são, por sua vez, altamente dependentes das compras alemãs, vão sofrer a sério. Já vamos com a inflação acima dos 5%, mas ainda não vimos nada. Outros candidatos ao meu cemitério particular acham que nós, portugueses, vamos resistir, graças à importação de petróleo americano a ‘preços de amigo’, graças ao Terminal de Sines e ao sempiterno turismo. Desiludam-se, vamos ganir. Vamos todos suplicar por paz.

Mas há mais e pior, excepto para aqueles que fazem parte da categoria dos “sonâmbulos caminhando para o abismo”, como os classificou António Guterres. Uma das imediatas consequências da guerra na Ucrânia é o abandono, puro e simples, das metas do Acordo de Paris e dos documentos com força de lei internacional assinados ainda há poucos meses na Cimeira do Clima de Glasglow, no que se refere à limitação da emissão de gases com efeito de estufa. Para simplificar, recordo que, de acordo com o que foi estabelecido, até 2025 todas os grandes emissores de gases terão de ter atingido o topo das suas emissões, começando a cortá-las a partir daí drasticamente, de modo a conseguir que o planeta não aqueça mais do que 2 graus Celsius até final do século — o limite de pré-catástrofe. E, para tal, o que se convencionou foi que se começaria por encerrar as centrais a carvão, a mais poluente fonte de energia fóssil. Ora, numa atitude de grande coragem, e em reacção ao massacre de Bucha, Bruxelas acaba de cortar a importação de carvão russo para a Europa. Sabem o que isso significa? Luz verde para a reactivação das centrais a carvão que já tinham sido encerradas na Alemanha e na Inglaterra, para a construção de novas centrais em vários países e para a proliferação das centrais polacas. Isto, depois de a energia nuclear já ter sido considerada ‘energia verde’ para efeitos de beneficiar de verbas dos PRR ou de não se ter falado sequer em cortar um dólar que fosse aos quase 6 biliões de dólares de subsídios a favor das indústrias do carvão, petróleo e gás. Assim vai o mundo, como se dizia dantes.

Pois continuem lá os meninos à roda da fogueira, a entreterem-se com a sua querida guerra e os seus altos valores éticos e bélicos, a tentar intimidar e reduzir ao silêncio quem não pensa como eles, que facilmente haverá quem lhes agradeça. Não os mortos da Ucrânia, certamente; mas os fabricantes de morte e os negociantes dos despojos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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